Atendimento é caótico em Upa Buriti Sereno de Aparecida

Unidade conta com somente dois médicos para a checagem de pacientes. O ideal é que cinco médicos estejam trabalhando por turno

Postado em: 08-05-2018 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Unidade conta com somente dois médicos para a checagem de pacientes. O ideal é que cinco médicos estejam trabalhando por turno

Gabriel Araújo*

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A UPA Buriti Sereno, em Aparecida de Goiânia, está com déficit de profissionais para o atendimento da população, o jornal O Hoje visitou o local nesta segunda-feira (7) e constatou que somente dois profissionais estavam realizando exames físicos. O ideal, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) é que cinco médicos estejam trabalhando por turno, três clínicos gerais e dois pediatras.

A dona de casa Maria de Lurdes, de 51 anos, conta que o tempo de espera passa das 8 horas. “Cheguei as 10 horas da manhã e já são 4 horas da tarde. Eles fazem a fixa e a gente tem de esperar, mas como tem pouco médico ninguém sabe a hora que vai ser atendida”, disse.

Um dos funcionários da UPA, que preferiu não se identificar, afirmou que a quantidade de médico nunca é fixa. “Era para ter mais, mas só porque precisa não significa que vai ter, depende da distribuição da Secretaria. Muitos não trabalham pelo salário e as condições que são,” lembrou.

Fernanda Dourado, de 30 anos, disse que está com o pé enfaixado há mais de 7 horas e não vê movimentação para o atendimento. “Hoje eles já pararam o atendimento e mandaram gente embora falando que não tinha médico o suficiente. O pior é durante a noite, que a gente não acha médico nunca”, falou.

Segundo informado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Aparecida de Goiânia, em nota ao jornal O Hoje, novos médicos estão sendo contratados para que a demanda seja estabilizada. “Nesta segunda-feira (7), a UPA Buriti está funcionando com três clínicos, mais um medico na estabilização, um na enfermaria e um ortopedista. Para resolver a demanda por atendimento pediátrico na unidade, a SMS está elaborando formas de melhorar os fluxos de profissionais dessa especialidade em toda a rede de Aparecida. Só no último mês, 100 novos médicos foram contratados para reforçar as equipes”, afirmou o órgão.

Dados oficiais cedidos pela SMS de Aparecida de Goiânia mostram que o município conta com cerca de três mil profissionais de saúde, divididos entre médicos, enfermeiras e técnicos de enfermagem. São 36 unidades básicas de saúde, cinco de unidades de emergência e uma maternidade geridos pelo poder público municipal. Segundo a pasta, são pouco mais de 700 médicos divididos em todas as 42 unidades de atendimento.

De acordo com o órgão, nas unidades de urgência e nos Centro de Atenção Integrada à Saúde (Cais), onde são ofertados serviços ambulatoriais e de emergência, são cinco médicos por turno de 12 horas, com dois pediatras e três clínicos gerais. Nestas unidades, os pacientes recebem o atendimento básico e são encaminhados para especialistas que realizam os tratamentos mais complexos.

No último dia 30 a auxiliar de produção Layane Eveny Pereira de Sales, de 31 anos, morreu enquanto esperava por uma vaga em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ela estava internada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Geraldo Magela, no setor Parque Flamboyant em Aparecida de Goiânia, e apresentava quadro de dengue.

A Secretaria Municipal de Saúde de Aparecida de Goiânia afirmou, em nota, que a paciente estava recebendo cuidados compatíveis com terapia intensiva à espera de liberação de vaga de UTI em unidade especializada. De acordo com o texto, “a gravidade do seu quadro clínico impossibilitou o transporte e ela acabou não resistindo”.

Atendimento Básico

Conforme informado pela pasta, os atendimentos mais simples são realizados nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), que contam com profissionais que trabalham com o programa de Estratégia de Saúde da Família. Nestes casos, as equipes são formadas por um médico generalista, um enfermeiro, um técnico em enfermagem e agentes comunitários.

Estas unidades estão preparadas para realizar o atendimento em diversos casos, já que os profissionais das equipes tem uma formação generalista, prontos para atender todas as patologias. Em casos de complexidade maior, os pacientes são encaminhados para outros níveis de atenção, como o secundário, onde estão os especialistas e a terciário, em casos de internação hospitalar.

O programa de Estratégia de Saúde da Família é o projeto de atendimento básico do Governo Federal implantado no município em 1998 para reorganizar a atenção básica e primária do Sistema Único de Saúde (SUS), como os casos de consultas e solicitações de exames. 

Problemas generalizados na Saúde preocupam 

No último mês de março, a Maternidade Marlene Teixeira, em Aparecida de Goiânia, estava funcionando com irregularidades, como a falta de higiene e materiais para operações e cirurgias. Na época, o Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), realizou uma fiscalização e foram encontrados problemas estruturais, com uma cesariana sendo realizada com o uso de lanterna de um telefone celular e médicos operando sem os equipamentos de proteção individual.

O vice-presidente do Cremego, Aldair Novato Silva, afirmou que os procedimentos realizados no local colocam a vida de profissionais e pacientes e risco. “A maternidade estava funcionando de uma maneira extremamente precária. Não havia campos cirúrgicos estéreis, ou seja, para proteção do paciente. Quer dizer, qualquer cirurgia que fosse feita naquela unidade naquele momento, seria feita de uma forma absolutamente sem condição”, completou.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Aparecida de Goiânia afirmou que a demanda na maternidade Marlene Teixeira foi acima do esperado para o período, e que precisava se reunir com o Cremego para discutir problemas relacionados à Saúde na cidade. A secretaria ainda afirmou que, não existe falta de materiais para a realização dos trabalhos da equipe médica na unidade.

Estudo

A pesquisa “Demografia Médica 2018” referente a quantidade de médico que o estado de Goiás e apresentada no final do primeiro trimestre deste ano, concluiu que o Estado possui 13.360 médicos, o estudo é realizado anualmente desde 2010 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Segundo a pesquisa, o Estado tem 1,97 profissionais por mil habitantes, o que corresponde a uma taxa menor que a nacional, de 2,18 médicos por mil habitantes.

A pesquisa ainda aponta que 61,5% dos profissionais do estado possuem alguma especialidade, sendo 38,5% mulheres e 61,5% homens. O principal problema enfrentado na busca de uma melhora no atendimento é a desigualdade na concentração de médicos, Goiânia possui 8.966 profissionais, o que corresponde a 67% dos médicos de Goiás.

Para o estudo, a cirurgia geral concentra a maioria dos especialistas do Estado, são 1.124, seguida pela clínica médica, com 1.056, ginecologia e obstetrícia, com 971, pediatria 947, e anestesiologia 751. As especialidades com menor número de especialistas são genética médica, com 6, cirurgia de mão, com 12, medicina esportiva, que possui 16 profissionais, cirurgia torácica tem 17, radioterapia tem 18 e cirurgia de cabeça e pescoço e medicina nuclear, com 23.

O Brasil tem hoje 452,8 mil médicos, o que corresponde a 2,18 médicos por mil habitantes. Os homens são maioria nessa profissão, 55,1%, enquanto as mulheres são 44,9%. Em 2010, data de realização da primeira demografia médica, as mulheres eram 41% do conjunto de profissionais. (Gabriel Araújo é estagiário do jornal O Hoje sob orientação do editor de Cidades Rhudy Crysthian). 

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