Pregueiros se reinventam para continuar no mercado

Postado em: 31-07-2019 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Comerciantes de móveis e eletrodomésticos usados também passaram a vender produtos novos

Igor Caldas

Especial para O Hoje

Conhecidos popularmente por “pregueiros”, comerciantes de móveis e eletrodomésticos usados estão tendo que se virar para sobreviver no mercado. Sites especializados em vendas de produtos de segunda mão fizeram com que o pregueiro ficasse descaracterizado. O crescimento da venda desse tipo de produto pela rede aumentou a dificuldade de fornecimento aos revendedores. Por isso, eles também passaram a comercializar artigos novos e acabam tendo que concorrer com as grandes lojas do ramo.

A equipe de reportagem do jornal O Hoje foi até o reduto dos pregueiros na Avenida Rio Verde, em Aparecida de Goiânia, para confirmar que os lojistas têm mesmo feito mudanças nas vendas para sobreviver. Raudini Messias trabalha há 30 anos com revenda de móveis e tem uma loja na Avenida Rio Verde há 12 anos. Ele afirma que passou a fazer encomenda de móveis novos para revender em seu estabelecimento.

“O que espantou o usado foram os sites especializados em vendas de produtos de segunda mão. O comprador acaba fazendo um atalho e chega ao produto antes de passar pela gente. Aí desaparece o comprador e o fornecedor. O artigo que acaba chegando para a gente é muito sacrificado e temos que gastar para arrumá-lo. Isso acaba encarecendo. Às vezes, você acha que um produto é bom pelas fotos no site, mas só consegue ver o estado real do móvel pessoalmente”, afirma Messias.

A falta de veracidade das fotos apresentadas nos sites de venda de usados por quem quer se desfazer daquele móvel ou eletrodoméstico juntando poeira dentro de casa também é um dos motivos para a procura dos pregões. “Muitas vezes o cliente que vem para cá é aquele que não dá confiança nas fotos dos produtos desses sites, ele quer ver o produto com os próprios olhos. Na realidade, o produto usado que ele encontra aqui também pode vir desses sites, mas nós fazemos reparos para que ele fique ‘quase novo’”, explica o vendedor.

De acordo com Messias, seu maior desafio é convencer o cliente que está procurando um artigo usado a gastar mais e levar um produto novo de sua loja. “O camarada quando vem para cá, quer tudo usado, mas quando vê o estado dos novos, se interessa em levar. Só que às vezes o preço pode assustar, porque obviamente ele é mais caro do que um de segunda mão. Daí, começa o trabalho da venda, de mostrar as qualidades do produto para convencer o cliente a comprar. Temos que ser um vendedor ao quadrado”. Messias diz que expandiu para a comercialização de produtos novos desde 2012.

Cartão de crédito

Outra carta na manga que o vendedor começou a usar recentemente é o recurso de vendas por cartão de crédito. “Hoje o vendedor que não trabalha com cartão está perdendo vendas. As empresas que fornecem esse serviço facilitaram muito para o pequeno comerciante. Eu faço vendas parceladas no cartão de crédito, mas não incentivo meu cliente a comprar dessa forma porque quanto mais ele parcela o valor, mais caro o produto fica. As taxas cobradas pelas empresas de cartão crescem à medida que o número de parcelas aumenta. Eu preciso repassar esse acréscimo no preço do produto ou minha margem de lucro fica impraticável”, pondera o comerciante.

Messias ainda afirma que o pregueiro tradicional se descaracterizou. “Aquele pregueiro que só mexe com coisa usada está em extinção. Estamos tendo que atuar nas condições de uma empresa grande com estrutura, mas não temos essa estrutura toda. Eu tenho encomendado móveis do Oiapoque ao Chuí e também peço móveis das pequenas indústrias e fábricas. A concorrência com os grandes é difícil. As lojas de nome encomendam cerca de mil peças enquanto nós pedimos três. Temos que abaixar a margem de lucro pela nossa sobrevivência. Não vamos derrubar o mundo”.

O comerciante faz um paralelo entre a crise econômica do país e a situação atual dos pregueiros. “Estamos patinando assim como o Brasil. Não sai do lugar. Por aqui, desde o início de 2014, a palavra máxima é sobrevivência. Em linguagem de futebol, eu diria que estamos dando honra ao empate dentro de casa. Mas acredito plenamente que vai passar, que é transitório. Se não, eu já tinha fechado as portas.

 Comerciantes relatam falta de fiscalização e insegurança

A insegurança e falta de fiscalização deixa Messias com a pulga atrás da orelha. “Costumo dizer que aqui é o Velho Oeste. Terra de ninguém. Fora do horário, a rua fica perigosa. Os comércios fechados ficam a mercê dos arrombadores. Hoje mesmo a loja de um vizinho amanheceu arrombada. Por outro lado, tenho outros vizinhos que estão pulando o corguinho em pé. Eles põem os moveis tudo na rua, na calçada. Tinha que punir mais. O nome da gente acaba ficando ruim na boca do povo. Acho que cada um tem que fazer sua parte”, relata Raudini Messias. 

Produtos roubados

Messias fala sobre o estigma que os pregueiros carregam por comercializarem produtos roubados. “O pregão luta contra o sistema em geral. Ele luta contra os ladrões que acham que a gente compra roubo. Contra o policial que acha que aqui só tem gente de má índole. Somos discriminados pelo poder público e somos roubados por bandidos. A verdade é que também existem comerciantes que andam pelo caminho errado, tenho que reconhecer. Mas aqui tem muito pai de família que está lutando para sobreviver.

Arrombamentos

A loja de André Mendonça na Avenida Rio Verde, em Aparecida de Goiânia foi invadida na última sexta-feira (26). De acordo com o comerciante, bandidos levaram várias televisões de LCD. Ele calcula que seu prejuízo tenha sido de pelo menos R$ 10 mil. “Passou do horário comercial, aqui é um breu. Já foram duas vezes que arrombaram essa loja. Infelizmente, é um prejuízo que não volta mais”.

André lamenta que a avenida possui monitoramento de câmeras da prefeitura que não funcionam. “Fiquei sabendo que os bandidos estavam em um gol preto, de acordo com testemunhas. Liguei para o monitoramento das câmeras da rua e me disseram que elas não funcionam. Estou com medo de eles arrombarem novamente”.

  Comerciantes lamentam ausência de CDL no segmento 

Messias lamenta que a Câmara de Dirigentes Lojistas de Goiânia tem sido muito ausente na região. “O CDL não frequenta aqui. É ausente. A maioria de nós não faz parte. Acho que eles deveriam estar mais presentes aqui. Falta aproximação da parte deles. Eles convivem muito bem com o grande empresário. Comungam o interesse graúdo. O nosso negócio é de sobrevivência. É diferente”.

A gerente de Negócios da Câmara de Dirigentes Lojistas de Goiânia, Dina Marta Correia, afirma existem pregueiros associados, tanto do setor Campinas da Capital, quanto da Avenida Rio Verde em Goiânia. Ela ainda reitera que o CDL tem associados de todos os tipos e tamanhos de negócios em toda Região Metropolitana de Goiânia. “Nós temos vários associados onde tem uma concentração maior dessas lojas. Defendemos empresas de todos os tipos e todos os segmentos.

No entanto, Dina Marta diz que o CDL não realiza nenhuma ação específica para esse tipo de lojista. “Especificamente não realizamos nenhum tipo de trabalhos com eles. Os nossos serviços são muito dinâmicos e podem ser aplicados em todo tipo de negócio”.

Descaracterização do pregão

Sobre a descaracterização do pregão, Dina Marta vê uma oportunidade. “Eu acredito que eles precisam aproveitar as vendas, seja de novos ou usados. O mais importante é que eles sanem todos seus custos para sobreviver no mercado. Às vezes, eles poderiam perder vendas porque não colocam produtos novos a venda. Possivelmente, esse negócio pode até ser mais característico. As grandes lojas também usam os produtos de demonstração, não estão totalmente novos, porque já foram montados, mas eles também comercializam esse produto.

Ela ainda afirma que esse tipo de vendedor pode se transformar, mas não desaparecer. “Muitas pessoas são fiéis a esse tipo de comércio. Buscam elementos de negociação nesses pregões e vão em busca de coisas que não encontram em outros lugares”, pondera.

 

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