Flamboyants colorem a paisagem de Goiânia

Postado em: 05-11-2020 às 06h00
Frente a podas de árvores cada vez mais frequentes, Flamboyants colorem com novas perspectivas | Foto: Wesley Costa.

Eduardo Marques

Ao caminhar pelas ruas de Goiânia entre os meses de outubro e dezembro, a trilha sonora poderia muito bem ser “Perto do Fogo”, sucesso de Cazuza eternizado na voz de Rita Lee. Uma analogia bastante válida, se feita em relação às cores quentes de tons alaranjados e o vermelho-sangue das pétalas de Flamboyant conferem a Capital – um espetáculo de beleza, típico do Cerrado, que faz os velhos conhecidos ipês-amarelos saírem de cena, dando lugar a outra atração, tão interessante quanto.

Segundo a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), em toda a cidade, há cerca de 10 mil Flamboyants. A árvore começou a fazer parte da arborização de Goiânia, nas décadas de 40 e 50. Conforme a Agência, as primeiras espécies foram plantadas em ruas do Centro. Na Rua 68, há ainda algumas árvores da espécie. Nos parques há Flamboyants, pois em tais locais a árvore não oferece perigo como quando plantadas em calçadas, isso devido ao seu grande porte.

Tido como um símbolo da primavera, é na transição para o verão, durante os últimos meses do ano, que as flores aparecem. Dona de uma estrutura aparentemente simples que compreende quatro estruturas – cálice, corola, androceu e pistilo – as flores do Flamboyant possuem um tipo de pétala diferenciada, como explica o biólogo e professor pós-doutor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Marcos José da Silva. “Sua pétala diferenciada é característica também presente em alguns gêneros de sua tribo presentes no Brasil e serve para atrair seus polinizadores”, afirma.

Em plena estação, o biólogo consolida a ideia de que o Flamboyant seja de fato um dos grandes representantes da época, vista explosão de cores que propicia ao ambiente em seu período de florada: “Por que é de outubro a dezembro (período chuvoso) que floresce em massa e, por consequência, chama atenção”, salienta.

Além de possibilitar a purificação do ar como todas as árvores e assegurar um ar de boa qualidade, os Flamboyants embelezam as paisagens onde se inserem. “Os Flamboyants tornam o ambiente mais agradável e sombreado, e de certo serve de alimento aos isentos através do fornecimento de pólen para alimentação, pouso e construção de ninho aos pássaros”, conta o professor. 

Frente a esta popularidade, o Herbário da UFG desenvolve estudos a nível regional com amostras da planta. Existem no Estado uma série de estudos que tornam a espécie amplamente conhecida. Ocasionalmente originando flores fora de época, o Flamboyant pode ainda, embora com uma destacada raridade, ser encontrado em cores distintas ao habitual vermelho, como o amarelo e o alaranjado, atingindo uma altura média de 12 metros de altura.

Utilizado de forma costumeira em ornamentações e intervenções urbanísticas, a conselheira do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU/GO), Regina Maria de Faria Amaral Brito explica que o Flamboyant é ideal para ser colocado em áreas amplas. De fácil reprodução, as sementes germinam sem problemas em cativeiros, ou ainda, em viveiros especializados. A propagação é fácil, já que possui um sistema de raízes axial, ou seja, com crescimento em direção ao centro da terra. 

No entanto, há desvantagens. Segundo a paisagista, caso seja plantado em locais com pouco espaço, pode causar sérios danos a calçadas e a sistemas de fiação: “A raiz é caracterizada por ser muito agressiva. A espécie também apresenta uma copa longa, o que sugere a ideia de que seja instalada em áreas onde não haja calçamento e tubulações. A planta não deve ser para terrenos pequenos, porque a raiz toma um espaço grande do terreno. Inclusive vimos nas calçadas que as raízes cortam parte do asfalto”.

Regina define ainda que o crescimento da planta é rápido e indicado para áreas de sombreamento, como parques e praças. Ela ainda ressalta o valor estético da planta. “O Flamboyant é uma planta muito bela, relevante no que diz respeito às cores das flores, tanto que utilizamos um nome alternativo para ele, a chamada Acácia Rubra. A árvore dá personalidade e influencia de forma positiva ao espaço. Como é uma árvore muito bonita, então embeleza toda a via. Sem dúvida, é um elemento fundamental para jardins tropicais, escolha que revisita sua origem”.

Para quem tem no quintal, sítio ou fazenda espaço suficiente para o crescimento da árvore, alguns cuidados devem ser tomados antes do plantio. A começar pela preparação do solo. A árvore caracteriza-se como indiferente às condições de umidade, podendo ser cultivada tanto em terreno seco quanto mais úmido, mas o ideal é que a terra seja bem porosa e com boa drenagem.

Para um bom crescimento, recomenda-se colocar adubo fosfatado e esterco no fundo da cova onde a muda será plantada. Originário de área de clima quente, o flamboyant necessita de muito sol para crescer, mas tolera geadas fracas e temperatura mínima de zero grau.

Retirada de árvores causa ação judicial  

O número de derrubada de árvores para a implantação no BRT em Goiânia impactou na opinião pública e foi um dos pontos enumerados em uma ação judicial pelo promotor Marcelo Fernandes, para que elaborasse um estudo mais palpável sobre a degradação ambiental causada pelo projeto. Na ocasião, o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) destacou que a implantação do BRT ocorreu sem que os projetos técnicos necessários estivessem prontos, inclusive os que auferissem os impactos causados no trânsito.

Considerado um dos mais tradicionais e belos pontos da Capital, dezenas de Flamboyants foram retirados da Avenida Goiás Norte, no Setor Urias Magalhães, para dar passagem à construção do corredor do Ônibus de Transporte Rápido (BRT), em 2015. Em clima de comoção, moradores viram o espaço verde dar local ao que será a estação de embarque, semelhante às plataformas do ônibus.

As árvores foram derrubadas no trecho a partir das proximidades do cruzamento da avenida com a Perimetral Norte até a Praça do Violeiro, no Setor Urias Magalhães. Alguns Flamboyants foram serrados, outros retirados pela raiz, e muitos deles partidos ao meio, no caule, dando sinais de terem sidos quebrados, de acordo com moradores na época. 

Na ocasião, por meio de nota, a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) disse que a retirada das árvores fazia parte do cronograma das obras do BRT e que, por se tratar de uma necessidade, atrelada a uma licença ambiental, cerca de trinta novas árvores seriam plantadas no local – mudança que depende do andamento da construção.

Um dos impactos ambientais a ser levado em consideração é o combustível queimado pelos 93 ônibus, sendo 28 veículos articulados e 65 convencionais que serão todos movidos a combustível de óleo diesel, um combustível fóssil, que segundo o site Ecosystem Análises Ambientais, por meio da pesquisa feita pela Universidade da Califórnia, polui sete vezes mais que qualquer outro combustível e ainda provoca inúmeros problemas à saúde da população. (Especial para O Hoje) 

Por: Sheyla Sousa
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