Famílias acampam em apoio aos entes queridos internados em Goiânia

Postado em: 25-03-2021 às 07h50
Por: Sheyla Sousa
Familiares de pacientes internados com Covid-19 relatam luta contra a doença e busca por tratamento | Foto: Wesley Costa

João Paulo Alexandre

A maior vilã que a atualidade está tendo é a Covid-19. Ela chega de maneira silenciosa e, de maneira rápida, leva uma pessoa para o hospital, intubada e até para a morte. As histórias podem parecer as mesmas, mas cada uma tem a sua particularidade. Muitas vítimas são impactadas com a doença. Além do paciente, os familiares lutam noite e dia para que o pesadelo acabe da melhor forma possível.

Nessa expectativa, pessoas fazem de tudo para mandar energias positivas para a melhora do ente querido, mesmo não podendo estar próximo a ele. Sentada sobre um lençol estendido na grama de uma praça em frente a um hospital particular do Setor Aeroporto, estava Ludmilla Neres de Oliveira, de 41 anos. Ela buscava ansiosamente alguma informação do irmão, o pintor de veículos Eduardo Neres Fonseca, de 37 anos.

Segundo ela, o irmão apresentou os primeiros sintomas na última quarta-feira (17), quando perdeu o olfato e o paladar. Ludmilla conta que ele apresentou dor no peito e muita falta de ar. Foi quando, no último sábado (20), ele procurou atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Residencial Itaipu. Na unidade, ele foi colocado no balão de oxigênio. Porém, no último domingo (21), ele precisou ser encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital.

Ludmilla conta que recebeu a informação da necessidade da transferência do irmão com tensão. “Lá na UPA a gente tinha um contato mais próximo com ele. A gente levava chá e outras coisas para ajudar na imunidade dele. Porém, ao dizer que seria melhor para o atendimento, mandaram ele para cá.”

Loucura

A mulher conta que passou a noite de domingo para segunda (22) dormindo, mas, ao amanhecer, sentiu um sentimento para ir à unidade de saúde. “Foi uma loucura. Acordei com aquela sensação de vir procurar ele. Avisei a minha mãe e a esposa dele e perguntei se elas queriam descer comigo, mas elas disseram que não. Então eu vi sozinha”, conta.

Segundo ela, o irmão é muito ansioso e, até o momento, não conseguiu passar pelo exame de tomografia. Ela conta que ele não está intubado e reclama da falta de informações sobre o estado de saúde dele. “O médico tem das 16h às 22h para conversar com alguém da família. Mas isso só acontece se ele tiver tempo, já que o hospital está lotado.”

Ludmilla disse que deixou claro que quer ser avisada sobre qualquer procedimento que for realizado no irmão. “Eu não quero que intubem meu irmão. O médico me perguntou: ‘mesmo se for para salvar ele?’ e eu disse que não. Eu conheço ele. Sei que ele está ansioso por não ter ninguém ao lado dele. A nossa família é ansiosa de nascença. Se for preciso, eu tiro meu irmão daqui porque sei que ele não vai se curar dessa forma. Eu tentei negociar, mas aqui não tem conversa”, ressalta.

Ela reforça que na manhã da última terça-feira (23), o hospital ligou para a mãe dela e disse que Eduardo está em estado grave. “Eu tento ser forte, mas sei que terá uma hora que não vou aguentar. Como sou só eu, eu tento pensar em como ele agiria nesse momento”, conta a mulher emocionada.

Ludmilla conta que o irmão tem duas filhas, de 5 e 15 anos. Na porta da unidade, viu algumas pessoas recebendo alta e que isso está sendo combustível. “Eu vi um senhor de cerca de 80 anos saindo curado dessa doença. Eu fico muito feliz e isso me dá esperança de ver o meu irmão curado. Eu tenho três filhas e ele. Minha vida está ai dentro”, finaliza.

Infectada em cirurgia

Uma mãe que foi infectada após ser submetida a um procedimento cirúrgico. O local onde deveria se buscar esperança pela vida, acabou se tornando uma bomba relógio devido ao grande volume de pessoas sendo tratadas. É uma ordem lógica: quanto mais atendimentos, mais o vírus estará presente na unidade. Jaqueline Neiva, de 29 anos, passa esse drama com a mãe, Edna Maria Neiva, de 47. Ela está intubada na UTI da unidade há 40 dias.

Segundo ela, a mãe fez a cirurgia e estava tendo uma ótima recuperação. Porém, o vírus estava incubado dentro dela. “Eu estava cuidando dela e apresentei os primeiros sintomas. Fiz o exame e deu positivo. Eu senti muita falta de ar, mas consegui melhorar sem necessidade de internação”, conta.

Jaqueline afirma que a mãe, que mora em Anicuns, teve uma queda de imunidade e o vírus acabou se manifestando. “Ela estava fazendo tudo para se proteger. Não recebia ninguém em casa. Mas ela precisou ser submetida a essa cirurgia e ela foi fazer. Ninguém imaginaria que ela passaria por essa situação.”

Ela conta que, na família, outras quatro pessoas pegaram a doença. Mas apenas a mãe e o sogro, 72 anos, precisaram de hospitalização. Ele, inclusive, já encontra-se em casa. Jaqueline afirma que a mãe não conta com nenhum comorbidade. “Ela está acima do peso, mas não é obesa. Hoje o estado dela é gravíssimo. Ela está intubada, traqueostomizada, sedada e faz uso de noradrenalina”, explica Jaqueline.

Na porta do hospital, ela esperava para fazer a segunda visita da mãe. O procedimento foi autorizado pela psicóloga do local, pois ela já havia se infectado recentemente com o vírus Sars-CoV-2. Apesar de conversar com muita calma e tranquilidade, ela não esconde o medo que sente de perder a mãe. “Muitas pessoas me perguntam tudo isso. Mas eu só posso te dizer que é Deus. Ele tem me dado muita força psicológica e isso é que me dá impulso para ir pra frente e acreditar. Eu não sei explicar o que eu sinto, mas eu sei que Deus está tomando conta de tudo”, reforça.

Outro fator que também anima Jaqueline é o fato de ver tantas pessoas que estavam em tratamento da Covid-19 saírem do local recuperadas. “Isso acalma a gente. Sei a situação que a minha mãe está, mas ver pessoas que também passaram tanto tempo lutando saíram pela porta da frente e dizendo que venceram a doença, acalma o meu coração”, sublinha. 

Fila por vagas em UTI soma 350 pessoas 

Enquanto Edna e Eduardo lutam para se salvarem com um atendimento adequado, muitas pessoas ainda buscam uma vaga de UTI ou Enfermaria para tratar a doença. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (SES), 350 pessoas ainda aguardam uma vaga de UTI e 277 tentam uma internação na Enfermaria Adulto. O painel ainda destaca três pedidos de internação em Enfermaria Pediátrica. Todos os dados são referentes a pacientes que estão com Covid-19.

O painel da SES ainda destaca que, até a tarde de ontem (24), a ocupação de leitos de UTI específicas para tratamento do novo coronavírus foi de 95,08% e, com a situação um pouco mais folgada, as enfermarias registraram ocupação de 75,10%. Em Goiânia, a situação está um pouco mais grave: 99,07% de ocupação nas UTIs e 89,14% de enfermaria.

Apesar do cenário grave, as pessoas parecem não se conscientizar da gravidade da doença e faz com que o Estado configure o sexto lugar com o pior isolamento no país. Segundo o ranking da plataforma In Loco divulgado na última terça-feira (23), o território goiano conta com apenas 35,96% dos cidadãos dentro de casa. O número está muito abaixo do ideal, que é de 50%.

Goiás só fica atrás de Mato Grosso, Tocantins, Rondônia, Sergipe e Santa Catarina. O maior índice de pessoas dentro de casa após o novas normas mais rígidas do decreto estadual – que teve início no último 17 de março – foi de 46,03%, registrado no último domingo (21). O estado com maior isolamento social do país é o Acre com 50,63%.

As medidas implantadas em Goiás, inclusive, são bem mais rígidas que a do estado nortista do Brasil. Apesar disso, não apresentaram resultado satisfatório no quesito de isolamento. Vale lembrar que Goiás adotou o modelo de isolamento intermitente, onde 14 dias o comércio não essencial fica fechado e segue duas semanas aberto ininterruptamente. (Especial para O Hoje) 

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