Túnel da Leste-Oeste sobre a BR-153 ‘afunila’ tráfego

O túnel estrangula tráfego no local após uma via com quatro pistas se tornar apenas uma | Foto: Wesley Costa

Postado em: 14-04-2021 às 07h40
Por: Sheyla Sousa
O túnel estrangula tráfego no local após uma via com quatro pistas se tornar apenas uma | Foto: Wesley Costa

João Paulo Alexandre

Os moradores da região Leste de Goiânia reclamam sobre a paralisação nas obras do viaduto que dará continuidade da Avenida Leste-Oeste e passará sobre a BR-153, na divisa entre a Vila Morais e Jardim Novo Mundo. A situação no local chama atenção, pois, após a via de quatro pistas, se forma apenas um túnel, com mão dupla. Porém, não há nenhuma sinalização, nem vertical ou horizontal, o que acaba colocando a vida dos que passam por ali em perigo.

A outra reclamação de quem transita pelo local é a falta de infraestrutura, já que não tem continuidade de pavimentação asfáltica e a insegurança no trecho. Diversos motoristas reclamam que, pelo fato do túnel ter uma curta distância, é mais fácil para os criminosos agirem. As ações, inclusive, seriam mais incisivas no final de semana, quando o movimento de veículos na região é menor.

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O Hoje entrou em contato com a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) que, por meio da assessoria, informou que o projeto do viaduto do local está pronto, mas não encontra-se autorizado no trecho em questão. Isso porque essa autorização vem do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (Dnit), pelo fato da obra envolver um trecho de concessão federal.

Ainda de acordo com a pasta, o que há no local é uma passagem provisória e que o novo titular da Seinfra, Fausto Nieri, já está “organizando uma agenda o mais rápido possível com o DNIT e ANTT” para resolver o principal problema: a passagem do viaduto pela BR-153. A reportagem também entrou em contato com o Dnit, que informou que o trecho em questão é de responsabilidade da Triunfo Concebra. 

Projeto

O especialista em trânsito e transporte, Marcos Rothen, analisou a situação em que o local se encontra e disse que a improvisação do túnel vem da utilização dele como retorno operacional por máquinas que devem ter feito alguma obra no local. “[O retorno] é usado para os trabalhos de manutenção. E como a cidade cresce sem controle virou uma rua de tráfego normal. Novos bairros só devem ser construídos com infraestrutura de acesso. Uma via como essa não deveria fazer parte da circulação da cidade, mas o improviso faz com que ela vire uma rua da Cidade. Para resolver o problema dessa via é uma obra de grandíssimo porte”, destaca.

Marcos pontua que um estudo deve ser bem elaborado para a construção do viaduto para que ele não se torne mais um problema do que uma solução. “Aqui em Goiânia temos alguns exemplos, faz o viaduto e não resolve o problema. Por exemplo, na Praça do Chafariz os carros ficam parados em cima dele. Até o novo da Jamel Cecílio melhorou um pouco no local, mas o trânsito fica ruim em outros lugares. Tem que fazer um planejamento com mais cuidado e acima de tudo usando técnicas modernas de planejamento.”, explana.

Ele explica o que deve ser feito para que haja um bom projeto dessas obras na Capital. “Todo o sistema viário que influencia o trânsito no local. A origem e o destino dos futuros usuários para ver quais os outros locais que serão influenciados. Considerar também a expansão que a cidade terá para ver a influência que isso terá no futuro. Uma via pode ter pouco uso hoje, mas no futuro pode ter muito movimento. Enfim, devemos planejar vendo o momento e o futuro da cidade.”

Marcos é categórico ao afirmar que isso ainda não é bem realizado em Goiânia e que a situação que não é uma das melhores e pode piorar. “Eu não vejo os governantes realizando esse tipo de estudo nem no planejamento das obras e nem no planejamento da cidade. Isso constata que a situação está cada dia mais caótica, com as pessoas demorando cada vez mais para chegar ao seu destino”, destaca.

Via foi entregue com trecho incompleto 

A gestão do ex-prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB) entregou um trecho incompleto, de cerca de dois quilômetros da Avenida Leste-Oeste, em dezembro do ano passado. O local inaugurado fica entre a Rua 402, na Vila Viana, e a Avenida Manchester, no Jardim Novo Mundo. Esse trecho, inclusive, não conta com pavimentação.

Uma parte da Rua da Antiga Ferrovia por onde a Avenida Leste-Oeste passa, no Setor Vila Morais, também está sem asfalto. O prolongamento da avenida do trecho inaugurado se estende entre a Rua 74, no Centro, até a Avenida das Cerâmicas, na GO-403, divisa de Senador Canedo. As obras começaram em 15 de julho do ano passado e os 6,1 km restantes continuam em execução.

Retomada teve imprevistos

No início da retomada da continuação da Avenida Leste-Oeste em julho de 2019, a Prefeitura de Goiânia enfrentou alguns obstáculos físicos para dar início aos trabalhos. Pelo menos 255 imóveis foram removidos e desapropriados ao longo de todo traçado planejado para receber a via. Além disso, a avenida também cortou parte da Praça do Trabalhador. Devido aos obstáculos, as obras começaram a ser executadas nos trechos onde não havia impedimentos.

Em fevereiro de 2019, alguns imóveis que receberam notificação de desapropriação emitida pelo Paço Municipal foram demolidos para a continuação da obra da Avenida Leste-Oeste. As casas foram levantadas em áreas públicas e a prefeitura requereu o espaço para a continuação dos trabalhos. Receberam a notificação os moradores das ruas dos Missionários e Ferroviários, no Setor Cidade Jardim. Mais 14 unidades estavam na listagem para a demolição na região.

Covid-19

A obra da Avenida Leste-Oeste também já foi embargada pela Superintendência Regional do Trabalho de Goiás (SRT-GO) por estar com diversas irregularidades no trato com os operários. O embargo ocorreu em julho de 2020. De acordo com a averiguação, as infrações trabalhistas estavam incorrendo em grave e iminente risco de vida aos operários e a obra não estava em cumprimento com as medidas preventivas da Covid-19.

Funcionários da obra estavam trabalhando a até seis metros de profundidade nas galerias pluviais. O material retirado para a execução das galerias era colocado ao lado dos taludes junto com a circulação de máquinas pesadas nas proximidades. De acordo com o auditor fiscal do trabalho, não havia nenhum laudo atestando que essas condições eram seguras para trabalhar.

História

Os projetos de implantação da Avenida Leste-Oeste têm mais de 30 anos e foram elaborados em 1987, dentro do Plano Diretor de Transportes de Goiânia (PDTU). Na época, o plano recomendava a implantação de melhorias na mobilidade urbana e no transporte de pessoas e mercadorias em Goiânia. Ainda hoje, o Plano Diretor de Goiânia de 2007 recomenda melhorias nestas mesmas áreas.

Em 1992, o Instituto de Planejamento de Goiânia, elaborou o Plano de Desenvolvimento Integrado de Goiânia, incorporando as recomendações do PDTU. Em 1993, a Prefeitura de Goiânia elaborou o Projeto Básico e licitou as obras para a construção da Avenida Leste-Oeste, no trecho entre a Praça do Trabalhador e o Conjunto Vera Cruz, mas o processo só foi retomado em 2002. (Especial para O Hoje)

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