Realismo fantástico sergipano

Postado em: 09-03-2016 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Autora, traz, em romance, memórias com pitadas de Graciliano Ramos, García Márquez e Jorge Amado

Tina Correia não informa a localização precisa de Paripiranga, o bairro pobre onde se passa a história de Essa Menina – De Paris a Paripiranga (Alfaguara), seu ro­man­ce de estreia. Mas o leitor percebe que fica ali – a autora confirma – entre a Macondo de Gabriel García Márquez, a fazenda São Bernardo de Graciliano Ramos e a Bahia de Jorge Amado.

“A memória é um realismo fantástico, e por esse lado faço uma homenagem a García Márquez, que amo de paixão. A dureza, a rigidez do livro vem de Graciliano. E o desejo de contar histórias saborosas tenho de Jorge”, diz Tina. Essa Menina… é uma declaração de paixões, pela minha família e pelos meus autores favoritos.

O livro narra as memórias da personagem título – seu nome é Esperança, que aparece apenas uma vez no livro, no qual ela é referida quase sempre como Essa Menina. A trama não tem rigidez biográfica, mas – nota-se nas descrições quentes, cheias de sabores e texturas da vida interiorana – é apoiada fortemente na vivência da escritora sergipana, que começou a escrever a história há mais de três décadas. 

“A ideia inicial era contar algumas histórias da minha família, pegar algumas frases reais ditas por irmãos, tios e criar histórias em cima. Como é uma família muito grande, evidentemente tem intriga, gente bulindo, o que chamam também de bullying”, brinca Tina, usan­do o linguajar que atravessa seu livro. “Minha mãe teve 19 filhos, a gente costumava dizer que “só” 13 sobreviveram, como se fosse pouco. No Nordeste, no meio desse monte de crianças, todo mundo é chamado de “esse menino”, “essa menina”. Queria contar a história a partir de uma personagem assim, uma dessas crianças. Presto muito atenção nas crianças.

A espinha dorsal da vida de Esperança (ou melhor, Essa Menina) se cruza em vários momentos com a de Tina – mais que isso, ela se aproveita de vários elementos reais para rechear a narrativa. O carnaval com a bandinha no coreto e os alto-falantes na praça agradecendo aos patrocinadores da festa – “(…) ao sabonete Eucalol, ao regulador Gesteira, ao Bio­tônico Fontoura, à Emulsão Scott, ao Óleo de Rícino, ao refrigerante Jade, ao guaraná Fratelli Vita”. 

A foto de Anita Leocádia na cômoda de sua casa – escondida atrás dos quadros da Santa Ceia ou da Sagrada Família quando o anticomunismo se mostrava mais forte. A política, aliás, ocupa papel central – a História do Brasil e a geopolítica mundial em meio à Segunda Guerra (as estampas Eucalol deixando de distribuir as figurinhas das bandeiras da Alemanha, Japão e Itália) são vistas pelos olhos da menina. 

“Pouco antes de falecer, meu pai veio ao Rio, em 1965. Não sei o motivo, mas imaginei que fosse pelo congresso do Partido Comunista. No livro, o pai da personagem vem para o congresso. Uso no livro uma frase real sobre o Rio, que ele falou para provocar minha tia, muito católica: ‘O Cristo é monstruoso’. Mas narro uma cena de tortura que meu pai não sofreu, tirei de um cordel que conta a vida de Giocondo Dias (ex-secretário-geral do PCB). É uma forma de homenagear os torturados na ditadura”, conta Tina, que também povoa seu relato de lobisomens e almas que alimentam cri­anças doentes (“Na minha terra, a realidade é mágica por si só”, escreve). (Agência O Glo­bo) 

Compartilhe: