Festival Vaca Amarela faz manifesto contra a censura usando obra de artista

Festival Vaca Amarela publica manifesto contra a censura e usa obra de artista processada pela Igreja para provocar debate sobre liberdade

Postado em: 30-08-2016 às 06h00
Por: Redação
Festival Vaca Amarela publica manifesto contra a censura e usa obra de artista processada pela Igreja para provocar debate sobre liberdade

Neste ano, o Festival Vaca Amarela completa 15 anos, se consolidando ainda mais como um dos festivais nacionais mais importantes da cena musical. Para a divulgação desta edição a organização decidiu se enveredar por pontos cruciais da situação política e social que o Brasil enfrenta. Além disso, focou em um caso de Goiânia, berço do festival, envolvendo a artista Ana Smile, que usa estátuas sacras com representações do universo pop. Na arte de divulgação, a imagem da Virgem Maria pintada de amarelo e com manchas pretas. E um bônus: dois chifrinhos. A semente da treta estava plantada.
Nem 24 horas depois do lançamento do festival e a polêmica aumentou em proporção geométrica. Católicos rumaram à página do evento no Facebook como quem caminha até um santuário para defender o que chamam de “a fé do próximo”. “Expõem uma imagem que claramente faz referência a algo sagrado a nós católicos e a mesma vira motivo de piadas. Não é questão de liberdade de expressão, é de respeito a quem acredita e segue tal religião. Bem desnecessária essa arte”, disse uma internauta. “Denunciando esse evento mundano. Falta de respeito com Deus e a Virgem Maria e com os católicos. Isso passou de todos os limites… isso não é cultura, é desrespeito.”, disse outra. 
Em contrapartida, há defensores da ação do Vaca Amarela. “A igreja não conseguiu ver que Jesus era o messias deles e crucificaram o cara, esperar que consigam ver que a imagem proposta pelo Vaca Amarela é artística é uma perca de tempo”, disse um dos defensores. Outra usuária da rede social rebateu as pessoas que se sentiram ofendidas com uma citação bíblica: “É uma honra para Nossa Senhora ser comparada a uma vaca, um animal incrível que, há milênios, tem ajudado em nossa evolução oferecendo variados produtos e serviços. Os animais são criação do nosso Deus e segundo a Bíblia Cristo nasceu num estábulo rodeado por eles.”, escreveu outro.
Mas essa polêmica está longe de ser gratuita. E era exatamente isso que a produção do Festival pretendia quando divulgou a arte. Junto com ela, lançou também um manifesto contra a censura artística e cultural.  O texto do manifesto diz: “Todos têm o direito de crer, inclusive no poder de transformação da arte e da cultura. Por este texto estamos reivindicando a liberdade de expressão artística e cultural, o direito de crença e de não crença e a valorização do poder da arte, que é transgredir, ressignificar, reler, libertar e modificar o objeto e seu significado. A arte se torna combustível para o futuro, quando cria rupturas e provoca debates e reflexões com profundidade e de forma ampla, conectando crentes e não crentes”.
E possegue: “Acreditamos que nenhuma obra de arte deveria ser alvo desse impulso religioso-político-jurídico, que pretende repreender e impedir qualquer forma de expressão que não esteja de acordo com sua própria cultura. As religiões, enquanto tapam os olhos para tudo que não nasça dentro do templo, deixam de ver milagres que a arte e a cultura também realizam todos os dias. A arte e a cultura também são os caminhos para a liberdade, para o senso crítico, para o encontro com o mais sagrado que há dentro de cada um de nós, para a construção de nossos próprios deuses”.
Alegam ainda que a vaca pode ser sagrada, na Índia, enquanto é profana no Brasil. “A escultura de Nossa Senhora pode ser sagrada para os católicos, enquanto não tem apelo para os evangélicos. A arte pode ser vista como algo menor por alguns, mas é necessária para a construção de identidade de grupos sociais, cidades ou uma nação. Respeitamos todas as religiões, todas as formas de crença e de não crença, por isso não vemos problema algum em mixar uma santa, uma vaca, uma mulher em uma mesma obra. Entre a santa e a vaca, entre o sagrado e o profano, habita a mulher.Livre, louca, independente e empoderada”. E encerram citando a música Vaca Profana, de Caetano Veloso na voz de Gal Costa: “Vaca de assombrosas tetas, derrama o leite bom na minha cara. E o leite mal na cara dos caretas”.
A cisma da Igreja Católica com Ana Smile começou, em fevereiro deste ano, quando uma petição on-line dirigida ao Ministério Público do Distrito Federal pedia que alguma ação fosse tomada contra uma loja de decoração que comercializava estatuetas sacras com temáticas pop. As peças produzidas pela artista goiana Ana Paula Dornelas Guimarães de Lima, conhecida por Ana Smile, haviam despertado a ira de católicos nas redes sociais. A artista modificava imagens de santos católicos usando símbolos da cultura pop reproduzindo imagens de gesso em formato de personagens como Batman, Frida Kahlo, Mulher Gato, Galinha Pintadinha e Coringa.
No último dia 28 de junho, imagens de autoria da artista foram apreendidas em sua casa como resultado de ação movida pela Arquidiocese de Goiânia. Eles querem proibi-la de produzir e vender as imagens, argumentando que isso afronta o sentimento religioso. 
Enquanto isso, o Vaca Amarela colhe frutos de uma caminhada de 15 anos e dá seus primeiros passos para fora do cercadinho goiano. No próximo dia 10 de setembro, o festival desembarca no Rio de Janeiro em um projeto especial, as Paralimpíadas. O evento foi um dos seis selecionados pelo edital da Mostra Funarte de Festivais de Músicas nas Olimpíadas e representará a região Centro-Oeste na programação gratuita da Fundição Progresso. Na programação do evento, estão garantidas as bandas: Carne Doce (que lancará no Rio o seu segundo disco, Princesa), Peixefante, Overfuzz e Components, com personalidades que já conquistaram o público carioca: a funkeira Deize Tigrona e a banda Baleia. Ao todo, serão seis horas de programação – dez atrações nos palcos da Fundição Progresso, na Lapa. O evento ocorre três dias após a cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos.
Além disso, haverá o baile de debutante, que é a 15ª edição em Goiânia, nos dias 23 24 e 25 de setembro, com atrações como Gabriel, O Pensador; Mombojó; Hellbenders; Overfuzz; Carne Doce; Rafael Castro; Ara Macao; Francisco; El Hombre; As Bahias e a Cozinha Mineira; VMG; Porcas Borboletas e Ludovic. Se, na cantiga popular, a vaca amarela pulou a janela e pune quem conversa demais, em Goiânia, ela está fazendo as pessoas debaterem sobre a liberdade de expressão e seus limites. Cala a boca já morreu, não é o que diz aquela outra cantiga?

Veja Também