O mestre e seu mestre

Em DVD, Hamilton de Holanda reúne time de consagrados nomes do jazz e da música instrumental internacional para reverenciar o gênio do choro Pixinguinha

Postado em: 31-08-2016 às 06h00
Por: Renato
Em DVD, Hamilton de Holanda reúne time de consagrados nomes do jazz e da música instrumental internacional para reverenciar o gênio do choro Pixinguinha

Da redação

‘Meu coração, não sei por que, bate feliz quando te vê…”. Se você leu cantando os versos de Carinhoso, é porque a melodia criada por Pixiguinha já está grudada no imaginário coletivo como um dos componentes mais românticos e harmônicos da cultura popular brasileira. Quer mais? Experimente cantarolar a música Rosa (“tu és divina e graciosa, estátua majestosa…”). Mesmo se enrolando na letra quase barroca da canção, a melodia se desenrola inteira, na cabeça, com todos os meandros. Das belezas que o chorinho traz e que só um gênio como Pixinguinha pode criar.
Alfredo da Rocha Vianna Filho, conhecido como Pixinguinha (1897 – 1973),  foi um dos maiores nomes da música brasileira, jogando nas dez: era maestro, flautista, saxofonista, compositor e arranjador. Sua obra contribuiu diretamente para que o choro encontrasse uma forma musical definitiva. E deixou um legado que perdura por gerações, influenciando outros músicos, alguns deles também agraciados com o sopro divino e mestres em seu tempo, como o bandolinista e compositor Hamilton de Holanda, que lançou recentemente um DVD em homenagem a Pixinguinha.
Gravado em 2013, o álbum Mundo de Pixinguinha, que ganhou como melhor disco no Prêmio da Música Brasileira de 2014, só agora ganha formato em DVD. Capitaneado pelo premiado instrumentista e compositor Hamilton de Holanda, precursor do bandolim de dez cordas, o registro ao vivo traz a inédita abordagem para a obra de Pixinguinha com interpretações originais das composições e com a participação de consagrados nomes do jazz e da música instrumental internacional. O projeto, que abre horizontes para uma nova visão do choro, foi realizado entre 2012 e 2013 e deu origem ao CD, a um especial de televisão exibido no Canal Brasil e, agora, ao DVD. 
Com 20 faixas, o DVD reúne sucessos do mestre como o choro Lamentos, onde o bandolim de Hamilton de Holanda se junta ao piano percussivo do cubano Omar Sosa e ao acordeom de André Mehmari. O lundu africano Yaô ganha tons de salsa na sensibilidade de Holanda e Sosa. E Ingênuo é registrada pelo principal acordeonista de jazz do mundo, o francês Richard Galliano, ao lado da dupla. 
Segura Ele e Rosa ficam a cargo de Hamilton de Holanda e do italiano Stefano Bollani, e as faixas Um a Zero e Carinhoso foram gravadas pelo luxuoso quinteto formado por Hamilton de Holanda, Stefano Bollani, Richard Galliano, Omar Sosa e André Mehmari.
Dos 20 temas do roteiro perpetuado no DVD, somente um não é de autoria de Pixinguinha. Trata-se de Capricho de Pixinguinha, tema composto por Hamilton para o projeto idealizado e produzido por Lú Araújo e Marcos Portinari com o próprio bandonilista. Para o registro, a parceria foi com o pianista André Mehmari. Já Naquele Tempo, uma das preferidas de Hamilton, foi a escolhida para ser gravada solo e abre o show.
Mundo de Pixinguinha também transita por outros compositores e gêneros. Galliano presta homenagem às suas maiores influências na música brasileira, Sivuca e Luiz Gonzaga, com Feira de Mangaio e Asa Branca. Mehmari interpreta Nasce um Anjo, composta para o nascimento de um dos filhos do amigo Hamilton de Holanda. Já Stefano Bollani apresenta a sua divertida peça Il Barbone di Siviglia e, Omar Sosa, a canção Dos Caminhos, uma composição de sua autoria.
Os extras do DVD são também um destaque. Making of com cenas inéditas da gravação do disco e depoimentos dos artistas participantes reúne conversas com os músicos sobre o universo de Pixinguinha e sobre como foi dividir o registro com Hamilton de Holanda. O encantamento do trompetista americano Wynton Marsalis e o fascínio do pianista cubano Chucho Valdés são destaques. Carlos Malta e a franco-brasileira Odette Ernest Dias, contemporânea de Pixinguinha, falam sobre o desafio de participar do projeto.
Com uma carreira prolífica, Hamilton de Holanda Vasconcelos Neto é um mestre na arte instrumental brasileira, ainda pouco reconhecida pelo grande público. Hamilton de Holanda começou a tocar aos 5 anos e, hoje, 18 anos depois de adicionar duas cordas extras – 10 no total –, reinventa o bandolim mundial e liberta o emblemático instrumento brasileiro do legado de algumas de suas influências e gêneros. Nos EUA, a imprensa logo o apelidou de “Jimmy Hendrix do bandolim”.
Aos 40 anos, 35 anos de carreira profissional, imprime sua assinatura em sua maneira de tocar. O aumento do número de cordas e decibéis, aliados à velocidade de solos e improvisos, inspira uma nova geração e um novo som. Se é jazz, samba, rock, pop, lundu ou choro, não mais importa. Hoje, Hamilton é um músico com estilo único. Passeia por diversos gêneros tendo o bandolim como aglutinador de ideias.
O choro é sua primeira referência. Seu primeiro repertório era composto por músicas de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth – dentre outros. Cresceu ouvindo, também, samba, frevo e bossa nova. A MPB é a matriz desde o início. Sua paixão e seu comprometimento com a música brasileira é tão grande que, a partir de sua iniciativa, no ano 2000, foi criado o Dia Nacional do Choro, que é comemorado todo dia 23 de abril, data de nascimento de Pixinguinha.

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