Aqueles dois

Chega a Goiânia a peça ‘Enquanto Todos Dormem’, que trata do envolvimento amoroso de dois soldados, em um ambiente pré-Segunda Guerra, em 1938

Postado em: 03-09-2016 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Chega a Goiânia a peça ‘Enquanto Todos Dormem’, que trata do envolvimento amoroso de dois soldados, em um ambiente pré-Segunda Guerra, em 1938

‘Nossas meninas estão longe daqui. Não temos com quem chorar e nem pra onde ir. Se lembra quando era só brincadeira? Fingir ser soldado a tarde inteira?”. Em 1985, no celebrado primeiro CD da Legião Urbana, foi lançada a canção Soldados, que já foi lida de muitas maneiras, inclusive como uma manifesto antimilitarista, ou comunista, qualquer coisa do tipo. O sutil significado de seus versos só foi confirmado um tanto depois de seu lançamento quando, em entrevista, Renato Russo afirmou a um jornalista que qualquer pessoa “com um mínimo de sensibilidade” saberia do que se tratava a canção. O jornalista discordou da suposta obviedade semântica, mas a mensagem estava confirmada: era uma canção de amor entre dois soldados que lutavam juntos em uma guerra.
A possibilidade de uma relação entre dois homens em um ambiente hostil e brutal por natureza é também o ponto de partida da peça Enquanto Todos Dormem, que estreia em Goiânia neste fim de semana. Depois de lotar as sessões em várias cidades como Brasília, Curitiba, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte e São Paulo, a turnê do espetáculo chega a Goiânia para duas apresentações no Teatro Goiânia. Em cena, os atores Renan Mendes e Thiago Cazado dão vida a dois jovens soldados que enfrentam um período conturbado de suas vidas e da história.
O ano é 1938, e o mundo vive o assombro da possibilidade de eclodir uma grande guerra mundial. Os personagens Pedro e Luíz, soldados do exército, são convocados para um treinamento em local distante de onde moram. Longe de suas famílias e confinados em um ambiente hostil, eles compartilham suas angústias e a expectativa de um combate iminente. Em contraponto à tensão, surgem a cumplicidade, o respeito e a admiração entre os dois jovens, afeição que os leva a viverem aventuras íntimas. 
“O personagem principal, Pedro, é um jovem muito convencional, tímido, e encontra Luís, que é o oposto, bem visionário, questionador. Então ele vê no Luis uma pessoa para admirar e, daí, outros sentimentos vão surgindo”, expica Thiago Casado, autor, diretor e um dos atores do espetáculo. Sobre a proposta da peça, ele explica que sempre que vai escrever, imagina conflitos sobre romances homossexuais. “A ideia do texto surgiu de uma curiosidade. Eu me perguntava: ‘Como seria um amor verdadeiro no exército, um espaço tão restrito e tão masculino? E se for em uma época onde ser gay é considerado uma doença, um crime?’”, diz Tiago.  
Cenografia e sonoplastia transformam o palco em uma base militar localizada no Peru. Ao longo de uma hora de espetáculo, as lembranças vividas pelos personagens são trazidas à cena. A apresentação conta com recursos cênicos inusitados para dar solução a alguns elementos trazidos à cena. Exemplos disso são os sons de animais, que retratam as personagens que não aparecem fisicamente no palco ou a utilização da expressão corporal e da trilha sonora para transportar o público para cenários como uma cachoeira. 
Para ele, apesar de tudo, o ambiente atual permite às pessoas mais visibilidade e tolerância em relação a seus afetos, então ambientar a peça na década de 1930 é interessante por mostrar que já houve tempos piores. Segundo ele, a recepção do público nas cidades por onde passou é sempre calorosa. “Nosso público é bem diverso. Obviamente que, pelo tema e por não haver muitas peças assim, o público gay é presente, mas há casais héteros, jovens, pessoas mais velhas, todos os perfis. E as reações são sempre positivas”. Ele diz que já enfrentou manifestações hostis, mas foi nas páginas da peça e da produtora no Facebook: “Já escreveram absurdos ali, mas, pessoalmente, ninguém nunca disse nada”, conta ele. 
Este é o segundo espetáculo com temática envolvendo a diversidade sexual produzido pela produtora, que também é envolvida em produções cinematográficas e já reúne mais de 800 mil visualizações no YouTube. Neste ano, a Maca Filmes produziu o curta-metragem Tenho Local e prepara o lançamento de outro filme no canal em breve.

SERVIÇO
‘Enquanto Todos Dormem’
Dias: 3 e 4 de setembro
Horários: Sábado, às 21h, e domingo às 19h
Local: Teatro Goiânia (Av. Goiás, esq. com Av. Tocantins)
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação: 16 anos

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