Encontros e despedidas

Quasar Cia de Dança estreia espetáculo ‘A Distância Entre Dois’, que deve ser o último antes de a companhia encerrar suas atividades permanentes

Postado em: 08-09-2016 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Quasar Cia de Dança estreia espetáculo ‘A Distância Entre Dois’, que deve ser o último antes de a companhia encerrar suas atividades permanentes

O último ato da Quasar pode ser lido como uma comovente dança de encontros e despedidas. Por meio de um misto de possibilidades entre a paixão, o prazer e a sedução, a Quasar Cia de Dança lança o A Distância Entre Dois, 27º espetáculo da companhia de dança goiana, nos dias 9, 10 e 11 de setembro, no Teatro Goiânia. Após isso, vai paralisar suas atividades permanentes por falta de patrocínio. Fruto da parceria de 28 anos entre a produtora Vera Bicalho e o coreógrafo Henrique Rodovalho, a companhia surpreendeu seus fãs e o meio artístico, na quarta-feira (6), ao anunciar a suspensão de suas atividades por motivos financeiros.
Segundo José Villaça, bailarino da companhia há cinco anos, em entrevista à revista Veja São Paulo, nos últimos três anos boa parte da receita do grupo vinha do programa público Petrobras Cultural, que finalizou, no mês passado, sem expectativas de renovação. Antes da decisão final, a companhia tentou reajustar o formato de trabalho. Bilheterias e festivais chegaram a ser uma opção de renda, contudo não o suficiente para cobrir os gastos não só da companhia profissional como também do Espaço Quasar, ambiente cultural criado há dez anos no Setor Bueno. “Com a crise do País, o preço da produção subiu, e a verba não acompanhou a inflação” disse Villaça.
De acordo com a publicação, a falta de recursos, já vinha abalando o grupo nos últimos meses, e o elenco fixo de oito bailarinos diminuiu para seis em 2015. Além disso, as viagens internacionais foram reduzidas pela metade, as produções passaram a apostar em soluções cênicas mais baratas, e o projeto Quasar Jovem de profissionalização na dança para jovens goianos encerrou suas atividades.  

Cerimônia do adeus
Último espetáculo antes do fim, A Distância Entre Dois é descrito pela companhia como “a relação de dois corpos e o significado dos movimentos, ora premeditados, ora incertos. O que separa e o que atrai. Consequências, entre partidas e chegadas. O amor e a indiferença”. Assinado pelo coreógrafo Henrique Rodovalho e com produção de Vera Bicalho, o espetáculo foi pensado como uma espécie de sequencia ao espetáculo Sobre Isto, Meu Corpo não Cansa, lançado em 2014. Em A Distância Entre Dois, a companhia parte para uma história de amor e atração mais equilibrada, madura e, por vezes, refletiva pela sincronia dos bailarinos, muito bem marcados, que dançam em casais ou em conjunto. Enquanto o espetáculo anterior era ensolarado e trazia um amor romântico, cantado, arrebatador, neste, o que pauta a relação dos casais é o prazer e a entrega.
“Em uma relação, as formas que os corpos constroem são baseadas numa dependência direta e muito forte entre os dois indivíduos, onde se apoiam o tempo todo. Já em outra, a dependência é menor, existe um contato menos direto, e a velocidade é mais acelerada. No terceiro, a independência se sobressai, cada um no seu estilo, impondo respeito, leveza e dinamismo. Nesse meio tempo, outros corpos surgem nestas mesmas relações e, por vezes, também eles se apresentam juntos ou separados”, explica Rodovalho.
É o mistério da paixão que pauta o espetáculo, seja numa trilha sonora mais intimista, com músicas instrumentais, ou na direção de arte e cenografia, com fios que cortam todo o espaço visual num palco totalmente nu e livre para a plateia. Em uma cena, o sexo e o gozo representam uma ode ao amor em tempos de distanciamento e liquidez. “O que se cria não é aquele amor tradicional, romantizado pelas grandes histórias de amores impossíveis, mas sim em como as relações amorosas diferem, algumas mais dependentes, outras mais libertas e mais sexuais”, aponta o coreógrafo.
A Quasar Cia de Dança dedica este espetáculo ao cenógrafo e diretor de arte Shell Júnior, falecido no ano passado e que trabalhou na companhia desde 1994, onde montou sete espetáculos. Shell trabalhava com cenografia desde 1984, onde começou com o Grupo Via-Láctea, em Goiânia. A partir de 1987, com a criação do Centro Cultural Martim Cererê, ele realizou 30 edições do Cabaré Goiano. Atuou também como coordenador e professor de artes visuais no Musika – Centro de Estudos. No cinema e no teatro, trabalhou com vários diretores.
A companhia anuncia um hiato, prestes a completar 28 anos, em que conquistou grande importância, não só no panorama da dança moderna em Goiás, mas na cultura brasileira como um todo. Nascida em Goiânia, criou um sotaque próprio, delicadamente inspirado nas diversas artes e suas antíteses, criando um mundo visual por meio de em frames e luzes. Nada linear. 
Nascida em 1988, a Quasar não poderia ter outro nome. Corpos que circundam um centro hiperdenso, que se fundem na mais poderosa fonte de energia já descoberta, que gera um feixe de luz que viaja até nós, remontando ao próprio nascimento do universo. Ao todo são 26 espetáculos criados e irradiados nas mais diversas direções geográficas. Por ano, uma média de 40 exibições públicas de uma obra que se tornou uma escola, uma referência para mais e novos criadores.
À Veja São Paulo, o bailarino José Villaça informou que a Quasar “está hibernando e tentando encontrar outros formatos de se reinventar e sobreviver”. Após a temporada de A Distância entre Dois, a companhia cumpre a agenda programada para este mês, e o próximo, Sobre Isso, Meu Corpo não Cansa, subirá aos palcos de Brasília na sexta (16) e no sábado (17). Um mês depois, em 16 de outubro, o grupo faz uma última apresentação da obra em Goiânia.

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