Festival em Pirenópolis destaca alimentação no cinema

Segundo Regina Tchelly, uma das incentivadoras do evento, a ideia principal do projeto é evitar o desperdício

Postado em: 14-09-2016 às 06h00
Por: Renato
Segundo Regina Tchelly, uma das incentivadoras do evento, a ideia principal do projeto é evitar o desperdício

Elisama Ximenes
Faz tempo que a arte de fazer comida casou-se com a arte de filmar as coisas, e essa relação da imagem em movimento com a gastronomia se fortalece – desde a Ana Maria Braga passando por debaixo da mesa, falando ‘huuummm’, aos programas de famosos mostrando que são gente como a gente na cozinha, mesmo que com os produtos mais caros e, talvez, nem tão acessíveis. Sobre acessibilidade, você pode substituir o gourmet pela Bela Gil, por exemplo, cujo foco do programa é a sustentabilidade associada à gastronomia simples. Já o 7º Slow Filme – Festival Internacional de Cinema, Alimentação e Cultura Local busca conciliar todas essas coisas mencionadas.
O tema deste ano é Volta às Raízes Com o Pé No Futuro. Regina Tchelly torna a expressão ‘volta às raízes’, que parece figurativa, literal com o projeto Favela Orgânica. É a primeira vez do projeto em Goiânia, mas, neste mês, o Favela Orgânica completa cinco anos. A ideia principal é evitar o desperdício. “Eu desenvolvi a ideia com a minha própria experiência culinária e queria trabalhar com a gastronomia alternativa”, explica Regina. Na prática, ela incentiva o reaproveitamento de alimentos. “O objetivo é de que as pessoas plantem com o que elas têm em casa, seja guardando um brotinho de cebolinha e plantando em casa”, explica. Para além de evitar o desperdício, o projeto também age na luta contra o uso de agrotóxicos.
Segundo Regina, o nome também foi escolhido, porque é intenção da idealizadora mostrar que existe comida boa na favela. Além de alimentos com boa qualidade, mostra que é possível ter uma alimentação orgânica e sem desperdício na periferia. “Agrotóxico mata toda hora e, com o reaproveitamento, a pessoa consegue produzir os alimentos orgânicos, sem veneno, dentro de casa”, opina. Com as oficinas e palestras do Favela Orgânica, Regina incentiva o ciclo da vida e do alimento, trabalhando, inclusive, com a compostagem, que é o conjunto de técnicas aplicadas para controlar a decomposição de materiais orgânicos, com a finalidade de obter, no menor tempo possível, um material estável, rico em húmus e nutrientes minerais.
Regina Tchelly é apenas uma das atrações do evento. A recuperação da tradição alimentícia com vistas ao futuro e à sustentabilidade é trabalhada em todos os momentos. O festival proporciona o lançamento da série Esporão & A Comida Portuguesa A Gostar Dela Própria no Brasil, realizado por Tiago Pereira. Será exibida a série musical e episódios destinados à culinária com a presença do chef português André Magalhães, eleito Personalidade do Ano na Gastronomia de Portugal, pela revista Wine, e um dos três maiores de seu país, pelo prêmio Mesa Marcada. O projeto registra a preparação ancestral de alimentos com chefs contemporâneos para fazerem uma espécie de releitura da receita antiga, preparando-a diante da câmera.

Filmes
Ficção-documentário que fala da possibilidade de tornar saudável o alimento cotidiano das grandes cidades, Apart Horta é uma das produções brasileiras que estão presentes na programação cinematográfica do festival. Além dele, Guardiãs do Queijo Coalho, curta que registra a produção do famoso queijo por sertanejas do interior de Sergipe, e Comer o Quê?, que vasculha os hábitos alimentares dos brasileiros, fazem parte da produção nacional. O último conta com participação de Alex Atala, Bela Gil e Marcos Palmeira. O diretor de Comer o Quê?, Leonardo Brant, estará presente para conversa com o público.
Durante os quatro dias de evento, serão exibidos 24 títulos desde curtas e longas-metragens. As produções vêm de toda parte do mundo. dentre os países representados, estão Espanha, Polônia, Portugal, Reino Unido, Suíça, Peru, Canadá e Japão. O que torna o diálogo entre as produções possível é o fato de todas trabalharem com a valorização e recuperação da tradição, adaptada às tendências do século 21. Outra temática importante levantada durante o festival é a questão do respeito às estações do ano, tema discutido, inclusive, nas produções audiovisuais. Além disso, busca-se valorizar a produção regional e o conhecimento adquirido pela tradição oral.
Noma – Minha Tempestade Perfeita é uma produção do Reino Unido que é exibida no festival. O filme conta a história do chef dinarmaquês René Redzepi. A Espanha é representada por Jerez, O Mistério Do Palo Cortado, sobre o vinho que é objeto de culto no país. Um mestre podador, de 85 anos, e seus ensinamentos são o mote de Retrato de Um Jardim, produção holandesa. Já a Pequena Floresta, do Japão, conta a história de uma jovem cozinheira que opta por utilizar alimentos disponíveis na própria região, como propõe a temática geral do festival.
O Prato Perene – Aventuras no Mundo da Comida Sustentável, que representa o Canadá, é lançado no Brasil durante o evento. O filme é o conjunto da obra do chef e ativista Daniel Klein e da cineasta Mirra Belas, que viajam pelo mundo registrando histórias, costumes e personagens ligados ao princípio da sustentabilidade e do comer bem. Biscoitos, sucos e frutos do cerrado, Jerez, azeite e vinho portugueses produzidos pela empresa Esporão darão sabor às noites de sexta e sábado do Slow Filme, acompanhados da conversa com produtores, realizadores e chefs.
Sérgio Moriconi é o curador da exposição Natureza Móvel. São 22 capas de discos de vinil expostas no hall do Cine Pireneus. As imagens tentam retratar a história da relação do ser humano com a natureza. “É uma construção por espelho: à primeira imagem de uma flor sob o azul celeste do céu, seguimos até a imagem derradeira da flor encapsulada um ambiente asséptico e sem vida”, explica o curador. Trata-se de uma crítica imagética à ressignificação que a modernidade deu à relação com a natureza. Cabe aos observadores avaliarem se o avanço significou evolução ou não. Talvez também seja essa a filosofia implícita em todo o festival.

SERVIÇO:
Slow Filme

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Quando: De 15 a 18 de setembro
Onde: Cine Pireneus, Pirenópolis (GO)
Quanto: Gratuito (mediante retirada de ingresso na 
bilheteria do cinema)
Programação: http://www.pirenopolis.com.br/

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