Um Nobel para o bardo

Bob Dylan, a encarnação musical do movimento antibelicista dos anos 60 e do espírito hippie, autor de temas imortais como Blowin’in the

Postado em: 14-10-2016 às 06h00
Por: Sheyla Sousa

Bob Dylan, a encarnação musical do movimento antibelicista dos anos 60 e do espírito hippie, autor de temas imortais como Blowin’in the Wind e Like a Rolling Stone, foi agraciado, nesta quinta-feira (13), com o Nobel de Literatura, após ter sido candidato ao prêmio em muitas ocasiões. A secretária permanente da Academia Sueca Sara Daniues foi a encarregada de anunciar, ontem, o nome do mito norte-americano do folk, de 75 anos.  
A secretária afirmou que os jurados escolheram o músico como o premiado de 2016 por ele ter “criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana”. No entanto a honraria dada a Dylan surpreendeu muitos não apenas pelo fato de o músico ter desbancado outros favoritos – dentre eles, o escritor japonês Haruki Murakami ou o famoso poeta sírio Adonis –, mas também porque, pela primeira vez, o prêmio máximo da literatura foi para um compositor de canções.
Na história desse prêmio, a maioria foi dada a autores de fala inglesa (27, ao todo), seguidos por literatos de língua francesa (14), alemã (13) e espanhola (11). O único autor lusófono premiado foi José Saramago em 1998. A Academia Sueca comparou a obra do novo Nobel à dos poetas gregos Homero e Safo. “Eles escreveram textos poéticos que foram feitos para serem ouvidos, declamados, muitas vezes com instrumentos, do mesmo jeito que Bob Dylan. Nós ainda lemos Homero e Safo, e nós apreciamos”, disse Sara Danius.
Apesar de pequena, Dylan possui uma obra literária a se considerar. O primeiro livro lançado ele sem ser uma coletânea de suas letras foi o volume de poesias experimentais Tarantula, de 1971. Dois anos mais tarde, saiu Writings and Drawings, com textos e desenhos. Ele é autor ainda do best-seller autobiográfico Chronicles: Vol. One, de 2004. A ideia inicial é que autobiografia teria outras duas partes, que não chegaram a ser editadas. 
Só quem mergulhou alguma vez no revelador universo desse cantor, nascido num povoado de Minnesota, poderá reconhecer que Dylan é um poeta sem tirar nem pôr. O reconhecimento do Nobel à sua música, entendida como um organismo vivo no qual as letras são o corpo sobre o qual se apoia o resto, é portanto algo histórico.

Biografia
De família judia, Bob Dylan nasceu em Duluth, Minnesota, em 1941, e foi criado na cidade de Hibbing, entre judeus de classe média. Seu nome verdadeiro é Robert Allen Zimmerman. Sempre teve interesse por música e, na adolescência, fez parte de diversas bandas. Com o tempo, seu pendor pelo folk e pela geração beat cresceu e moldou suas composições. 
Aos 20 anos, em um passo importante para dar início à carreira profissional, ele se mudou para Nova York e começou a se apresentar nos bares do efervescente Greenwich Village, bairro então tomado por hippies, cabeludos e outros representantes da contracultura. Foi logo descoberto pelo produtor John Hammond, com quem assinou contrato para o primeiro álbum, Bob Dylan, lançado em 1962.
Os anos seguintes seriam, como costuma ser para todo compositor e escritor, os mais vigorosos, criativamente, da sua carreira. Em 1965, ele lançou os discos Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited; em 1966, Blonde on Blonde, e, em 1975, Blood on the Tracks. A Academia Sueca também destacou, da sua obra, os discos Oh Mercy (1989), Time Out of Mind (1997) e Modern Times (2006). Em 2004, já com nove prêmios Grammy (hoje são 12), lançou uma autobiografia, Crônicas.
Sua vida também inspirou o filme Não Estou Lá, do diretor Todd Haynes. No longa, de 2007, os atores Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw, Heath Ledger, Christian Bale e Richard Gere e a atriz Cate Blanchett encarnam Bob Dylan em diversas fases da sua vida. 
Blowin’ in the Wind e The Times They are A-Changin’ estão entre as canções que são verdadeiros hinos dos movimentos contra a guerra e pelos direitos civis. 

Oscar e Grammy
Dylan torna-se o único artista na história a reunir as principais premiações de música, literatura e cinema. Ele também já foi laureado com Oscar, Grammy, Globo de Ouro e uma citação especial do Pulitzer. Como é de se esperar, a música lhe rendeu o maior número de condecorações. Foram 12 Grammys. O primeiro deles, em 1973, pela participação no álbum The Concert for Bangladesh, que reunia ainda nomes como George Harrison, Ravi Shankar, Ringo Starr e Eric Clapton. Ganhou sua própria estatueta na premiação, pela primeira vez em 1980, com a Melhor Performance Vocal Masculina em Gotta Serve Somebody. 
Em 1991, ganhou o Grammy pelo conjunto da obra. A mais recente homenagem que recebeu no evento foi na edição deste ano quando a coletânea de gravações caseiras The Bootleg Series vol. 11: The Basement Tapes Complete foi premiada como Melhor Álbum Histórico. O Oscar veio, em 2001, por Things Have Changed, trilha do filme Garotos Incríveis, dirigido por Curtis Hanson, que venceu na categoria Melhor Canção Original. A música também lhe rendeu um Globo de Ouro no mesmo ano.
Uma honraria especial concedida pelo júri da premiação, a citação ao músico no Pulitzer foi feita, em 2008, “por seu profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado por composições líricas de poder poético extraordinário”. Um ano antes, ele também ganhou o prêmio espanhol Príncipe das Astúrias, por sua contribuição à cultura.
O trovador americano também faz parte do Hall da Fama do Rock and Roll, em Cleveland, que registra a história dos mais influentes músicos do gênero, e recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade do presidente Barack Obama em 2012. 
 

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