Filosofia, vinho e amigos: o que transforma um sentimento de simpatia numa paixão avassaladora?

Postado em: 29-04-2021 às 14h54
Já reparou como nossos problemas parecem sumir quando temos boas companhias ao nosso lado?

Edna Gomes

Desembarquei domingo passado, na residência de amigos queridos para almoçar. Sabe aquelas surpresas inesperadas? Uma tarde cheia de delícias, conversa boa e inteligente. Foi servido o humus (pasta de grão de bico); falafel (bolinho de grão de bico); shawarma (mini sanduíche de carneiro com pão pita, vegetais e pastas); o maravilhoso suco de romã servido na entrada quando cheguei. Balcão repleto de queijos, pães e vinhos. Aliás, os pães
de Israel são um espetáculo à parte! Foram feitos pelos anfitriões e assados na hora. Entre um prato e outro, filosofamos sobre a filosofia, além de falarmos sobre os nossos relacionamentos e experiências de hoje em dia.
Abordamos a superficialidade das amizades contemporâneas, fundamentando nossa reflexão nas teorias do
polonês Zygmunt Bauman, criador do conceito de “modernidade líquida”. Segundo ele, “Tudo é mais fácil na
vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”.

Adorei a proposta de compartilhar experiências e vivências. O ambiente era lindo, numa residência em
frente ao lago e que deixou isso tudo muito propício. Um espaço gastronômico na cozinha bem elaborada dos anfitriões Claudio e lu Maida, cinco pessoas sentadas, diante de um belo balcão em volta do fogão. A pick-up rolava música de um extremo bom-gosto. Conheci gente nova, interagi com pessoas e visões de mundo diferentes
da minha e saí de lá filosoficamente conectada com aquelas pessoas.

Um seleto grupo de amigos que expôs opiniões, falamos sobre tudo e que ouve a todos. Tudo isso apreciando
bons vinhos, alguns levados por nós próprios, e uma boa gastronomia inspirada na comida de israel. Falar sobre filosofia é fácil, embora complexo. Um universo a ser descoberto. Degustar vinho? Mais fácil ainda! é gostoso,
mas fazer tudo isso pela primeira vez com amigos e com a proibição de ligar o celular foi desafiador. Porque dá um
peso, uma responsabilidade.

Estava com grande expectativa também para o que viria depois: uma degustação de vinhos de israel. Conduzido pelo amigo Roberto que nasceu no país Judeu. vamos ao show: Petit Castel, uma tremenda indicação do meu amigo Alberto Costa que eu consegui comprar em São Paulo e levei para degustarmos. é feito por um visionário, Eli Banzaken, que mostrou ao país (e ao mundo) o potencial vinícola das colinas de Jerusalém. Uma bela dica.

Depois de muitas comilanças da gastronomia de Israel, voltei para casa com uma agenda recheada com uma
dezena de rótulos bacanas. Melhor, devidamente degustados. Praticamente uma descoberta por várias horas de
conversa e muitas risadas. Pesquisando sobre os vinhedos de Israel, fiquei surpresa em saber que o País, vem
produzindo bons vinhos, afinal, tem terroir mediterrânico e lá pelos idos 1882 ninguém menos do que o
barão Edmond Rothschild (o do Château lafite, localizou?) fundou a vinícola Carmel, firme e forte até hoje. E desmembrada em duas, com vinhedos em haifa e nas proximidades de Jerusalém.

Mas o setor deslanchou de fato não faz muito tempo. O salto de qualidade aconteceu na década de 1970, quando
estudos mostraram, por exemplo, o potencial para produção de vinhas na região do Golã. Dez anos depois, lá estava a heights Winery colocando no mercado a primeira leva de vinhos bacanas do país.

No domingo, pensativa com meus livros, lá estava eu com pessoas que gostam de filosofia. O clima estava tão
alegre e fraterno que o evento acendeu uma chama maior: realizar outros encontros, do mesmo tipo, com diferentes temas.

O enredo da conversa foi: de onde surge o amor? O que transforma um sentimento de simpatia numa paixão
avassaladora? O que acontece com quem é presa de tal fenômeno? E qual o papel do ciúme? Partindo de tais
questionamentos e de sua própria história pessoal. Me lembrei do livro de Stendhal (1783-1842) “ Do Amor” que
escreveu, em 1820. Do amor, a um só tempo, uma fisiologia da paixão e uma confissão íntima. Aí surgiu a
discussão sobre a definição de amor. O detalhe é que todos estavam ligeiramente embriagados, e falar de
amor, é realmente hoje, inusitado. é preciso se despir de suas emoções e ter coragem para que se amplifique em questões sobre as incertezas e vicissitudes tão humanas, a imaginação e a fragilidade de nossas convicções.

Voltando para os vinhos de Israel, hoje, são 300 vinícolas ativas (muitas delas “butiques”), que se espalham
pelas colinas de Jerusalém, Golã, Judeia, Galileia, Deserto de Negev, de onde, aliás, sai outro vinho adorável, o Yatir,
cujas vinhas de cabernet sauvignon, sauvignon blanc e viognier crescem em um sítio arqueológico de 3 mil anos.

Minha primeira incursão foi o sauvignon blanc da Tishbi, produzidos em Monte Carmel, pioneira em produção moderna e egressa dos tempos do Barão de Rothschild. hoje, a vinícola está nas mãos da quarta geração
da família Tishbi. Gostoso, fresco, foi o segundo vinho, admirando as luzes que estava iluminando o lago.

Só para fechar: Já reparou como nossos problemas parecem sumir quando temos boas companhias ao
nosso lado? é um sentido de estar, de ser, de existir e resistir, enquanto não sei nada sobre minha existência vou
aproveitando as boas companhias, suportando os ruins e vivendo um dia após o outro, olhar para trás, só para lembrar do que valeu, e lembrar para onde não devo voltar. As pessoas boas nos inspiram, as pessoas positivas nos aliviam, as pessoas sábias nos direcionam. A vida é bem mais interessante quando gastamos o nosso tempo ao lado de pessoas inteligentes, educadas e que nos compreendem. As relações são melhores quando a conversa é instrutiva e há entendimento entre as ideias. Que venham mais encontros assim…e sempre regado de boa garrafa de vinho e amigos.

Por: Redação
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