“Inside” de Bo Burnham nos representa na busca por sanidade durante o isolamento

Postado em: 06-06-2021 às 13h00
Por: Luan Monteiro
Especial de comédia da Netflix, é um achado intimista a quem passou a maior parte da pandemia em isolamento social | Foto: Reprodução

Lançado em 30 de maio, o especial do humorista estadunidense Bo Burnham “Inside”, ou “Dentro”, em tradução livre, é um achado para quem ficou ao menos uma parte da pandemia em isolamento social.

Em seu especial de 87 minutos, Burnham, que aqui escreve, dirige, filma e edita seu próprio filme, nos traz uma visão intimista de quem tentou manter a sanidade nesses mais de um ano em que sobrevivemos a pandemia causada pelo novo coronavírus. De uma forma cômica, o humorista critica assuntos importantes e chega a atingir seu momento de insanidade.

Aqui, sozinho, Bo nos conta uma história através de música e poucas piadas. Todas elas com algo que grande parte dos jovens conseguem se identificar. Desde fazer uma chamada de vídeo com a mãe, que para Bo é uma grande produção já que sua mãe, como todas, tem grandes problemas com tecnologia. A navegar na internet, que nos oferece bilhões de possibilidades e onde “apatia é uma tragédia e tédio é um crime”, o que nos faz ficar horas apenas olhando para uma tela em dias eternos causados pela pandemia.

Bo explica que a razão pela qual ele começou a fazer esse especial foi para se distrair e não dar um tiro na cabeça, a primeira de várias menções de suicídio (incluindo uma em que ele diz aos espectadores para “simplesmente não cometer”).

Com efeitos sonoros ameaçadores e movimentações de câmera agitadas e sonhadoras, o que fica claro é que o título de Burnham tem um duplo significado: refere-se a estar não apenas dentro de uma sala, mas também de sua cabeça.

Burnham, um comediante brilhante, sempre deixou explícito em seu trabalho uma tensão entre uma inteligência irônica, de sabichão, e um ponto de vista muitas vezes melodramático. Por baixo da trapaça formal seu estilo sempre bateu o coração pesado de um garoto de teatro extravagantemente dramático. E o maior risco que Burnham corre no especial é deixar seu lado emocional solto, mas não antes de contar uma tonelada de piadas.

A primeira metade do especial é dominada por piadas afiadas sobre o dia a dia. Em uma delas, Burnham faz uma crítica precisa através de uma música chamada “White Woman’s Instagram”, ou “Instagram de uma mulher branca”. “Este é o paraíso? Ou é apenas um … Instagram de uma mulher branca?”, diz a letra.

Depois de cerca de 35 minutos de comédia de esquete colorida e habilmente projetada, o tom muda com a primeira música completamente séria do especial, uma adorável melodia de indie-rock com um anzol como “tentar ser engraçado e ficar preso em uma sala”. Tocando um teclado, ele canta sobre os desafios do isolamento enquanto se senta em um chão desordenado, dois quadrados impressionantes de luz do sol fluindo pelas janelas de um quarto escuro.

Muitas de suas músicas começam com seriedade e depois se transformam em piadas, mas esta não. A princípio, parece ser apenas sobre a vida na pandemia, mas se torna uma referência ao seu passado, quando ele fez caretas e piadas de seu quarto quando adolescente e colocou isso na internet.

É uma espécie de história de origem. Embora este especial seja o produto, querendo ou não, de evolução, Burnham está apontando que também é uma regressão. Ele agora está de volta onde estava, fazendo piadas sozinho em seu quarto, um esforço para escapar de sua realidade. Há uma doçura nostálgica nessa música, mas partes dela retornam ao longo do show, em formas mais sombrias, uma das muitas variações de um tema.

De volta a comédia de esquete, Bo faz uma piada com os hoje famosos “streamers”, que costumam a transmitir suas partidas de video game. Aqui, Burnham cria um jogo fictício onde o personagem só tem um objetivo, chegar ao fim do dia durante o isolamento. Durante a piada, o humorista, que aqui controla o personagem (ele mesmo) dentro do vídeo game, o faz chorar diversas vezes até vencer a partida, chegando ao momento de ir para a cama para que tudo se repita no dia seguinte.

Em resumo, “Inside” é uma obra intimista que mostra o crescimento de seu autor. Bo Burnham não só evoluiu como pessoa, mas como humorista, compositor e diretor, já que esse é seu segundo trabalho também atrás das câmeras. O artista, que já publicou um livro de poemas, se tornou tão meticuloso e criativo com seu vocabulário visual quanto com sua linguagem. “Inside” é o coração, o medo, a ansiedade e a loucura de Bo Burnham, e ele é gentil o suficiente para nos presentear com uma visão de dentro de sua genialidade.

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