Entenda o escândalo italiano conhecido como “Baby Squillo” que virou série adolescente

Postado em: 17-10-2021 às 14h15
Por: Victoria Lacerda
Aparentemente mais uma série de adolescentes da alta sociedade com problemas comuns, mas não, a série vai muito além do que uma simples sinopse de séries adolescente polêmicas que já assistimos milhares de vezes. | Foto: Reprodução/Internet

Baseada em fatos reais, a série Baby disponível na plataforma de streaming da Netflix, colheu muitos frutos ao decorrer das suas três temporadas devido à polêmica da temática apresentada. A trama é retratada num bairro nobre de Roma, onde duas adolescentes acabam descobrindo um mundo proibido para sucumbir seus problemas pessoais, conduzindo-as a um caminho de escolhas erradas.

“Se você tem 16 anos e mora no bairro mais bonito de Roma você tem sorte. O nosso é o melhor dos mundos possíveis, mesmo que tudo pareça perfeito para sobreviver precisamos viver uma vida secreta”

A história é baseada no escândalo “Baby Squillo”, na qual eram promovidos encontros de adolescentes com idade entre 14 e 16 anos com homens mais velhos da alta sociedade italiana. Dentre as dezenas de pessoas acusadas de fazerem parte deste escândalo, está o marido da neta do ex-ditador italiano Benito Mussolini.

A primeira vista ‘Baby’ tem um leve toque de superficialidade, mas que apesar dos temas teens, se propõe a falar de prostituição. Entretanto, quem se interessa a assistir aos episódios pela nudez e conteúdo adulto, se decepciona. A Netflix conseguiu produzir capítulos que abordam o tema, mas sem nudez explícita.

A série se passa em meio a alta sociedade de Roma, mas se propõe a mostrar mais do que futilidades e dramas adolescentes. A mensagem por trás das atitudes dos adolescentes é um ponto de atenção. Afinal, o que leva uma pessoa a querer se prostituir? (Sim, a opção foi voluntária e não por necessidade). O que leva uma pessoa a traficar? Ou desistir de estudar fora do país e conhecer “outro mundo”? Será que é puro tédio?

São questões que tentam preencher algum vazio dentro dos personagens, logo, se conclui que a série é mais sobre se encontrar ou encontrar respostas do que “draminhas” por si só. Além disso, a Netflix insere mais uma vez em seus conteúdos questões sobre preconceito, homofobia e aceitação. 

Ludovica (Alice Pagani) e Chiara (Benedetta Porcaroli) se aproximam porque uma provoca na outra emoções que até então eram inexistentes nas vidas de ambas. Ludo não sabia o que era ter uma melhor amiga e Chiara não era rebelde. A junção das duas traz força ao enredo. Elas mostram o significado de uma amizade que não precisa de falsidade. Juntas, elas são quem são de verdade, sem precisarem esconder emoções ou sentimentos de ninguém.

Em nenhum momento a opção por drogas ou a prostituição foram inseridas no enredo por ingenuidade dos personagens. As tomadas de decisão refletem um pouco da psicologia envolvendo os jovens e seus ambientes familiares. A falta de atenção, aceitação e a relação com o dinheiro são alguns dos gatilhos para seus erros ou para se descobrirem como pessoas.

A segunda temporada de ‘Baby’ surpreendeu quem achou que o enredo se manteria com teen drama fútil, mas com picos somente no protagonismo de Ludo e Chiara.

Nesta temporada, os coadjuvantes tiveram destaques relevantes. Abuso e violência contra homossexuais, pressão psicológica familiar, sexo com menor de idade e gravidez na adolescência trouxeram mais intensidade aos episódios. Entretanto, as protagonistas se destacaram pela maturidade incomum da idade na hora de lidar com a vida dupla.

Ludo gosta da companhia de homens mais velhos, mas aos poucos ela descobre que estar com eles nem sempre é divertido. Porém ela ainda é bem adolescente e age como tal. Apesar de tentar ser forte na maior parte do tempo, há momentos de carência e tristeza que ela não hesita em demonstrar.

Chiara, por outro lado, aparenta ser uma mulher no auge dos seus 20 anos. Mais madura, demonstra personalidade ao se “sacrificar” por aqueles que ama. O jogo de cintura e inteligência ao lidar com as chantagens e riscos de sua 2ª vida, impressiona. Ao contrário de Ludo, ela separa bem suas duas vidas e nos momentos que consegue, aproveita ao máximo a fase adolescente ao lado do namorado.

A série como um todo mostra uma evolução. Mesmo com poucos episódios, nota-se uma evolução dos personagens, tanto na vida profissional como pessoal. Entretanto, a falta de complexidade e emoção desanima um pouco.

Já na terceira temporada, as protagonistas fizeram uma reviravolta na série. Ludovica foi incrível! Com seu jeito todo autêntico e sem perder sua essência, ela se descobre e vai em busca dos seus sonhos, e mesmo quando se sente traída não abandona sua melhor amiga. O fato da sua mãe não ter virado as costas pra ela quando soube da sua passagem pela prostituição foi um pilar para que ela não desabasse. O apoio familiar em geral mostrou que mesmo em tempos difíceis, a união faz a força.

Chiara se torna protagonista na temporada quando toma coragem para assumir a todos através de um vídeo que ela se prostituía. Diferente da história de Ludo, Chiara não teve o mesmo apoio familiar, mas mesmo assim demonstrou força e maturidade para encarar todas as consequências dos seus atos. Seu desfecho não foi nada fantasioso e ela não se “safou” de nada por conta do dinheiro da família.

Embora muitos tenham declarado a série como um instrumento contribuinte para a apologia ao tráfico sexual de menores de idade, o enredo da trama apresenta um diálogo entre as personagens de forma que o foco seja o ponto de vista das duas adolescentes, principalmente no que se diz a respeito aos dramas pessoais de cada uma e suas escolhas, o que fez a Netflix ser acusada de romantizar a questão do tráfico sexual.

A série é sim polêmica, mas a narrativa e escolha dos personagens foram muito bem elaboradas, assim como a construção do enredo. Cada personagem possui uma característica particular, com histórias a serem desenvolvidas fazendo com que a segunda temporada seja necessária para entendermos muitas questões que ficaram no ar.

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