Nova personagem de Divertida Mente 2 ensina sobre como a ansiedade age no cérebro

Especialistas explicam até que ponto o desenho pode refletir o que acontece na vida real

Postado em: 09-07-2024 às 06h30
Por: Leticia Leite
Imagem Ilustrando a Notícia: Nova personagem de Divertida Mente 2 ensina sobre como a ansiedade age no cérebro
Embora a animação seja mostrada como uma pequena criatura laranja, ela nos ajuda a entender melhor como a ansiedade afeta nosso corpo | Foto: Divulgação

Ansiedade, tédio, vergonha e inveja são as quatro novas emoções que despertam a adolescente Riley em Divertida Mente 2, que traz a continuação do primeiro filme, Divertida Mente, lançado há quase dez anos, que usa personagens coloridos e engraçados como alegria, tristeza, medo, nojo e raiva, para demonstrar de forma lúdica o que acontece no cérebro de uma pessoa enquanto ela cresce e descobre as emoções. 

Agora, nesta nova fase da vida, há uma verdadeira virada na chave e muita coisa muda. Mas até que ponto o desenho pode refletir o que acontece na vida real? No novo filme, um personagem surge prometendo agitar as coisas dentro da cabeça da personagem principal, a ansiedade. Embora a animação seja mostrada como uma pequena criatura laranja, ela nos ajuda a entender melhor como a ansiedade afeta nosso corpo.

A biomédica Telma Abrahão, especialista em neurociência e desenvolvimento infantil, explica o que está por trás dessa fase. “A adolescência é uma fase de grandes alterações hormonais, comportamentais, emocionais e na forma de olhar para si e o mundo. Também é um momento da construção de novas sinapses e desenvolvimento de importantes habilidades socioemocionais, onde o adolescente aprende a pensar nas consequências de suas atitudes, se preocupa mais com o julgamento alheio, deseja ser aceito e querido”, comenta Telma.

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Essa fase é fruto da infância, mas agora os pais deixam de ser os heróis da vida e os amigos ganham mais espaço. O medo da rejeição, de não ser bom o suficiente aumenta muito, o que traz consigo uma grande ansiedade. E foi justamente essa emoção a personagem de maior destaque nesse novo filme.

Mas se essa emoção não for compreendida pode causar danos também, explica a profissional. “A ansiedade é a emoção muito presente na adolescência e pode simplesmente levar o adolescente a agir com impulsividade, tomar decisões de forma impulsiva e precipitada o pode trazer inclusive resultados indesejados. Por outro lado, também é positiva porque ela nos faz olhar para o futuro tentando minimizar os erros e nos coloca para pensar antes de agir. Então é uma fase marcada por um grande conflito: ‘eu estou muito ansiosa querendo que as coisas deem certo. E por outro lado eu estou paralisada pelo medo de errar”, comenta.

Segundo o médico psiquiatra Dr. Flávio H. Nascimento, é preciso entender que a ansiedade é um processo natural do corpo humano, desenvolvido ao longo da evolução humana para a nossa sobrevivência. “O grande problema surge quando ela se torna excessiva”, alerta.

Para Telma, é importante a orientação e atenção dos pais para guiar esses sentimentos, mas entendendo que já é um ser com personalidade formada, alguém com vontade e ideias próprias. “E aí qual que é a importância da reflexão aqui? A mudança que a gente quer fazer na nossa vida nunca está lá no futuro. Está sempre no presente. Mas desenvolver essa habilidade de prever as consequências das nossas próprias atitudes é fundamental.  É justamente o que acontece na adolescência. A criança age por impulso, não tem o controle neurológico das ações. Já o adolescente tem uma função executiva que se chama controle inibitório responsável pelo controle de impulso mais desenvolvido”, explica a especialista.

Essa habilidade ajuda na hora de frear as próprias vontades e começar a pensar um pouco mais na consequência dos atos. “Esse é o papel da ansiedade, o de mostrar o tempo inteiro e colocar o adolescente em dúvida. ‘Se eu fizer isso e acontecer aquilo?’, ‘será que sigo em frente?’, ‘será que eu devo ou não ir por esse caminho?’. Isso pode deixar ansioso, mas também serve para medir suas atitudes e pensar nas consequências”, aconselha.

Nessa fase também é bastante comum que os adolescentes fiquem perdidos, pedindo a opinião dos outros, como podemos ver com a protagonista. E é aí que entram as bases da infância. “Aquele adolescente que foi criado num lar com valores firmes, com amor, com segurança, vai ter mais repertório de vida para tomar boas decisões. Os pais, que eram heróis na infância, durante a adolescência ficam com um papel mais secundário, e os amigos ganham força. Mas ainda assim o relacionamento com os pais pode ganhar um olhar diferente, desde que esses pais passem a se relacionar com esse adolescente com mais respeito, com mais conexão, levando em consideração que o filho não é mais uma criança”, finaliza.

A diferença entre a ansiedade natural e a patológica

A melhor maneira de identificar quando a ansiedade está ‘passando do ponto’ é observar os impactos dela no dia a dia e nas tarefas rotineiras.

Os sintomas de ansiedade, seja ela normal ou patológica, variam apenas na frequência e intensidade. Enquanto a ansiedade normal surge em momentos de perigo real ou ameaças imediatas, a patológica se manifesta em situações cotidianas, com uma intensidade maior que pode causar outros problemas e afetar a saúde mental e física do indivíduo.

“Quando a ansiedade se torna patológica, ela gera sintomas muito característicos como dor no peito, taquicardia, sudorese e dores de cabeça”, explica Dr. Flávio.

É possível prevenir que a ansiedade se desregule?

Alguns cuidados podem ajudar a manter a ansiedade sob controle em níveis normais no organismo. “Manter a ansiedade controlada é uma tarefa que exige um controle de muitas variáveis, como a dieta, o sono, equilíbrio entre trabalho e lazer, exercício físico, entre outros”, explica Dr. Flávio.

“Mas quando há histórico negativo em relação à ansiedade é importante buscar ajuda profissional através das terapias comportamentais e uso de medicamentos, que sempre devem ser indicados por um especialista”, explica.

Sintomas de ansiedade

  1. Preocupação excessiva sem motivo plausível;
  2. Inquietação ou sensação de estar ‘no limite’;
  3. Fadiga excessiva;
  4. Dificuldade de concentração;
  5. Irritabilidade;
  6. Tensão muscular;
  7. Distúrbios do sono.

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