55 anos de cultura e resistência em Goiás

Academia Feminina de Letras e Artes celebra trajetória marcada por inclusão e preservação cultural

Postado em: 10-07-2024 às 06h30
Por: Luana Avelar
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Com uma sede própria cedida pelo Estado e apoio de iniciativas culturais, como a Lei Municipal de Apoio à Cultura e a Lei Paulo Gustavo, a academia não só preserva a memória cultural de Goiás, mas também inspira novas gerações de artistas | Foto: Luana Avelar

Fundada em 9 de novembro de 1969 por Rosarita Fleury, Ana Braga e Nelly Alves de Almeida, a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (AFLAG) surgiu com a missão de oferecer espaço e voz às mulheres goianas no cenário literário e artístico, num contexto onde a participação feminina era limitada em instituições acadêmicas tradicionais. Rosarita Fleury, já reconhecida nacionalmente, enfrentou barreiras na Academia Goiana de Letras, o que motivou a criação de uma nova instituição inclusiva.

A história da AFLAG é marcada por desafios e conquistas ao longo dos anos. Inicialmente sem sede própria, a academia encontrou apoio no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, onde compartilhou espaço com outras iniciativas culturais. Foi somente anos mais tarde que o Estado cedeu uma casa em comodato, garantindo um local permanente para suas atividades.

Segundo Elizabeth Abreu Caldeira, atual presidente da AFLAG, os desafios são, evidentemente, econômicos. “A única verba oficial são as anuidades que as acadêmicas colaboram, que é estatutário. Nem sempre ficam atualizadas essas anuidades. Por outro lado, participamos de projetos que nos auxiliam a manter nossa estrutura e promover novas iniciativas”.

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A academia se expandiu para abranger não apenas a literatura, mas também as artes plásticas, cênicas e musicais, proporcionando um espaço inclusivo para diversas expressões artísticas. A Revista das Artes, em sua 10ª edição, exemplifica o compromisso da academia com a difusão cultural, apresentando textos e narrativas que enriquecem o panorama artístico goiano.

Maria Elizabeth Fleury Teixeira, filha de Rosarita Fleury e integrante ativa da academia, relembra: “Vi a academia nascer, vi ela ser pensada no sonho de Rosarita. Elas foram pensando quem ia chamar, fazendo uma lista das possíveis acadêmicas. Muitas mereciam estar aqui, mas na época, a visão era um pouco acanhada, muitas convidadas não aceitaram”.

A AFLAG também se destaca por suas atividades educativas, recebendo regularmente alunos de escolas locais para visitas educativas, promovendo assim a valorização da cultura e história goianas. A sede atual, adaptada e revitalizada com apoio de projetos culturais como a Lei Municipal de Apoio à Cultura e a Lei Paulo Gustavo, é um centro de preservação da memória cultural do estado.

Elizabeth Abreu destaca o documentário sobre a história da instituição, atualmente em fase final de produção: “O projeto visa resgatar nossa trajetória, incluindo depoimentos das acadêmicas sobre o papel da academia em suas vidas e na comunidade. Será lançado no aniversário da academia, em novembro, com o apoio da Assembleia Legislativa”.

Em suas palavras, Maria Elizabeth reflete sobre o significado da academia em sua vida e na comunidade: “A AFLAG é uma família cultural onde me sinto amada e acolhida. Carregamos o legado das nossas antecessoras como um troféu, honrando-as através de nossos projetos e contribuições para a cultura goiana”.

Além da preservação histórica, a academia mantém um compromisso com o presente, buscando sempre fortalecer seus laços com a comunidade e inspirar novas gerações de artistas e intelectuais. Com uma galeria dedicada às fundadoras, paredes que reverenciam acadêmicas e uma secretária cedida pelo Estado, a instituição se firma como um pilar cultural essencial em Goiás.

Elizabeth Abreu compartilha não apenas o compromisso institucional, mas também sua própria jornada pessoal como escritora e defensora das artes. A presidente reflete sobre sua inspiração inicial na literatura de Fernando Pessoa, cujos versos a guiaram desde a juventude: “Leitora voraz, amava Fernando Pessoa, e ele tem uma trilogia que chama Criança que Fui, Chora na Estrada. Ele diz assim, ‘a criança que fui chora na estrada, deixei-a ali quando vim ser o que sou. Hoje, percebendo que o que sou é nada, quero buscar a criança que fui, onde ficou’”.

Inspirada por essa poesia, Elizabeth encontrou sua própria voz na escrita, utilizando suas experiências e reflexões para criar obras que refletem sua jornada pessoal e profissional. Ela compartilha um momento de autodescoberta através da literatura: “Esse poema dele me inspirou a criar um texto também, uma literalidade com o Fernando Pessoa. Escrevi sobre meu próprio crescimento e evolução, buscando reconciliar quem eu era com quem me tornei”.

Esse processo culminou na publicação de seu primeiro livro, uma conquista após anos de maturação e revisão de seus escritos. Ela enfatiza a importância de persistir na jornada criativa: “Esse texto meu ficou engavetado durante muitos anos. Trabalhando no Instituto Histórico, tive a oportunidade de compartilhar minhas produções com outros escritores, o que me encorajou a finalmente publicar”.

Para ela, sair do anonimato literário é importante para qualquer autor: “Sair do ineditismo também é muito importante. Enquanto o texto não é publicado, ele não está pronto. Você revisa e revisa e nunca acha que está bom o suficiente. É crucial publicar seu trabalho para obter visibilidade e feedback”.

Como presidente, ela continua a incentivar novas escritoras a persistirem em suas aspirações literárias, enfatizando a importância da dedicação e confiança em suas próprias vozes criativas. “Acredito na insistência e persistência em dedicar-se ao que você acredita. Isso pode trazer novas vozes e talentos para a Academia Feminina de Letras, enriquecendo nosso legado cultural”.

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