BC recorre a sua “receita única”, eleva juros e promete novas altas

Postado em: 18-03-2021 às 08h10
Por: Sheyla Sousa
Confira a coluna Econômica, por Lauro Veiga, desta Quinta-feira (18/3) | Foto: Reprodução

Lauro Veiga 

A
equipe econômica, representada neste caso pela alta direção do Banco Central
(BC), tomou ontem a única medida a que sempre recorreu para enfrentar processos
de elevação nos preços em geral: arrochar a economia por meio da elevação das
taxas básicas de juros. Ainda que, conforme argumenta a própria nota do Comitê
de Política Monetária (Copom), as altas recentes nos preços guardem relação
nula com o nível atual da atividade econômica no País.

Mais
claramente, a inflação vem flertando com níveis mais elevados desde setembro do
ano passado, sob pressão da alta nos preços internacionais das principais
commodities, incluindo soja, milho, algodão, petróleo e minério de ferro, entre
outros produtos, e por conta da forte desvalorização do real diante do dólar.
Quer dizer, nenhum desses fatores está relacionado ao comportamento da demanda
doméstica. Na cabeça dos diretores do BC, ainda assim, seria “inevitável”
aumentar os juros para determinar um esfriamento ainda mais severo na economia
para derrubar os preços aqui dentro de forma a compensar as pressões de alta
vindas de fora do País, levando a taxa inflacionária de volta para o centro da
meta (fixada em 3,75% para este ano).

Para
comparar, os preços dos produtos influenciados pelo dólar, nos 12 meses
terminados em fevereiro deste ano, subiram 9,90% de acordo com estimativa do
Banco Fator. Os produtos que não são exportados e que não sofrem influência
diretado câmbio subiram 2,79% em igual período diante de uma inflação, medida
pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 5,20%.O aumento
dos combustíveis respondeu por metade da inflação registrada no acumulado dos
primeiros dois meses deste ano (1,11%).

Sem variação

Os
juros básicos subiram ontem de 2,0% para 2,75% e o BC já antecipa outra correção
de mesma intensidade na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 4 e 5 de
maio. Caso se confirme, a taxa alcançaria 3,5%. Foi a elevação mais forte em
seis anos e veio acima até mesmo do que os mercados esperavam (na média, as
apostas giravam em torno de uma correção de meio ponto de porcentagem). O
avanço da inflação poderia ter sido enfrentado, desde o seu início, com a
adoção de medidas menos duras do que o aumento dos juros, receituário único
concebido pela equipe econômica. Medidas para moderar as exportações de
alimentos, num exemplo, poderiam ter sido adotadas ainda no ano passado, assim
como providências para estimular a entrada momentânea de bens importados, entre
outros mecanismos disponíveis, mas desprezados por arrogância, desconhecimento
ou interesses outros.

Balanço

Para
justificar sua decisão, o Copom argumenta que os indicadores disponíveis
apontam uma “recuperação consistente da economia”, mesmo com a “redução dos
programas de recomposição de renda”. Reconhece que “essas leituras”, que pintam
um cenário um tanto róseo, “ainda não contemplam os possíveis efeitos do
recente aumento no número de casos de Covid-19”.

Mas
acha que já estava na hora de “iniciar um processo de normalização parcial,
reduzindo o grau extraordinário do estímulo monetário”. O linguajar empoado,
num momento em que famílias esfaimadas fazem filas nos grandes centros para
conseguir algum alimento, soa como uma agressão.

Traduzindo:
os diretores do BC acreditam que o momento recomenda a volta da política de
alta dos juros – o que vai aumentar os riscos de agravar a crise na economia,
ampliando o desemprego, a perda de rendas e a fome, literalmente. E argumentam,
contraditoriamente, que o “risco fiscal” mantém-se elevado (quer dizer, o risco
de novos aumentos nos déficits do governo).

Por
que contraditório? Porque o aumento da taxa básica causará elevação nas
despesas do governo com os juros de sua dívida, levando a novos aumentos da
mesma dívida, com mais incertezas adiante.

O
forte aquecimento mencionado pelo Copom, referindo-se ao comportamento mais
recente do Produto Interno Bruto (PIB), não parece assim tão vigoroso. Na
comparação com o trimestre imediatamente anterior, o PIB chegou a saltar 7,7%
no terceiro trimestre, mas foi um salto enganoso, porque veio na sequência de
quedas de 2,1% e de 9,2% no primeiro e segundo trimestres. No último trimestre,
comparado ao terceiro, o produto avançou 3,2% (o que já antecipava algum
desaquecimento).

Comparado
ao mesmo trimestre de 2019, o PIB caiu 3,9% e 1,1% no terceiro e quatro
trimestres do ano passado. Apenas com alguma condescendência, podem-se
considerar esses indicadores como um sinal de retomada.

A
alta dos juros certamente ganhará o amplo apoio dos mercados, com os festejos
de sempre. A indústria de fundos já acumulava, até o dia 12 de março, conforme
dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de
Capitais (Anbima), patrimônio líquido de R$ 6,221 trilhões, algo como 83,5% do
PIB. Desde dezembro de 2011, quando somava R$ 4,069 trilhões, o patrimônio
consolidado dos fundos de investimento aumentaram 52,9% em termos reais,
descontada a variação do Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna
(IGP-DI), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Desde
janeiro até 12 de março último, os fundos registraram uma captação líquida de
recursos (aplicações menos retiradas) de R$ 83,598 bilhões, num salto de 119,3%
frente ao acumulado nos primeiros três meses do ano passado (R$ 38,128
bilhões). O valor, acumulado em apenas dois meses e meio, já corresponde a 47,6%
de toda a captação líquida realizada nos 12 meses de 2020 (R$ 175,6 bilhões).

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