Salto nos preços dos combustíveis não “contaminou” demais setores

Postado em: 26-03-2021 às 07h40
Por: Sheyla Sousa
Confira a coluna Econômica, por Lauro Veiga, desta Sexta-feira (26/3) | Foto: Reprodução/Thiago Gadelha

Lauro Veiga 

A
alta recente das taxas de inflação no Brasil tem sido impulsionada
majoritariamente pelo aumento nos preços dos combustíveis, reajustados
fortemente pela Petrobrás ao longo do ano. Os custos, neste setor específico,
têm sido pressionados, por sua vez, pela escalada do dólar, que acumulava
elevação de 9,35% neste ano (até ontem), e pelo aumento nos preços do petróleo.
Nos mercados futuros, a cotação do barril do petróleo tipo Brent havia
experimentado um salto de 31,1% desde o final de 2020, saindo de US$ 50,35 na
média registrada em dezembro passado para US$ 65,99 também conforme os valores
médios registrados entre os dias 1º e 25 deste mês.

Como
a tendência de alta tem sido observada em outras importantes commodities, a
exemplo do minério de ferro, encarecendo o aço fabricado aqui dentro (um insumo
que interfere na formação de custos de diversos setores da indústria), da soja,
do milho, do algodão e açúcar, entre outros itens, estaria em curso o que os
economistas chamam de “inflação de custos”. Mais claramente, os custos das
empresas subiram igualmente pressionados pelos aumentos daqueles insumos e de
outras matérias-primas, o que, em tese, poderia levar a correções mais
generalizadas nos preços finais cobrados pela indústria.

No
limite, a economia correria o risco de enfrentar um processo de alta de
inflação combinado com estagnação da atividade, provocada pela escalada dos
casos de contágio e de mortes causadas pela pandemia. Estaria assim configurado
um quadro de “estagflação” (essa combinação de inflação elevada e estagnação
econômica). O governo e sua equipe econômica não parecem incluir essa
perspectiva em seu “balanço de riscos”, como diz o pessoal do Banco Central
(BC). Com todas as limitações teóricas e operacionais notoriamente enfrentadas
pela equipe econômica, a saída do BC, neste caso, seria trazer a taxa básica de
juros para as nuvens mais uma vez, já que esta tem sido a receita única
vislumbrada pela equipe econômica quando se trata de conter ímpetos
inflacionários.

Sem repasse

A
retomada dos aumentos nos juros, desde a semana que passou, no entanto, foi
decidida para evitar que o avanço da inflação nos últimos meses, embora
motivado por fatores localizados, venha a “contaminar” os demais preços,
consolidando um processo inflacionário mais generalizado. Os dados do Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo15(IPCA-15), aferido pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre as duas semanas finais de
fevereiro e a primeira quinzena de março, mostram que esse repasse, até aqui,
não se confirmou. A taxa subiu fortemente em fevereiro, atingiu níveis mais
elevados na primeira quinzena de março, mas já apontava alguma moderação.

Balanço

O IPCA-15 havia alcançado 0,48% nas quatro semanas
terminadas em 15 de fevereiro e fechou o mês em 0,86% (alta de 0,38 pontos de
porcentagem). Nos 30 dias até 15 de março, a taxa avançou até 0,93% (mais 0,07
pontos) e deve encerrar as quatro semanas deste mês por volta de 1,01% na
projeção do Itaú BBA.

Uma avaliação mais detalhada mostra que os aumentos
da gasolina, do etanol, óleo diesel e gás (o de botijão e o encanado), em
conjunto, responderam por 80,37% na formação do IPVA-15 de março, numa
contribuição de aproximadamente 0,75 pontos em uma inflação que ficou em 0,93%.

Os preços da gasolina, do etanol e do diesel
experimentaram altas de 11,18%, 16,38% e de 10,66%. O litro da gasolina sobe há
nove meses consecutivamente, informa o IBGE. Os aumentos
para o gás de botijão e o encanado foram menos intensos (4,60% e 2,52%
respectivamente), mas igualmente superaram o ritmo observado na medição feita
para aferir o IPCA de fevereiro, quando as altas haviam sido, pela ordem, de
2,98% e 2,68%. Ainda no mês passado, os preços do litro da gasolina, do etanol
e do óleo diesel haviam subido 7,11%, 8,06% e 5,40%.

No índice aferido ao longo dos 28 dias de fevereiro,
aqueles mesmos itens haviam respondido por 52,35% do IPCA acumulado no período
(0,86%).

Mas o que aconteceu com os demais preços na
economia? Excluídos gasolina, etanol, diesel e gás, os demais produtos haviam
apresentado elevação de 0,41% em fevereiro e passaram a subir 0,18% entre as
duas semanas finais daquele mês e as duas primeiras de março. Assim, não parece
estar confirmado, até aqui, o temido repasse das altas dos combustíveis para os
demais setores.

De fato, os chamados “preços livres” (que excluem
produtos e serviços que têm seus preços de alguma forma determinados pelo setor
público) reduziram o ritmo de alta de 0,5% em fevereiro para 0,3% em março
(neste caso, na comparação com os aumentos captados pelo IPCA-15 de fevereiro e
março).

Os tais “núcleos” da inflação, indicadores que
excluem variações muito intensas, itens que apresentam reajustes pouco
frequentes e outros mais voláteis, na variação mensal, saíram de elevação de 0,46%
em fevereiro para 0,41% em março (o que pode ser considerado como quase
estabilidade).

No setor de serviços, na média, o índice de preços
recuou de 0,5% para 0,1%. Este seria um indicador da falta de demanda na
economia, na visão de alguns analistas. A mesma falta de demanda que sugere
dificuldades crescentes para as empresas repassarem ao consumidor as altas de
custos sofridas, o que reforça a necessidade de políticas públicas (fiscal e de
crédito) para dar suporte, sobretudo, aos negócios de pequeno porte, que não
terão como sobreviver ao consumo debilitado e às pressões de custo.

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