Poesia baseada em fatos reais: MC Nego Bala conta com voz de Elza Soares

Postado em: 27-11-2021 às 09h06
Por: Lanna Oliveira
Artista escancara sua vida na produção do álbum e do curta-metragem ‘Da Boca do Lixo’. | Foto: Divulgação

A arte é transformadora, liberta a alma e transborda amor. E uma das mais belas formas de sonhar com a mudança é por meio da música. E foi assim, desejando um mundo melhor, que o MC Nego Bala se libertou de suas amarras e idealizou o álbum ‘Da Boca do Lixo’, lançado esta semana. Este trabalho traduz o olhar de um garoto da Cracolândia, filho de uma mãe usuária de crack e de um pai batalhador. Sim, Nego Bala usou sua superação pessoal como inspiração para versar as nove músicas que compõem o projeto.

Batizado Marcelo Abdinego Justino Generoso, Nego Bala nasceu e se criou na Boca do Lixo, região central de São Paulo. Foi lá que vivenciou as ruas e se entregou para um caminho que mais tarde te traria consequências. Com 19 anos, ele se viu privado de sua liberdade e conta que essa experiência trouxe para sua vida muitos aprendizados. Além de ter fortalecido dentro da sua alma de artista a vontade de transformar seus pensamentos em música. E assim o fez, preso ele escreveu algumas das faixas do disco ‘Da Boca do Lixo’.

A essência do álbum

As músicas ‘Buraco no Céu’, ‘Cifrão In’ Pé’, ‘Da Boca do Lixo’ e ‘Paradoxo’ foram criadas nesse período conturbado de sua vida, porém um momento de muita reflexão. A primeira surgiu de forma improvisada, algo recorrente no processo criativo do funkeiro. “Essa música foi como um fôlego para mim, eu tinha desistido de tudo naquele momento e ela veio”, ele recorda. “Já ’Cifrão In’ Pé’ chegou em uma tarde em que estávamos no pátio. Ela fala dos valores que vi em mim mesmo estando sem liberdade”, ele define.

A faixa-título do disco, ‘Da Boca do Lixo’ é uma música que ele fez com o propósito de exaltar as comunidades. Nego Bala tem como missão dar autoestima a população das favelas e mostrar que suas histórias valem ouro. Não à toa, o paulistano aborda resiliência, empoderamento e resistência. “Na cadeia, tem muito usuário que é do Centro. E os caras sentem fraqueza neles, chamam de nóia, de Cracolândia. Eu queria fazer uma letra que todos cantassem com orgulho. Uma semana depois, na visita, tava todo mundo cantando com orgulho”, ele lembra. 

‘Paradoxo’, por sua vez, foi criada de dentro da cela. “Eu tava quietão e não me deixavam ficar na minha. Insistiram para eu mandar uma rima. Minha mente sempre tá a milhão, veio na espontaneidade e cantamos umas 30 vezes no corredor”, recorda. Essa é uma das belezas de se fazer arte, fazer dos momentos difíceis uma forma de se libertar de suas próprias amarras. E Nego Bala soube transparecer nas letras suas muitas personalidades e dos diversos sentimentos que foram gerados no seu íntimo e que o move como ser humano e artista.

Com um significado especial, ‘Diumjeitodiferent’ representa a contestação de quando ele se percebeu MC. Isso porque, na quebrada, as pessoas pediam para ele cantar, mas como não tinha nenhuma canção registrada, sempre soltava uma rima diferente, que surgia ali na hora. Aos 10 anos de idade, próximo à Praça Princesa Isabel, em meio ao fluxo e com parceiros, ele soltou a letra no improviso. “Eu cantei muito essa música na quebrada, então virou um hino”, diz. Quando foi registrar em estúdio, a canção virou o que Nego gosta de chamar de ‘ópera funk’.

Já ‘Som de Preto’ e ‘Anjo’ são frutos de madrugadas em estúdio. A primeira veio com um beat em formato de boom bap e a letra foi feita no freestyle (improviso) de ponta a ponta. “A ideia foi mostrar uma visão brasileira e consciente da coisa, então traz uma visão das antigas e também de agora, de se atentar aos recursos e a ancestralidade”, ele comenta. Composta quando ele tinha 13 anos de idade, ‘Anjo’ apresenta um lado romântico. “É um lado meu que eu não tinha nem visto”, define. Já a track ‘Fumando do Verde’, traz a atmosfera do baile.

Completando o álbum, uma das músicas mais importantes do projeto é ‘Sonho’. Esta foi composta por Nego Bala quando tinha apenas 12 anos em um momento reflexivo durante sua passagem pela Fundação Casa. Ele sentiu um sopro em formato de melodia e, ao término do dia, tinha composto a música, que precisou cantarolar de forma sussurrada e repetida para gravar a letra no pensamento. Além de ser concebida de forma especial, a faixa ainda ganha a participação de Elza Soares, uma das vozes mais potentes e representativas do Brasil.

Vida e obra em audiovisual

‘Sonho’ também exerce o papel musical no curta-metragem que apresenta a vida e a obra de Nego Bala. Idealizado pela joint venture AKQA\Coala.LAB e produzido pela Stink Films, mesma parceria responsável pelo vídeo de ‘Bluesman’, do rapper Baco Exu do Blues, o filme está disponível no canal de YouTube do artista. Neste curta, ele revisita os dias que esteve privado da liberdade. É como se o disco e toda sua essência fossem condensados no formato da trilha sonora de uma obra audiovisual.

“A gravação foi um flash de várias emoções e um misto de aprendizado monstro pelo qual passei”, afirma o MC. O roteiro, baseado em fatos reais, amarra passado, presente e futuro, mostrando como a dança e a música são tecnologias ancestrais capazes de conectar e de mudar vidas. Ele faz as pazes com a sua criança e transforma as lágrimas de tristeza em lágrimas de inspiração. No vídeo, há menção ao rap com uma citação dos Racionais MC’s e também ao funk, gênero no qual o cantor se baseia para compor, mas sem limitar as referências. 

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