Zélia Duncan celebra 40 anos de carreira com consciência de que compor é ‘doar-se ao outro’

Postado em: 22-01-2022 às 08h36
Por: Lanna Oliveira
Cantora apresenta o álbum ‘Pelespírito’, em janeiro, no teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros | Foto: reprodução

“No silêncio, uma catedral, um templo em mim, onde eu possa ser imortal…”, já profetizava Zélia Duncan, mesmo sem pretensão, a imortalidade da sua música quando compôs ‘Catedral’, ao lado de Christiaan Willem e Tanita Tikaram. A cantora completa 40 anos de carreira com 15 discos, cinco DVDs solo, prêmios e parcerias em seu currículo. E te digo Zélia, seja bem vinda ao grupo daqueles que vivem eternamente por meio de sua arte. Com sua voz potente e sua postura empoderada, Zélia celebra toda sua trajetória com seu show ‘Pelespírito’.

Cantora, compositora e atriz, Zélia Duncan é cria da década de 80, anos marcados pela revolução na música nacional. Com apenas 16 anos ela embarcou nessa viagem que é a música e não tinha como se perder em um caminho que nitidamente já estava traçado para ela. Mas foi em 1992 quando gravou uma faixa no songbook de Dorival Caymmi que sua carreira passou a ser percebida pela grande mídia. A partir daí passou a ser incluída em uma nova safra de cantoras que surgiu na década de 90, ao lado de Adriana Calcanhoto, Cássia Eller e Marisa Monte. 

O primeiro show da cantora foi em 1981, na Sala Funarte, em Brasília, após ter vencido um concurso em que os participantes se inscreviam enviando uma fita k7. O prêmio era justamente cantar acompanhada por músicos profissionais. Embora tenha se tornado um nome conhecido nacionalmente em 1994, com o estouro da canção ‘Catedral’, ela já estava na estrada faz tempo. Ela conta que quando começou a cantar, sua mãe ia com ela aos botecos porque era menor de idade. Naquela época, ela só queria gravar um disco.

Aos 57 anos, a escorpiana natural de Niterói, e radicada em São Paulo, afirma em conversa com Teresa Cristina que pretende continuar arriscando e tentando fazer diferente mesmo após 40 anos de carreira. Para celebrar este momento, Zélia Duncan apresenta o álbum ‘Pelespírito’, nos dias 21, 22 e 23 de janeiro, no teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. O trabalho é fruto de um encontro musical com o poeta e produtor pernambucano Juliano Holanda, ao lado de quem Zélia compôs todas as 15 faixas que figuram no disco. 

O álbum ‘Pelespírito’ foi gravado entre 2020 e 2021 em vários home studios devido a pandemia. Zélia e Webster Santos gravaram em suas respectivas casas, em São Paulo, Juliano Holanda em Pernambuco, Léo Brandão em Curitiba, Christiaan Oyens em Londres e Ézio Filho no Rio de Janeiro. E assim o projeto nasceu em pleno caos, passeando por ritmos como folk, country, rock´n´roll, sertanejo nordestino, sertanejo pantaneiro e blues. O que refere ao projeto uma sonoridade única e abrasileirada, acariciada pela voz rouca da cantora.

“Agora, após um ano e pouco disso tudo, temos experiência com esse sofrimento. Só que ele está virando música, livro, quadro, coreografia, peça teatral. E é isso que nós artistas temos que produzir e inventar todo dia. Porque não é só o fato de não estar trabalhando num palco, encontrando as pessoas, é uma coisa íntima também. No meu caso, isso virou muitas coisas. E uma delas é esse álbum, que é absolutamente especial para mim. Porque é um álbum todo autoral e todo feito com o Juliano Holanda. Ele é um desejo de ser um pequeno documento meu. E eu adoraria que ele pudesse mapear um pouquinho o momento das pessoas também. Porque as músicas têm isso. Elas pertencem a quem as ouve, a quem se apodera delas”, diz a cantora.

A consciência de doação de suas obras para o outro é antiga e enfatizada pela responsabilidade que a acompanha. “As pessoas cruzavam meu caminho e diziam: ‘você fez isso pra mim’. Quando você faz uma música, e a pessoa canta, você está doando este trabalho para ela. Compor me deu a noção de responsabilidade de dizer o que eu pensava”, contou ela certa vez. Seu senso de compromisso vai além de suas músicas, ela acredita ainda que enquanto mulher, lésbica e cantora, esta responsabilidade tem um peso a mais. “Não quero falar uma coisa e fazer outra”.

Como uma homenagem a essa cantora, que muito faz pela música nacional, ofereço à ela meus sinceros agradecimentos. Zélia Duncan, seja nos palcos, nas telas ou até mesmo exposta nas redes sociais, você e suas canções são um marco na história de milhares de pessoas. Sinta-se preenchida por um sentimento de pertencimento, porque sua obra pertence sim àqueles que sentem-se tocados de alguma forma. Seja você, na versão mais poética que um ser humano pode ser, mas sempre sendo você. Você é, você pertence, você imortal!

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