Carolina Maria de Jesus: escritora negra brasileira que se tornou parte do referencial cultural do País

No Mês da História Negra, o Essência lembra Carolina Maria de Jesus

Postado em: 24-02-2022 às 09h05
Por: Lanna Oliveira
No Mês da História Negra, o Essência lembra Carolina Maria de Jesus | Foto: Reprodução

Sozinha em uma praça, assistindo um bando de adultos selvagens destruindo brinquedos infantis instalados ali, Carolina Maria de Jesus não imaginava que ao defender o patrimônio público estaria defendendo sua própria história. Você que está se perguntando quem é essa, o Essência te conta. Apresentamos aos que não conhecem, uma das primeiras escritoras negras do Brasil, considerada, apesar de sua simplicidade, uma estrela do hall literário nacional.

A escritora brasileira é responsável pelo livro ‘Quarto de despejo: diário de uma favelada’, seu maior sucesso e obra relevante para a cultura nacional. Sua história de vida, relatada no livro-diário, é repleta de luta, sofrimento e superação. Tratava-se de uma mulher, negra e favelada no Brasil do século XX. Por aí quem lê já percebe que o caminho que ela percorreu não foi ameno e nada agradável. Imagina sua vida, ela que viveu sozinha com três filhos.

Nascida em Minas Gerais, Carolina encontrou oportunidade de sustentar sua família como catadora de papel, ferro e outros materiais recicláveis em Canindé (SP). A partir daí ela começou a relatar todas as suas experiências em um caderno velho que ela havia encontrado em meio ao lixo. Com pouco estudo, a escritora encontrou no seu amor pela leitura uma chance de se libertar, por meio do relato da realidade que a assolava. 

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Lendo tudo que lhe caía as mãos, logo encontrou seu amor pela escrita e foi aí que sem perceber, começou a mudar o mundo. Lembra do episódio dos adultos selvagens na praça? Então, isso foi na década de 1950, quando o jornalista Audálio Dantas à ‘descobriu’. Ao assistir a cena dos infratores, sem pensar, Carolina logo os ameaçou dizendo que os colocaria como personagens em seu livro de memórias. 

Mesmo presenciando esse ato de coragem diante de seus olhos, o jornalista não acreditou no que vera. Se sentiu intrigado por aquela mulher e logo começou a conversa, foi quando percebeu que ela tinha vários cadernos com histórias que todos precisavam saber. Ele se propôs a reunir e divulgar o material. Parecia que a história da favelada de Canindé realmente interessava ao público, e não só no Brasil. 

A publicação de ‘Quarto de Despejo’ deu-se em 1960, tendo o livro uma vendagem recorde de 30 mil exemplares, na primeira edição, chegando ao total de 100 mil exemplares vendidos, na segunda e terceira edições. Além disso, foi traduzido para 13 idiomas e distribuído em mais de 40 países. A publicação e a tiragem dos exemplares demonstram o interesse do público e da mídia pela narrativa de denúncia, tão em voga nos anos 50 e 60.

Além desse grande sucesso de sua carreira, ela publicou mais três livros, ‘Casa de Alvenaria’ (1961), ‘Pedaços de Fome’ (1963), ‘Provérbios’ (1963). O volume ‘Diário de Bitita’ (1982), publicação póstuma também oriunda de manuscritos em poder da autora, foi editado primeiramente em Paris, com o título ‘Journal de Bitita’, que teria recebido, a princípio, o título de ‘Um Brasil para brasileiros’. 

Em 1997, o pesquisador José Carlos Sebe bom Meihy, autor do volume crítico ‘Cinderela negra’, em que discute a vida e a obra da autora, reuniu e trouxe a público um conjunto de poemas inéditos com o título de ‘Antologia Pessoal’. De acordo com Carlos Vogt, Carolina Maria de Jesus teria ainda deixado dois romances, ‘Felizarda’ e ‘Os Escravos’. Após anos se dedicando a deixar seu legado, ela morreu em 1977 esquecida pelo público e pela imprensa. 

Mais recentemente, seus escritos vêm sendo objeto de artigos, dissertações e teses, em função da abertura propiciada pelos novos rumos tomados pelos estudos literários no País e no exterior, que passam a ver com outros olhos a chamada ‘escrita do eu’. Em paralelo, sua trajetória de mulher negra, marginalizada e oriunda dos estratos mais carentes da população brasileira foi objeto de duas biografias, ambas assinadas por historiadores de peso. 

A primeira, escrita por Eliana de Moura Castro em parceria com Marília Novais da Mata Machado e a segunda, assinada por Joel Rufino dos Santos. Na década de 2000, foi inaugurado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, o Museu Afro-brasil, cuja biblioteca leva o nome de Carolina Maria de Jesus. A biblioteca possui cerca de 6.800 publicações com especial destaque para uma coleção de obras raras sobre o tema do tráfico Atlântico e Abolição da Escravatura no brasil, América Latina, Caribe e Estados Unidos. 

A presença afro-brasileira e africana nas artes, na história, na vida cotidiana, na religiosidade e nas instituições sociais são temas presentes na biblioteca. Várias destas obras raras estão disponíveis para leitura no site museuafrobrasil.org.br. Ela foi presa por saber ler, passou fome, e até foi esquecida, mas hoje é lembrada e celebrada por todos que reconhecem sua importância na cultura brasileira. 

Foi elogiada por Clarice Lispector, quando disse: “Escritora de verdade é Carolina, que conta a realidade”. Foi homenageada em Carnaval pela escola do grupo especial de São Paulo, Colorado do Brás. O enredo é assinado pelo carnavalesco André Machado com o título ‘Carolina: A Cinderela negra do Canindé’. O fato é que quem não a conhecia, agora sabe que sua escrita memorialística, uma literatura de testemunho, deixou seu legado de força, resistência e justiça.

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