Mudança de comportamento e economia circular não devem ficar na teoria

A ciência comportamental acredita que pequenos empurrões rumo à sustentabilidade incentivam a mudança de hábitos das pessoas

Postado em: 04-07-2022 às 09h58
Por: Redação
A ciência comportamental acredita que pequenos empurrões rumo à sustentabilidade incentivam a mudança de hábitos das pessoas | Foto: Reprodução

Claudia Pires

A ciência comportamental acredita que pequenos empurrões rumo à sustentabilidade incentivam a mudança de hábitos das pessoas, como, por exemplo, começar a reciclar, tomar banhos mais rápidos etc. Mas como criar estes incentivos, que na ciência comportamental são chamados de nudges, para mudar o comportamento e, por consequência, tornar o dia a dia mais favorável ao meio ambiente? Este é o desafio que o profissional de meio ambiente que estuda o comportamento humano possui todos os dias, principalmente para uma startup de mudança de comportamento e impacto socioambiental. 

Há sete anos, fundávamos uma iniciativa muito amparada na necessidade de impactar as pessoas e motivá-las a reciclarem, mas também de transformar o que antes seria descartado em oportunidades. Por isso, o negócio possui um programa de vantagens, que bonifica aqueles que levam resíduos aos nossos postos e, a partir disso, podem adquirir benefícios que vão desde cursos a itens de necessidade básica. Mas o resíduo, ou melhor, o reaproveitamento dele possibilita transformações ainda mais profundas e, com sua reutilização, movimenta uma cadeia enorme, gerando emprego, renda e oportunidades para muita gente, além claro do impacto positivo ao meio ambiente e à saúde.

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Observando o movimento que a empresa está se direcionando, como fundadora, entendo que se não criarmos estes pequenos hábitos e incentivos por meio do programa de pontos não vamos conseguir aumentar a reciclagem. Esta é a forma que encontrei para ajudar a reciclagem no País, que hoje em dia, apesar do Brasil contar com uma Política Nacional de Resíduos Sólidos, é reciclado apenas 2,1% do total de resíduos coletados. O percentual é o mesmo há pelo menos 3 anos, segundo dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento).

Temos atuado em alguns Estados brasileiros com nossas casas de recebimento de materiais recicláveis. Nosso case de sucesso está em Salvador, pois já temos mais de 12 mil famílias cadastradas no programa e revertemos os resíduos em mais de 20 mil itens, incluindo alimentos e 44 cursos de capacitação, nos últimos seis meses. Durante o mês de março, mais de 62 mil quilos de resíduos foram recebidos. Isso significa que  mais de 3,3 milhões de litros de água foram economizados com a reciclagem, o suficiente para abastecer 28.464 habitantes por um dia, outros 159 mil kwh de energia foram poupados com o processo, podendo abastecer quase 29 mil residências por um dia.

Nestes sete anos de startup, posso dizer que começamos com o poder da resiliência, acreditando que poderíamos mudar o mundo. Iniciamos nossos trabalhos no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, e depois migramos para outros Estados, sempre implementando fórmulas inovadoras para lidar com o resíduo e a mudança de comportamento. Hoje, estamos presentes em Salvador, Camaçari, Curitiba e Goiânia. 

Caminhamos para usar a tecnologia a favor da reciclagem e da mudança de comportamento. Atualmente, oferecemos um extrato ambiental para cada participante do programa, desta forma a pessoa consegue visualizar o quanto conseguiu poupar de recursos ambientais levando seus resíduos para nossa unidade. Com isto, acredito que é possível ver na prática que a mudança de comportamento e a economia circular funcionam e não são apenas um conceito teórico. 

Claudia Pires é cientista comportamental e fundadora de programa de fidelidade para comunidades de baixa renda

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