Após mudança em lei, casal homossexual realiza fertilização com óvulo doado por parente

Postado em: 18-09-2021 às 11h53
Por: Maria Paula Borges
Robert e Gustavo terão gêmeos gerados pela prima de Gustavo com óvulo da irmã dele | Foto: Reprodução/Instagram

Os engenheiros civis Robert Rosselló e Gustavo Catunda descobriram, há três meses que terão gêmeos. Os primeiros filhos do casal são gerados pela prima de Gustavo, Lorenna Resende, e com óvulo da irmã dele, Camila Catunda. O casal é o primeiro do Distrito Federal a realizar fertilização in vitro com óvulo doado por uma parente após a nova resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), publicada em junho desde ano.

As normas que regulam a utilização das técnicas de reprodução assistida (RA) no Brasil foram utilizadas pelo CFM por meio da Resolução nº 2.294/21, atualizada no Diário Oficial da União (DOU), no dia 15 de junho deste ano, revogando a resolução de novembro de 2017. Até então, doadores de gametas ou embriões não poderiam conhecer a identidade dos receptores e vice-versa. A nova resolução prevê que dos ‘doadores não devem conhecer a identidade dos receptores e vice-versa, exceto na doação para parentesco de até 4º grau, de um dos receptores, desse que não incorra em consanguinidade’.

Além disso, a cedente temporária do útero deve ter ao menos um filho vivo e pertencer à família de um dos parceiros em parentesco consanguíneo até o quarto grau. Os demais casos estão sujeitos a avaliação e autorização do Conselho Regional de Medicina. Devido a mudança na resolução, Robert e Gustavo conseguiram concretizar a vontade que tinham desde quando começaram a planejar a paternidade. “Desde cedo idealizávamos uma misturinha de nós dois. A ideia que a gente sempre teve era de usar o óvulo da irmã dele, já que eles são bem parecidos, com o meu espermatozoide”, conta Robert.

Robert e Gustavo pontuaram ainda que o primeiro baque desde o princípio do planejamento foi saber que o doador não poderia ser conhecido. “Fomos em uma palestra de uma clínica, que foi inclusive onde a gente fez a fertilização, voltada para o público LGBT. Lá, a gente ficou muito animado, mas tivemos o primeiro baque, porque descobrimos que não podíamos usar óvulos de doadores conhecidos. No Brasil, compra de material biológico também é proibida, então tem que ser doação, e sempre foi obrigatório que fosse anônimo. Então, foi uma frustração ali naquele momento, mas não desanimou a gente de ser pai”, afirmaram.

Para o casal, a mudança na resolução que possibilitaria a realização do sonho deles ‘foi um milagre’. De acordo com Gustavo, o acordo aconteceu na véspera da assinatura de contato para compra de óvulo em banco internacional com um valor exorbitante. Foi muito chocante na nossa cabeça, o maior milagre da minha vida. A gente quis tanto, tentou tanto, minha irmã tentou ajudar a gente de várias formas, a médica, a advogada, e não dava certo. Aí, na véspera de assinar o contrato da compra dos óvulos, muda a resolução. Foi a maior coincidência da vida”, comemora Gustavo.

Fertilização

Para a fertilização, era necessário que Camila e Lorenna realizassem exames e procedimentos para a preparação dos organismos. “Tive que fazer uns exames de saúde, fazer a contagem de óvulos para ver quantos tinham e quantos poderiam ser utilizados. Descobrimos que eu tinha 44, e isso é ótimo. Depois, tive que tomar alguns remédios hormonais para estimular os óvulos a crescerem. Tomei primeiro uma injeção e depois tive que tomar uns remédios, umas cápsulas que eram todos os dias, por uma semana. Paralelamente, tomei injeções diariamente, que aplicava em casa mesmo”, conta Camila.

De acordo com Robert, a previsão dada pelos médicos para o processo era de três meses, entretanto, com o casal durou apenas 20 dias. “A Lorena usava anticoncepcional e estava há seis anos sem menstruar. Na hora que tirasse, poderia estar o endométrio muito grosso, tinha que esperar descamar, eram muitas coisas que poderiam demorar. Mas, na hora que tirou, o endométrio estava fininho, pronto só para deixar na espessura certa. A Camila estava bombeando de óvulos. O ciclo das duas tinha que estar pareado e as duas estavam pareadas. Era para ser”, afirma.

Após a fertilização, o casal e Lorenna foram fazer exames para confirmar a gravidez. Para eles a experiência foi ‘um turbilhão de emoção e ansiedade’. Apesar de ser recomendado a espera de nove dias para fazer o exame de gravidez, o casal já comprou vários testes de farmácia e com cinco dias um dos testes deu positivo.

Para ela, estar participando do sonho de Robert e Gustavo é uma emoção única. “Um sentimento totalmente diferente, de que você se torna capaz de fazer a diferença na vida do outro de uma forma tão marcante. Foi algo que era para ser e não tinha como ser diferente. A gente foi muito agraciado”, celebra a publicitária.

A especialista em reprodução humana, a ginecologista Lorrainy Lopes Rabelo realizou a fertilização. Na análise, o processo foi um sucesso. “Provavelmente eles são o primeiro casal do Brasil, porque a resolução foi publicada em 15 de junho, e no dia 12 de julho a gente já tinha transferido os embriões. E é superdifícil conseguir sincronizar doadores”, comenta.

“Foi um caso lindo, do início ao fim, em que tudo convergiu para ser realmente um sucesso”, destaca a médica. “Acho que as pessoas têm que saber que é possível constituir uma família, que é um direito idôneo e fundamental e que cada vez mais a legislação está avançando para permitir isso”, finaliza a médica.

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