Sexta-feira, 03 de fevereiro de 2023

Pesquisa aponta que floresta amazônica está perdendo a capacidade de reagir ao desmatamento

Artigo publicado utiliza décadas de informações coletadas por satélite

Postado em: 09-03-2022 às 18h00
Por: Maria Paula Borges
Artigo publicado utiliza décadas de informações coletadas por satélite | Foto: reprodução

A revista científica “Nature Climate Change” publicou um artigo afirmando que a floresta amazônica está perdendo a capacidade de reagir ao desmatamento e mudanças climáticas. A pesquisa publicada na última segunda-feira (7/3) utilizou décadas de informações coletadas por satélite, mostrando que mais de três quartos das áreas ocupadas pela Amazônia perderam o poder de recuperação desde o começo do século.

O estudo, encabeçado pelo cientista Chris Boulton, da Universidade de Exeter, na Inglaterra, mostra que o desflorestamento e mudança climática se traduzem em estações secas mais longas e secas pontuais mais frequentes. “O desflorestamento e a mudança climática, que se traduzem em estações secas mais alongadas e em secas pontuais mais frequentes, pode já ter empurrado a Amazônia para um limiar crítico de morte da vegetação”, afirma a pesquisa.

Além disso, o artigo afirma que um processo acelerado de morte da floresta amazônica levaria à perda da biodiversidade, aumento dos gases estuda na atmosfera e mudanças climáticas com severas consequências globais.

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Segundo o climatologista Carlos Nobre, o estudo é mais uma mostra do que as suas próprias pesquisas mostraram. Ele afirma que não vê tendências de mudanças nesse caminho, mas que espera que o tema seja debatido pelos candidatos a presidência deste ano.

De acordo com Nobre, a pesquisa avaliou o aumento do desmatamento e da seca, além de perceber que os fatores estão correlacionados ao índice de resiliência da floresta. “Os pesquisadores perceberam que esse índice diminuiu nos últimos 20 anos. Foram três mega secas no período estudado: 2005, 2010 e 2015-2016. E duas mega inundações: 2009 e 2012. Se o sistema da floresta fosse naturalmente resiliente, você teria uma inundação e depois uma seca, e ela iria se mantendo, ou seja, seria naturalmente resiliente. O que esses estudos mostram é que a floresta não consegue se recuperar”.

O climatologista analisa ainda que a floresta perde mais água na estação seca que na estação chuvosa. “A floresta é muito saudável o ano inteiro. Esse estudo mostra que essa ação de secas mais intensas, diminuição das chuvas e desmatamentos diminui a resiliência. O dado novo é que mais de 75% da floresta teve queda na resiliência. Só no Oeste e Noroeste da floresta ela se mantém mais resiliente porque chove mais o ano todo. É um estudo muito importante e muito preocupante”.

Nobre ressalta ainda que o alerta está sendo feito há muitos anos a respeito do salvamento da Amazônia. “Temos dito há muitos anos que para salvar a Amazônia temos que zerar o desmatamento, zerar a degradação e o fogo. Antigamente o fogo não penetrava na floresta porque ela é muita densa. Quando havia uma descarga elétrica, ela causava um incêndio pequeno que não se propagava porque era muito úmido o solo e a vegetação. A floresta evoluiu por milhões de anos dessa maneira. Hoje, com a degradação, 95% a 98% dos incêndios que ocorrem na Amazônia são causados pelo homem. Antes, os incêndios que se propagavam por metros e agora se propagam até por quilômetros. E um a dois anos depois do fogo aumenta demais a mortalidade de árvores”.

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