O feminino de papel e tinta

Apesar de serem menos lidas, cresce cada vez mais a valorização de escritoras e seus livros, como o projeto #LeiaMulheres

Postado em: 30-03-2016 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Apesar de serem menos lidas, cresce cada vez mais a valorização de escritoras e seus livros, como o projeto #LeiaMulheres

JÚNIOR BUENO

Ana Cristina César morreu aos 31 anos, em 1983. Ela foi uma poeta que expressou as angústias e alegrias femininas em papel e tinta. Sobre o ato de escrever, ela fez o poema Nada, Esta Espuma: “Por afrontamento do desejo/insisto na maldade de escrever/mas não sei se a deu­sa sobe à superfície/ou apenas me castiga com seus uivos.” O nome de Ana Cristina tem estado em voga este ano, pelo lan­ça­men­to de sua obra completa no livro Poéticas e pelo fato de ela ser a homenageada pela Festa Literária de Paraty (Flip), em junho. E é Poéticas o livro escolhido por Ana Lu Rolim, Maria Clara Dunck e Pilar Bu para a chegada do projeto #LeiaMulheres a Goiânia, hoje à noite, na Livraria Evoé.

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A ideia é se reunir, toda última quarta-feira de cada mês, para debater sobre a lei­tura de uma obra específica que tenha sido escrita por uma mulher. “É um espaço para as pessoas comentarem a obra de forma livre. E nós escolhemos a Ana Cristina Cesar pelo destaque que a obra dela está tendo este ano, com a Flip, o relançamento da obra dela,” diz Maria Cla­ra Dunck, que se interessou pelo projeto pela própria trajetória como profissional formada em Letras. “Em casa eu sempre fui incentivada a ser independente, a ser uma mulher à frente das iniciativas. E esse projeto tem muito a ver com o meu dia-a-dia, de pensar as mulheres nos espaços, nas academias, nas livrarias, nas uni­versidades,” diz ela.

O projeto vem também para jogar luz a uma injustiça histórica, que é o modo com que a literatura feita por mulheres é tratada, como algo menor. “O projeto tem como objetivo incentivar a leitura de livros escritos por mulheres, até porque a gente sabe que o mercado editorial, de maneira geral e em todo o processo, ainda faz distinção de gênero,” diz Pilar Bu, outra das organizadoras.

Pilar diz que isso influencia nas escolhas do leitor: “a leitura e a compra das obras e por que escolher ler um livro escrito por uma mulher são também um ato político, ao meu ver. Elas são menos lidas, menos publicadas, suas obras são menos vendidas e divulgadas”. Quer um exemplo? Pare um minuto do seu dia e olhe fixamente para a sua estante de livros. Quantas autoras mulheres consegue contar? Se você tem mais de uma escritora em sua coleção particular, já é um bom sinal. A maioria das pessoas não se importa se um livro é ou não escrito por uma mulher. 

Talvez por isso o papel das mulheres na literatura ainda seja tímido e, muitas vezes, classificado apenas como literatura “de mu­lherzinha.” Lembra-se das Sabrinas e Júlias nas bancas?  Enquanto isso, livros escritos por homens não são tomados co­mo “masculinos”, mas como literatura e ponto final. Tanto que há uma forma machista de se elogiar uma mulher que escreva bem: “Fulana escreve como homem.” 

Uma pesquisa divulgada pela editora Alpaca, há dois anos, apontava que metade das pessoas lê cerca de dez livros por ano e cerca de “um ou dois ” ou de “três a cinco livros” escritos por mulheres. Outra pesquisa, este do instituto Women in Literary Arts verificou a presença numérica das mulheres na literatura e concluiu que há uma divisão entre a presença dos gêneros nos principais jornais do mundo, em que as mulheres representam um número muito menor entre as autoras de obras resenhadas. Para tocar nessa ferida, o projeto #ReadWoman da escritora Joanna Walsh, ganhou proporção mundial há dois anos, se tornando viral.  

O #ReadWoman chegou ao Brasil, por meio do burbirinho gerado e pela hash­tag #LeiaMulheres por iniciativa de Juliana Leunroth, Michelle Henrique e Ju­liana Gomes, que formaram um clube do livro aberto à comunidade em reuni­ões mensais numa livraria de São Paulo. Em pouco tempo o projeto se espalhou por outras cidades do país, incluindo Goiânia. A intenção é incentivar outras mulheres a pensar no assunto e divulgar livros feitos por mulheres.

“O modo com que o mercado vende literatura feita por mulheres é ainda muito estereotipado, por sugerir que estes livros só devem ser lido por mulheres. As capas dos livros são cor-de-rosa, nas feiras de livros, os estandes são decorados com sapatinhos. O #LeiaMulheres vem prar mostrar que a literatura feita por mulheres é bem maior que essa visão do mercado”, diz Maria Clara. 

A
pedido do Essência, duas das organizadoras e uma repórter de O HOJE fizeram uma
lista de livros escritos por mulheres para se ler antes de morrer.

Jéssica
Chiareli – Repórter do on-line, do O HOJE:

A
Cor da Ternura – Geni Guimarães

O
Leopardo é um Animal Delicado – Marina Colasanti

A
Estrutura da Bolha de Sabão – Lygia Fagundes Telles

A
Friagem – Augusta Faro

Quarto
de Despejo: Diário de uma Favelada – Carolina Maria de Jesus

Ana
Clara Dunck, organizadora do #LeiaMulheres em Goiânia e letróloga:

Cantares
– Hilda Hilst

A
redoma de vidro – Sylvia Plath

Memórias
de uma beatnik – Diane di Prima

Laços
de família – Clarice Lispector

O
quarto de Jacob – Virginia Woolf

Pilar
Bu, organizadora do #LeiaMulheres em Goiânia e escritora:

Hibisco
Roxo – Chimamanda Ngozi Adiche

Do
Desejo – Hilda Hilst

A
teus pés – Ana Cristina César

O
Conto da Aia – Margaret Atwood

Um
útero é do tamanho de um punho – Angélica de Freitas 


SERVIÇO

1º Encontro do ‘#LeiaMulheres’ 

em Goiânia

Livro: ‘Poética’, de 

Ana Cristina César

Data: Hoje (30 de março) 

Horário: 19h30

Local: Evoé Café 

com Livros – Rua 9, 

nº 495 – Setor Sul 

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