A força da mulher e sua luta por espaço na sociedade

Postado em: 07-03-2021 às 11h50
Elas vêm conquistando cada vez mais lugares de fala, seja na política, no esporte, na saúde, economia, pesquisa, ciência, nos negócios ou mesmo no ambiente familiar | Fotos: reprodução

Jorge
Borges

Vivemos em uma sociedade que está longe de alcançar a igualdade de
gênero, contudo, as conquistas profissionais das mulheres vêm crescendo
significativamente ao longo dos anos.
É
perceptível que as mulheres vêm conquistando cada vez mais seu espaço, seja na
política, no esporte, na saúde, economia, pesquisa, ciência, nos negócios ou
mesmo no ambiente familiar. Há muito, a frase clichê e machista de que o
“lugar de mulher é na cozinha” perdeu o sentido. As pessoas do sexo
feminino, que representam a maioria da população brasileira, estão cada vez
mais atuantes e conquistando seu lugar de fala na sociedade.

Uma pesquisa nacional realizada pela companhia global de Executive Search e consultoria em lideranças, ZRG Brasil, que entrevistou presidentes de
empresas de médio e grande porte, entre novembro e dezembro de 2020, levantou
um aumento de 50% na participação de mulheres em conselhos de administração.
Esta crescente se torna ainda mais louvável se considerado o cenário de crise
provocado pela pandemia de Covid-19, que reduziu a porcentagem de mulheres na
força de trabalho para 46,3%, o menor índice desde 1990, segundo dados do IBGE
do segundo trimestre do ano passado. 

Para inspirar a todos, o jornal O Hoje preparou três entrevistas
com mulheres de diferentes segmentos para mostrar que o lugar da mulher é onde
ela quiser estar.

A mulher
na política

Lúcia
Vânia Abrão, de 76 anos, é jornalista, política filiada ao Cidadania e
secretária de Estado de Desenvolvimento Social. Ao
analisar toda a trajetória de sua vida é notório que sua carreira repleta é de
conquistas, sobretudo, em sua vanguarda ao entrar para a história da política
brasileira por iniciar o movimento político da mulher no Estado, sendo a
primeira eleita a deputada federal constituinte por Goiás, em 1986. 

A
graduação deu um pontapé inicial na determinação de Lúcia Vânia, que tinha como
objetivo, assim que finalizou o curso, tornar-se candidata a deputada federal.
“Naquela ocasião, Goiás não tinha nenhuma mulher na Câmara dos Deputados, era
uma ousadia porque todos os diretórios e partidos eram inteiramente
constituídos por homens. E eu não me intimidei, achei que eu deveria insistir e
desafiar essa minha vontade. Entendia que só com um mandato eu poderia
interferir naqueles problemas que havia encontrado.”

Em busca
de apoio, ela procurou os diretórios no interior. “Falava do meu desejo de ser
deputada federal para ajudar o estado, para fazer alguma coisa que pudesse
obter um resultado. Eu recebia sempre como resposta: ‘Vou pedir à minha mulher
para te apoiar’. As mulheres não participavam do diretório, mas eu não me
constrangi com isso, continuei com o trabalho de mulher em mulher”. O
preconceito e machismo teve que ser enfrentado pela secretária em cada passo,
em cada discurso e cada subida no palanque. “Por ser a única mulher no palanque
eles me deixavam para falar por último. Quando era minha vez, o pessoal já
tinha praticamente todo ido embora. Como eu não tinha traquejo para falar em
público, também era complicado para mim”. Mas, mesmo com as dificuldades, ela
não se deixou abater com a situação e enfrentou as provações.

Ali só foi
o começo da carreira política de Lúcia Vânia. A partir deste ponto, foi eleita
três vezes deputada federal. A convite do então presidente da República
Fernando Henrique Cardoso, assumiu, em 1995, o cargo de Secretária Nacional de
Assistência Social e tornou-se responsável por toda a política social do país.
Após sua passagem pela secretaria, ela voltou a ser deputada federal e foi para
a Comissão de Orçamento no Congresso, “Não era normal também uma mulher ir para
a comissão de orçamento, aliás, não era normal nenhuma mulher estar no
Congresso”, contrapôs. 

Na busca
de incentivar a participação da mulher na política brasileira, os partidos em
Goiás têm se movimentado para estimular a inserção de candidatas femininas.
Lúcia Vânia destaca o significado da mulher alcançar esse espaço. “É importante
mostrar que é possível a mulher chegar lá, desde que ela confie nela própria.
Que ela tenha condições de entender que ela pode tudo, desde que ela queira.
Não é um local, que seja exclusivamente masculino, que vai impedi-la de
participar. A mulher precisa entender que ela pode ir em qualquer lugar, desde
que ela confie nela própria e se prepare para isso.”

Lúcia
Vânia ainda ressalta sobre a força da mulher, “Ela pode qualquer coisa, desde
que ela esteja disposta a enfrentar as dificuldades, porque não é fácil para
uma mulher conciliar a vida familiar e a vida pública. Mas ela tem que
acreditar que ela pode, se ela acreditar ela consegue fazer essa divisão.
Agora, é um grande desafio porque na verdade você tem que abrir mão de muita
coisa, então você tem que saber que para ter um espaço você tem que se dedicar,
para ter respeito em uma função pública é preciso que você abra mão de muita
coisa”, finaliza. 

A mulher
no empreendedorismo

Em suas
palavras, Mileny Mansur se auto intitula como uma mulher proativa e forte.
“Sempre fui muito determinada, focada nos meus objetivos e aonde eu queria
chegar. Trabalho desde muito nova. Nunca tive medo de colocar a mão na
massa”, afirmou. Aos 41 anos, ela é formada em Serviço Social e com especialização em Psicopedagogia. Foi dona de uma
escola em Goiânia por mais de 10 anos e decidiu vender a marca para se
aventurar em outros nichos de mercado. 

Por ser
muito vaidosa, gostar muito de academia e produtos de beleza, há três anos,
Mansur se enveredou no empreendedorismo pelo setor da estética e abriu um
salão. No início, o lugar prestava serviços diversificados de beleza, como
cabelo, unha, maquiagem e cílios, mas ela percebeu que um de seus trabalhos se
destacava. “Os cílios foi o que realmente chamou atenção no espaço e já no
começo mesmo, 90% dos serviços vendidos eram de cílios. Então eu fui atrás e me
especializei nessa área e hoje o meu forte são realmente esse produto”,
conta.

Mas a
empresária queria mais. Dois anos após abrir o salão e já ter um considerável
renome em sua marca, reflexos de sua qualidade no atendimento e nos serviços
prestados, Mansur decidiu tornar a Million Cílios e Sobrancelha @millionciliosesobrancelhas  uma franquia.
Além de franquear seus serviços voltados para o embelezamento dos olhos, ela
criou ainda, outras duas marcas: a Million Makes e a Million Esmalteria. 

Mileny Mansur
diz que sente orgulho de sua ainda recente trajetória pelo mercado da
beleza.  “Na época era um sonho meu, de não ser um espaço
“normal” na área de estética, e sim uma franquia. Eu já pensava no
futuro. Eu abri, lutei e trabalhei 24 horas para isso. Porque eu realmente
queria ser uma franquia na área de cílios”. Ela fala em tom otimista que
se considera vitoriosa. “Eu venci! Mesmo com a pandemia e esse momento
turbulento que estamos vivendo, meu negócio sobreviveu e mais: ele cresceu.
Hoje, minha equipe dobrou, da época do início da pandemia para cá. Tenho uma
clientela fidelizada e vários atendimentos.”

Para as mulheres que desejam abrir seu
próprio negócio, a empresária dá algumas dicas importantes. “Sempre quando
alguém me procura para abrir uma franquia da Million ou me fala que quer
começar algum negócio no ramo de beleza [que é o que eu atuo atualmente], a
primeira pergunta que faço é: você está a fim de trabalhar? Porque a área é
muito lucrativa, mas você tem que trabalhar 24 horas para dar certo. é muito
cansativa, mas se o interessado tem disposição, sem dúvidas dá certo”,
conclui.

Mulheres nos serviços domésticos

Prestes a completar seus 58 anos de
idade, a doméstica Vera Lúcia Ferreira relembra seus tempos de infância e do
quanto o machismo fazia parte de seu ambiente familiar. “Na minha época de
menina, minha família morava na roça. Eu e minhas irmãs nem podíamos brincar
direito com meus irmãos. Tínhamos que ajudar minha mãe em todos os afazeres da
casa. Lavávamos, cozinhávamos e limpávamos a casa. Os meus irmãos ajudavam meu
pai com o trabalho que naquela época falavam que era ‘serviço de homem’. Então
nós mulheres, não tivemos nem mesmo a oportunidade de estudar”, relata.

Com uns 15 anos, Vera Lúcia conta que
conheceu seu marido em uma festa no vilarejo perto de onde morava e menos de um
ano depois eles se casaram e vieram morar em Senador Canedo. Ela diz que no
começo foi tudo muito difícil, pois sem estudo, não conseguia muitas
oportunidades de trabalho na cidade e acabou indo trabalhar como doméstica.
“Era complicado, porque eu precisava de um serviço para ajudar meu esposo.
Ele fazia bicos na construção civil, porque ele tem alguns problemas de saúde e
ninguém o contratava de forma fixa. Foi então que uma família me ofereceu para
cuidar da casa deles e dos três filhos. Eu aceitei, é claro.”

Vera Lúcia passou quase 20 anos
trabalhando para essa única família. Neste período teve um casal de filhos,
perdeu a mãe e ainda ajudava a cuidar do pai que também havia se mudado para
Senador Canedo após a morte da esposa. “Meu pai ainda continuava com a ideia
machista dele. Falava que eu não tinha que trabalhar. Que o Pedro, meu marido,
é que devia colocar o sustento em casa. Mas eu nunca dei moral para isso. E
graças a Deus não ouvi meu pai, porque logo depois, os problemas de saúde se
agravaram e eu tive que manter as contas em dia, além de colocar comida na
mesa”, fala emocionada.

A família para a qual Vera Lúcia
trabalhava se mudou para São Paulo e ela teve que buscar outras oportunidades
de trabalho. Foi quando ela enxergou na prestação de serviços domésticos por
diária, uma vantagem. “Ser diarista é muito cansativo. Porque trabalho de
domingo a domingo. Onde me chamam eu vou, mas ao meu ver, compensa mais, pois
recebo melhor. Mesmo tendo essa vida de correria, eu consegui estudar e
concluir o ensino médio. Meu sonho sempre foi ser professora, mas acho que meu
tempo passou.”

Dona de uma fé invejável, a doméstica
diz que o que ela considera mais importante na vida, é o orgulho próprio,
sobretudo quando se é mulher. “Cada pessoa, principalmente nós mulheres,
devemos nos amar como somos. Valorizar cada conquista e esforço que fazemos e
conseguimos. Nem sempre é fácil. Não podemos nos medir pelos outros. Cada um
tem o seu papel. Hoje, sou feliz com o que faço. Pode não parecer e muitas
vezes passar despercebido, mas nós diaristas, cuidamos de pessoas, de famílias
inteiras. E isso é gratificante.”

De acordo com a PNAD
Contínua Trimestral do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
em 2019, o
Brasil
tinha 6,158 milhões de trabalhadoras(es) domésticas(os), dos quais 92% eram
mulheres. Apenas 42% destas(es) trabalhadoras(es)
contribuem para a previdência social e só 32% possuem carteira de trabalho
assinada.

A grande maioria das(os)
trabalhadoras(es) domésticas(os) são mensalistas. As diaristas, por sua vez,
enfrentam a possibilidade de situações de trabalho mais precárias e tem sua
própria responsabilidade de contribuir para a previdência social. E apenas 4%
da categoria de trabalhadoras domésticas e trabalhadores domésticos é
sindicalizada. 

Por: Carlos Nathan Sampaio
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