Afeganistão: como os atuais eventos afetam as mulheres e o perigo do extremismo

Da última vez que grupo Talibã governou o país, de 1996 a 2001, mulheres não podiam trabalhar, sair de casa sem cobrir o rosto ou desacompanhadas por parentes homens.

Postado em: 22-08-2021 às 17h00
Por: Victoria Lacerda
Da última vez que grupo Talibã governou o país, de 1996 a 2001, mulheres não podiam trabalhar, sair de casa sem cobrir o rosto ou desacompanhadas por parentes homens. | Foto: Reprodução

O Talibã é um grupo terrorista fundamentalista islâmico que violenta e domina vidas, com implicações especialmente tenebrosas para as femininas. Ele surgiu logo após o conflito entre combatentes islâmicos financiados pelos Estados Unidos para lutarem contra as tropas da União Soviética que, desde 1979, estavam no Afeganistão. Apesar do grupo se pronunciar, logo após a recente tomada do governo afegão, que seria moderado em suas ações, o histórico de violência, opressão e imposição da lei islâmica faz com que a comunidade internacional não acredite ou questione as ações do grupo radical. É possível repudiá-lo absolutamente sem ser islamofóbico, entendendo que o Islamismo não é a fonte de opressão das mulheres muçulmanas. No entanto, como em qualquer religião, ele pode ser transformado numa ferramenta de dominação utilizada por grupos fundamentalistas, como no caso do Talibã.

A volta do Talibã ao poder no Afeganistão tem causado muito medo nas mulheres afegãs, devido à diminuição dos direitos conquistados ao longo dos últimos 20 anos. Mulheres são impedidas de trabalhar, sair de casa sem pedir permissão do marido, morar sozinha e devem se vestir com restrição (burca ou similar). Aquelas que quebrarem as regras são humilhadas e espancadas em público pela polícia religiosa, usando uma versão distorcida da Sharia, uma lei islâmica como justificativa para as atrocidades contra as mulheres.  

O professor do curso de Relações Internacionais da PUC Goiás, Danillo Alarcon explicou que durante a primeira vez que o Talibã ficou no poder de 1996 até 2001 eles não tiveram controle total do território do país e é muito difícil que eles consigam isso agora, então todo o cenário está sendo desenhado para essa resistência que provavelmente irá se prolongar. “Isso será considerado uma crise humanitária que possivelmente irá afetar os países vizinhos, com ainda mais refugiados”, afirmou o professor. 

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Casamento forçado e estupro 

O que está em jogo para as mulheres afegãs vai muito além da imposição da roupa, e entender essa questão faz toda a diferença para não reduzir uma situação grave de possível restrição aos direitos humanos básicos apenas em uma visão estereotipada da mulher muçulmana. Em julho, após dominarem duas regiões, o Talibã pediu aos líderes religiosos locais que providenciassem uma lista de meninas acima de 15 anos e viúvas de 45 anos para casarem com guerrilheiros do grupo. O atual líder do grupo é o Mullah Haibatullah Akhunzada, diz que agora será diferente. Não é possível prever como será o novo governo Talibã no Afeganistão e, apesar do grupo extremista estar tentando passar uma imagem de que adotará uma versão mais branda do regime em relação à primeira vez que estiveram no poder, os afegãos e o mundo todo observam com cautela. Antes do grupo surgir, as mulheres eram 70% dos professores do Afeganistão, 50% dos funcionários públicos e estudantes universitários e 15% do poder legislativo. Eram livres e com direito ao voto. Contra o Talibã, as mulheres afegãs precisarão de apoio internacional dos movimentos sociais, instituições e governos preocupados com os direitos humanos.

O professor de história Carlos César Higa explica que as notícias recentes mostram que integrantes do Talibã já estão retomando práticas violentas já conhecidas desde o tempo em que estavam no poder. Alguns integrantes do governo deposto temem pelas próprias vidas e de seus familiares. 

“Ainda não se sabe a respeito do alcance da internet neste novo governo talibã, se o grupo conseguirá controlar o acesso à internet, se as redes sociais serão um meio de denúncia da opressão e da violência praticada pelo grupo. Com a popularidade em queda, é bom estarmos de olho nas próximas ações do presidente Joe Biden”, completou o historiador. 

Atual situação das pessoas LGBTQIA+ 

Entre os países no mundo que mais punem, reprimem e negligenciam a comunidade LGBTQIA+ o Afeganistão é um dos mais violentos por considerar crime qualquer tipo de liberdade sexual ou de gênero, além de proibir o desenvolvimento de ONG’s voltadas para garantia de direito dessa população. A situação terrível no país já era uma realidade mesmo antes dos Talibãs assumirem o poder, tanto que muitos gays que vivem em regiões dominadas por grupos extremistas já eram forçados a reprimir sua sexualidade, sendo comumente alvejados, lançados do alto de prédios ou apedrejados. 

Porém, todo esse contexto pode piorar mais ainda daqui em diante, pois o Talibã pretende decretar expurgo anti-gay no país. 

Preconceito cultural e religioso:  o Talibã não representa o islã

Ainda existe muito preconceito em torno da cultura muçulmana e da religião islâmica e, em situações como a que estamos vendo agora com o Talibã retomando o poder, a desinformação fica mais evidente, associando à violência aos muçulmanos e a opressão a religião, o que prejudica os membros da comunidade ao redor do mundo e contribui para aumentar os casos de xenofobia e intolerância religiosa. 

 

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