Estudos publicados sugerem que derivados da maconha podem ser úteis contra a Covid-19

Postado em: 18-01-2022 às 16h12
Por: Maria Paula Borges
Devido as propriedades medicinais anti-inflamatórias, a ideia do componente ser útil já era discutida, segundo farmacologista | Foto: JEAN-FRANCOIS MONIER / AFP

Dois estudos publicados sugerem que alguns canabinoides, substâncias encontradas na cannabis, podem ser úteis contra a Covid-19, uma vez que tratam e reprimem o desenvolvimento da forma grave da doença. Segundo Fabrício Pamplona, farmacologista de canabinoides e doutor em farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), devido as propriedades medicinais anti-inflamatórias, a ideia do componente ser útil já era discutida.

Entretanto, as pesquisas indicam que os canabinoides podem ser proveitosos tanto no tratamento, quando a inflamação já atinge o paciente, quanto para evitar que a doença evolua para quadros mais severos.

Um dos estudos foi publicado como pré-print na plataforma medRxiv e assinado por pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá. Este analisa o efeito do canabidiol (CBD) nos genes ORF8, que codifica uma proteína viral acessória, e na proteína M, proteína anti-fagocítica e alto fator de virulência, contra o coronavírus.

Ao utilizar células em laboratórios, os cientistas observaram que o CBD impulsionou um processo imunológico, chamado apoptose, que consiste em uma resposta imune à infecção viral que serve para prevenir a replicação do patógeno e inibir a disseminação do vírus. Esse impulsionamento que indicaria a possibilidade de o canabidiol ser utilizado contra a Covid-19 em um momento inicial da infecção.

O artigo ainda deve passar por revisão por pares antes de eventual publicação em periódico acadêmico. Segundo pesquisadores, a descoberta sugere que o canabidiol pode ajudar a limitar uma infecção inicial. “A descoberta sugere que o CBD pode ajudar a limitar uma infecção inicial, promovendo a remoção de células infectadas, limitando assim a disseminação”, afirmam.

Além disso, o estudo comparou a ação do CBD em células que não tinham os marcadores genéticos da Covid-19 e, ao analisarem esse ponto, observaram que o canabidiol não impulsionou o processo imunológico, indicando que a substância incentiva a resposta apenas nas células infectadas.

Os cientistas analisaram ainda se os três marcadores genéticos do coronavírus por si só já estimulariam a apoptose e, caso acontecesse, a ação do CBD não teria um impacto benéfico, uma vez que corpo iria desenvolver sozinho a resposta imune ao ter contato com o vírus. Entretanto, conforme os pesquisadores, isso não aconteceu, as células com marcadores só aceleraram o processo de apoptose quando foi injetado o CBD.

Segundo Pamplona, matar por apoptose somente células infectadas é uma estratégia “muito elegante do ponto de vista de farmacologia contra essa doença”. Ainda assim, ele ressalta que o estudo foi feito em laboratório e que outros testes são necessários para observar se o canabidiol realmente é benéfico ao retardamento de uma infecção mais grave por Covid-19.

O segundo estudo foi publicado na revista científica Journal of Natural Products, realizado por pesquisadores da Universidade do Estado do Oregon, nos Estados Unidos. Para este, Pamplona faz a mesma ressalva.

Na segunda pesquisa, os cientistas observaram que os ácidos canabigerólico (CBGA) e o canabidiólico (CBDA), ambas encontradas na Cannabis, atuaram contra a ligação da proteína Spike do coronavírus com células humanas. Assim, os ácidos poderiam impedir a invasão do vírus em células humanas.

O estudo também foi feito em laboratório e os pesquisadores utilizaram pseudovírus que expressavam a proteína spike do Sars-CoV-2, e então foi notado que os dois ácidos tiveram ação preventiva contra a invasão desses pseudovírus em células humanas.

De acordo com Pamplona, isso não é uma imunidade por si só, uma vez que a imunidade é a capacidade do organismo de combater o vírus, mas que, de certa forma, a descoberta seria uma proteção. “As pessoas se tornam resistentes – mesmo tendo contato com o vírus, ele não entraria nas células. Portanto, não conseguiria infectar nem causar sintomas”, afirma.

Conforme os pesquisadores, essa ação dos ácidos foi vista nas variantes alfa e beta da Covid-19 e, para a Ômicron, não há dados. Além disso, em relação ao estudo, Pamplona afirma que existe um grau impeditivo por ter sido feito com ácidos e explica que os canabinoides podem ser encontrados nas formas neutra e ácida.

Para Pamplona, ambos os estudos sugerem mecanismos preventivos para formas mais graves do coronavírus, mas ainda é cedo para afirmar eficácia no corpo humano. “Ambos os estudos foram feitos em células, e há uma distância grande entre um fenômeno que acontece em célula e um fenômeno no organismo como um todo”, reitera. “Não dá para garantir que mesmo esses efeitos descritos [nos artigos] se realizariam numa infecção normal em um paciente humano”.

*Matéria feita com apoio da Folha de São Paulo

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