Cerca de 200 bebês morreram por falhas médicas durante partos no Reino Unido

O relatório revelou que 201 bebês poderiam ter sobrevivido se o SaTH tivesse fornecido melhores cuidados médicos, relacionados a 70 mortes neonatais e 131 casos de natimortos.

Postado em: 31-03-2022 às 12h36
Por: Alexandre Paes
O relatório revelou que 201 bebês poderiam ter sobrevivido se o SaTH tivesse fornecido melhores cuidados médicos, relacionados a 70 mortes neonatais e 131 casos de natimortos.

Falhas catastróficas em procedimentos do sistema de saúde público britânico (NHS, na sigla em inglês) podem ter levado à morte de mais de 200 bebês e nove mulheres, além de ter causado danos que mudaram a vida de outras dezenas de crianças. O relatório revelou que mortes prematuras de bebês muitas vezes não eram investigadas, além de os pais das crianças não terem sido ouvidos.

A parteira-sênior Donna Ockenden examinou as práticas médicas referente aos serviços de maternidade do Shrewsbury and Telford Hospital NHS Trust (SaTH) ao longo de 20 anos. Os casos ocorreram em Shropshire, no oeste da Inglaterra. Para a pesquisadora, as “falhas no atendimento se repetiram” e algumas mães foram até consideradas culpadas por suas próprias mortes.

O SaTH pediu desculpas às famílias afetadas e descreveu o relatório como “profundamente angustiante”. O órgão afirmou que muitas mudanças destacadas por Ockenden já foram introduzidas. Kayleigh Griffiths, cuja filha Pippa morreu em 2016, disse que as palavras da entidade “não serão suficientes”.

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“Nós paramos de receber relatos de mau atendimento no SaTH, mas não temos certeza de que foram feitas melhorias”, disse ela. O relatório, que examinou quase 1.600 casos, é considerado o maior documento da categoria na história do NHS.

Lesões cerebrais graves

O relatório revelou que 201 bebês poderiam ter sobrevivido se o SaTH tivesse fornecido melhores cuidados médicos, relacionados a 70 mortes neonatais e 131 casos de natimortos. Houve também 29 casos de bebês que sofreram lesões cerebrais graves e 65 incidentes de paralisia cerebral.

Rhiannon Davies, cuja filha Kate morreu em 2009, disse que os números “não contam toda a história” do impacto sofrido pelas famílias. “Agora sabemos que este é um serviço médico que não investigou, não aprendeu e não melhorou”, disse. “Isso resultou em tragédias e incidentes que mudaram a vida de muitas de nossas famílias”, concluiu.

A culpa é das mães

Nas ocasiões em que os casos foram investigados, o SaTH não conseguiu identificar pontos de melhoria e perdeu oportunidades de aprendizado, segundo o relatório. Donna Ockenden acrescentou que a entidade culpava as mães por resultados ruins e até mesmo em alguns casos pela morte de seus próprios bebês.

O inquérito foi encomendado pela primeira vez em 2017, após uma campanha de duas famílias que perderam seus bebês. Kate, filha de Richard Stanton e Rhiannon Davies, morreu horas após o nascimento em março de 2009, enquanto a filha de Kayleigh e Colin Griffiths, Pippa, morreu em 2016, vítima de uma infecção pela bactéria Streptococcus.

Griffiths afirmou que o relatório são “200 páginas de famílias prejudicadas”. “É uma vergonha que eles não tenham aprendido quando lhes dissemos quais eram os problemas”, afirmou, durante uma reunião de pais. “Nós visitamos o túmulo de Pippa nesta manhã e dissemos a ela: ‘isso é o que fizemos por você’.”

O Conselho de Enfermagem e Obstetrícia (NMC) do Reino Unido afirmou que as conclusões do relatório são “terríveis”. “Cada um desses casos é uma tragédia familiar, com alguns afetados mais de uma vez”, disse Andrea Sutcliffe, presidente-executiva do órgão.

O ex-secretário de saúde Jeremy Hunt, que encomendou o relatório após ser abordado por algumas famílias, disse que as descobertas foram “muito piores” do que ele poderia imaginar e esperava que fosse um “despertar”.

Já o atual secretário de Saúde, Sajid Javid, afirmou que as descobertas pintaram um “quadro trágico e angustiante de repetidos fracassos no atendimento”. Dirigindo-se à Câmara dos Comuns, o secretário afirmou que Ockenden havia descrito a ele “supervisões básicas em todos os níveis”.

“Em vez de momentos de alegria e felicidade para essas famílias, sua experiência de maternidade foi de tragédia e angústia”, disse ele. Javid também destacou “problemas sérios” com a cultura profissional das maternidades do SaTH.

Ele disse aos parlamentares que dois terços dos funcionários entrevistados relataram testemunhar casos de bullying, enquanto alguns servidores “retiraram sua cooperação com o relatório semanas após a publicação”.

O relatório de Donna Ockenden pede mais financiamento, treinamento e responsabilidade em todos os serviços de maternidade do Reino Unido, bem como melhores cuidados pós-natais e para famílias enlutadas.

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