Fronteira intercoreana: tapete vermelho para Jong-un

Faltando pouco para o encontro histórico, pode-se ver a movimentação de funcionários, operários e caminhonetes com material de construção em torno da área de segurança conjunta

Postado em: 21-04-2018 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Faltando pouco para o encontro histórico, pode-se ver a movimentação de funcionários, operários e caminhonetes com material de construção em torno da área de segurança conjunta

A fronteira entre as Coreias do Sul e do Norte, uma demarcação caracterizada pela tensão militar, passa nos últimos dias por obras e preparativos para a cúpula do dia 27 entre Moon Jae-in e Kim Jong-un, que se tornará o primeiro líder norte-coreano a pisar no país vizinho. Seul e Pyongyang revelaram até o momento poucos detalhes do protocolo para o encontro, e o pessoal militar presente no local se mostra estrito a respeito do que se pode ver ou retratar.

Faltando pouco para o encontro histórico, pode-se ver a movimentação de funcionários, operários e caminhonetes com material de construção em torno da área de segurança conjunta (JSA, na sigla em inglês), local que abrigará a primeira reunião de líderes das duas Coreias em 11 anos.

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A JSA, 40 quilômetros ao norte de Seul, é o único ponto de fronteira entre ambos os países – tecnicamente ainda em guerra – onde tropas sul-coreanas, dos Estados Unidos e norte-coreanas ficam frente a frente e, embora aceite turistas, todas as visitas foram canceladas durante todo o mês de abril, como confirmou à Agência EFE um dos operadores de turismo local.

Do Peace House – prédio situado na faixa Sul da JSA que abrigará a cúpula –, só se permite observar e fotografar a fachada exterior. Vários funcionários que se supõe serem do escritório da presidência ou do Ministério de Unificação sul-coreano revisam cuidadosamente a varanda do segundo andar, onde vai ocorrer a reunião.

Por sua vez, a maior atividade será na entrada, que está sendo renovada e onde várias pessoas trabalham com afinco usando fitas de medir no que parecem ser os preparativos para colocar um tapete.

Ainda não se sabe exatamente como Kim Jong-un chegará à Peace House (se de carro ou a pé, por exemplo), o que traz muita expectativa, pois tecnicamente será a primeira vez na história que um líder norte-coreano pisará no território do Sul.

As medições para esse suposto tapete feitas pelos funcionários entre o Peace House e o Freedom House, o primeiro imóvel ao qual se chega ao cruzar do Norte para a demarcação militar, fazem pensar que Kim cruzaria a linha a pé e atravessaria caminhando esse primeiro edifício até chegar ao pavilhão onde será a cúpula.

Do mesmo modo, foi refeita e pintada uma ponte que liga a área onde fica o Peace House com o acampamento onde trabalham os oficiais suecos e suíços da comissão de nações neutras que supervisiona o armistício depois da Guerra da Coreia (1950-1953).

Há ainda a possibilidade de que o almoço previsto entre Moon e Kim durante a cúpula ocorra na sala de jantar do acampamento, onde o pessoal serve especialidades da Suíça, país no qual Kim Jong-un passou sua adolescência em um internato.

“A imagem de Kim e Moon cruzando uma ponte tem muita força para os coreanos, que a veriam como uma metáfora sobre dois inimigos que decidem deixar para trás o passado e caminhar juntos para o futuro”, disse à EFE um oficial deste acampamento de nações neutras.

Mas de novo é impossível confirmar se haverá passeio e almoço diante do silêncio de militares e funcionários sul-coreanos.

A maioria dos detalhes da cúpula seguramente será revelada pelas câmeras de televisão no mesmo dia da entrevista, uma vez que as duas Coreias combinaram de transmitir partes da reunião ao vivo.

Por outro lado, os esforços para renovar e enfeitar a JSA à toda velocidade contrastam com a movimentação de militares (maior do que a habitual nestes dias para reforçar a segurança para a reunião), que lembra que este lugar é a ferida ainda aberta de uma guerra que terminou com um armistício e não um tratado de paz.

Esse ambiente pode ser sentido assim que se chega da Coreia do Sul à JSA por intermédio de Camp Bonifas, o acampamento do Comando das Nações Unidas liderado por Washington e Seul que ainda mantém intacto seu lema da Guerra Fria: “In front of them all” (Encarando a todos).

O local deve seu nome a um dos dois oficiais dos EUA assassinados em um grave incidente na JSA com soldados norte-coreanos em 1976 que levou Washington a pôr seu exército em nível de alerta Defcon 3 em preparação a um ataque à Coreia do Norte que finalmente conseguiu ser evitado.

De fato, este incidente obrigou também a dividir em duas a área de segurança conjunta, por onde até então os soldados de um e outro lado podiam circular livremente.

Desde então, tropas de Sul e Norte já não podem atravessar a linha de demarcação militar (MDL), uma simbólica divisão que Kim Jong-un cruzará no dia 27 de abril em um momento que entrará para a história. (Agência EFE Panmunjom/Agência Brasil) 

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