Nova “geração cripto” da América Latina pode parecer mais familiar do que nunca

Postado em: 06-06-2022 às 10h50
Por: Redação
Estima-se que 52% dos países da América Latina agora têm a capacidade de pagar salários pelo menos parcialmente em criptomoedas

Juan Frers

Há tempos que é de conhecimento geral, quase que um clichê, dizer que o mundo cripto é imprevisível. Quem teria pensado, anos atrás, que criptomoedas seriam aceitas como moeda corrente por alguns governos ou que funcionários pediriam para receber seus salários em criptomoedas para se proteger da a inflação e volatilidade das moedas tradicionais? A contar pela decisão recente do Senado brasileiro que reconheceu as criptomoedas como uma forma legal e legítima de negócios, podemos perceber a mudança que estamos vivenciando. Como parte de uma tendência mais ampla, o chamado “pensamento cripto” agora pode ser encontrado em todas as esferas em toda América Latina.

Não me refiro apenas àqueles que fazem transações usando criptomoedas, senão a toda a geração de latino-americanos cujas atitudes e estilo de vida podiam parecer pouco ortodoxas na década passada, mas não são mais assim. Primeiro, essas pessoas são caracterizadas por sua distintiva flexibilidade em relação à vida e ao trabalho. A ideia de um emprego regular e um salário fixo é muito menos atraente do que a liberdade de múltiplas e variadas fontes de renda da economia gig. Hoje, 21% dos latino-americanos se descrevem como freelancers; destes, 50% têm menos de 30 anos; 70% encontram projetos em mercados online e quase 54% usam o Facebook para encontrar trabalho.

Esta tendência de trabalho flexível certamente foi propagada ainda mais pela pandemia e restrições decorrentes. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 23 milhões de pessoas da América Latina e do Caribe trabalharam em home office durante a pandemia; ou seja, entre 20% e 30% de todos os trabalhadores registrados em comparação com apenas 3% antes do confinamento.

O trabalho flexível e temporário tornou-se efetivamente comum na América Latina. E essa tendência provavelmente continuará: de acordo com uma pesquisa da gestora de capital humano ADP, no Brasil, Chile e Argentina, 70% dos funcionários gostariam de ter mais flexibilidade no trabalho.

A segunda tendência é o grau em que a web faz parte das rotinas diárias dos latino-americanos, seja para trabalho, lazer, compras ou relacionamentos, praticamente todas as atividades são complementadas pelo uso da web ou das mídias sociais. De acordo com a pesquisa, 56% dos funcionários latino-americanos acreditam que o uso das mídias sociais, em última análise, ajuda seu desempenho no trabalho, enquanto 64% admitem ser influenciados por estas em suas decisões de compra.

A terceira tendência é a atitude dessas gerações em relação ao compartilhamento e, em particular, à economia compartilhada. De acordo com uma pesquisa da PWC, os latino-americanos estão mais dispostos a compartilhar ativos com os outros do que o restante dos ocidentais; 70% em comparação com 54% para a Europa, e 53% para a América do Norte. E o princípio é igualmente aplicável a ideias e conceitos como bens e serviços. De acordo com a mesma pesquisa, 30% dos entrevistados da região estão abertos a “compartilhar seus conhecimentos e experiências com fins lucrativos”. Isso se compara a uma média global de apenas 26%.

Essas tendências se combinaram para representar um novo nível de independência, colaboração e autossuficiência em toda a região. Criptomoedas representam uma extensão lógica. A “geração cripto” de hoje não é necessariamente particularmente experiente em tecnologia ou politicamente motivada. Eles consideram a criptomoeda um porto seguro, uma alternativa flexível à moeda fiduciária e um investimento cada vez mais sólido para o futuro. Em muitos casos, a negociação de criptomoedas representa um fluxo de receita complementar para eles.

Mais uma vez, a pandemia serviu apenas para exacerbar essa tendência. O uso de ferramentas de e-learning cresceu mais de 60% nesse período, impulsionado pela busca de qualificação e busca de alternativas de renda, em muitos casos, de casa.

Hoje, o impacto da geração de criptomoedas da América Latina é abundante. A Argentina, por exemplo, agora é o país com a maior proporção de funcionários sendo pagos em criptomoedas. Os trabalhadores agora têm o direito legal de receber até 20% de seu salário em criptomoeda como parte de um plano do governo para minimizar os efeitos da volatilidade da moeda e da inflação que, às vezes, chega a 50%. Como resultado direto dessas medidas, as empresas que pagam salários em moeda digital aumentaram 340% nos últimos 12 meses.

Estima-se que 52% dos países da América Latina agora têm a capacidade de pagar salários pelo menos parcialmente em criptomoedas. Desde novembro de 2020, houve um aumento de 10% mês-a-mês entre pessoas que desejam ser pagas em criptomoedas, com Argentina e Brasil tendo os maiores saques salariais de criptomoedas. A tendência também está crescendo significativamente no Chile, outra potência econômica regional. Uma nova pesquisa da Mastercard sugere ainda que 83% dos consumidores latino-americanos estão preparados para usar pelo menos um método de pagamento emergente como criptomoeda, biometria, pagamento sem contato, ou por QR Code.

Estamos muito longe do ilícito ou do obscuro. O surgimento da geração cripto na América Latina tem enormes implicações para o setor. À medida que essas transações se tornam mais comuns, as expectativas em termos de atendimento ao cliente, transparência e conformidade aumentarão drasticamente. Do trabalho flexível à vida online, essas experiências se tornaram a norma (e não a exceção), e os ‘pioneiros’ foram substituídos por ‘consumidores’, assim como suas expectativas. A geração cripto já espera um nível de serviço em cripto equivalente ao esperado do seu banco na rua… ou deveria ser banco online. Isso representa um enorme desafio para o setor, mas também uma oportunidade. As marcas de criptomoedas que possam atender às expectativas da nova geração cripto da América Latina estarão muito melhores posicionadas para o futuro.
Juan Frers é professor da Universidade de Buenos Aires e da Universidade do Chile

Compartilhe: