A realidade sobre o novo normal

Durante a pandemia, muitos falaram sobre o novo normal, como o período de lockdown mexeu com a mente das pessoas tanto na vida pessoal como profissional

Postado em: 24-09-2022 às 10h43
Por: Redação
Recentemente, entretanto, essa história vem mudando | Foto: Reprodução

Guilherme Feldman

No mundo dos negócios, assim como na tecnologia, passamos por uma transformação muito grande. Alguns chamam de novo capitalismo, outros de capitalismo 3.0, mas independente da nomenclatura, é notável a transformação que passamos. Mas qual é a principal transformação?

Durante a pandemia, muitos falaram sobre o novo normal, como o período de lockdown mexeu com a mente das pessoas tanto na vida pessoal como profissional. Muito se fala sobre o trabalho híbrido e sobre flexibilidade, mas será que foi apenas a pandemia que trouxe essa mudança? Talvez ela tenha sido apenas um catalisador de uma transformação que já havia iniciado.

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Décadas atrás vivíamos em um capitalismo completamente diferente. Em 1970, Milton Friedman ficou famoso por seu trabalho que concluía que as empresas foram feitas para dar lucro e ponto final. E foi esse conceito que se dissipou no mundo dos negócios por muitas décadas. As estratégias organizacionais, o norte dos trabalhadores, as aulas de administração, todos centralizavam a ideia de que uma organização existe apenas para maximizar os lucros dos acionistas. Será que essa ideia persiste?

De lá para cá, o mundo mudou consideravelmente. Por um lado, muitas organizações se tornaram extremamente poderosas vivendo esse conceito, muitas vezes mais poderosas do que governos. Por outro, o mundo vive as consequências dos trabalhos inconsequentes de organizações que viveram apenas com o propósito de dar lucro, independente dos impactos. Quando pensamos em pessoas, muitas abriram mão, e ainda abrem, de toda sua vida pessoal, de seus sonhos e de sua liberdade para entregar o maior resultado possível em seu trabalho, levando mais uma vez mais retorno para os acionistas.

Recentemente, entretanto, essa história vem mudando. A sociedade começou a pressionar organizações e alguns movimentos contrários apareceram, o foco começou a mudar, assim como o mindset dos trabalhadores. No meio acadêmico, algumas novas teorias trouxeram à tona o questionamento se as empresas foram feitas apenas para dar lucro. Nonmarket Strategy, Teoria dos Stakeholders, Responsabilidade Social Corporativa são alguns exemplos de conceitos criados no mundo da administração que mostram que a empresa não foi feita apenas para dar lucro, mas que ela tem um papel na sociedade.

Essa transformação é lenta e gradativa, assim como toda grande mudança em nossa sociedade. Atualmente ouvimos diferentes teses vindo de grandes empresas, se no passado o foco era apenas no acionista, hoje vemos empresas que colocam o cliente no centro, enquanto outras colocam a sua equipe. O ponto principal é que de fato o acionista deixa de ter o papel central nas decisões da companhia e outros stakeholders ganham força.

Organizações de todos os tamanhos começaram a perceber que de fato possuem um papel na sociedade muito maior do que apenas maximizar o lucro para seus acionistas. Essa transformação abre espaço para uma nova forma de pensar, uma nova forma de fazer estratégia e uma nova relação entre empresas e profissionais. Um dos temas importantes que surgem é o propósito empresarial, o porquê da existência de uma organização passa a fazer parte do questionamento central da estratégia que norteia suas decisões futuras. Este propósito cria uma importância da empresa linkar sua cultura ao ambiente externo, passando por aquilo que a sociedade demanda.

Aparece também nesse novo cenário o conceito de ESG, selo praticado pela maioria das grandes empresas do mundo e que vem tomando grandes proporções na mídia. A combinação de Environmental (Ambiental), Social (Social) e Governance (Governança) é mais uma resposta do mundo dos negócios a uma pressão imposta pela sociedade. Uma organização passa a ter a obrigação de apresentar e aplicar de maneira clara, estratégias que incluam preocupações ambientais, sociais e de governança.

Muitos questionam se isso é normal em grandes mudanças, se toda essa nova história de novo capitalismo, de propósito, de preocupação com a sociedade e o meio ambiente, ESG, seria apenas uma cortina de fumaça e que no final das contas as empresas seguem pensando no seu lucro. E é normal também em grandes mudanças que alguns embarquem pela obrigação e não pela preocupação genuína. Alguns ainda olham para a responsabilidade social corporativa como uma obrigação importante, pois a longo prazo traz um resultado positivo para a companhia. Ora, se a responsabilidade social, ESG e outros são aplicados buscando um resultado melhor no longo prazo, não seria o mesmo foco do passado?

Independente da intenção de cada organização, um ponto é unânime ou incontroverso: a mudança já está em prática. Alguns aplicam genuinamente com a intenção de pensar em seu papel na sociedade, outros para obter um resultado maior, muitos apenas para não ficar para trás. Não importa o motivo, já é uma realidade que a dinâmica do mundo dos negócios mudou em todos os aspectos. Isso não quer dizer que o lucro não deve existir nas companhias, pelo contrário. O lucro, entretanto, deixa de ser um fator central de propósito para ser um fator central de necessidade, a empresa precisa do lucro para sobreviver. Se não a existência do lucro hoje, mas a promessa de que ele existirá um dia.

E essa é talvez a mudança central, a empresa não foi feita para dar lucro, ela precisa do lucro para sobreviver. É como a saúde para o ser humano, ninguém vive uma vida apenas para ser saudável. Nós buscamos ter saúde para viver uma vida e esta mudança de chave principal acarreta diversas outras. O foco sai do acionista e se divide em muitos stakeholders — clientes, funcionários, parceiros, sociedade. A estratégia sai do foco exclusivo no lucro e no curto prazo e vai para a longevidade e a preocupação com seu propósito e participação na sociedade.

A dinâmica de trabalho muda. O profissional não serve a empresa, mas a empresa serve o profissional e o novo normal que vemos no pós-pandemia não é uma consequência apenas da pandemia. O trabalho flexível, a busca do propósito e a preocupação com a saúde física e mental das pessoas de uma organização são parte de uma grande transformação que acontece há décadas e que acelerou com a pandemia. Com todas as dificuldades trazidas pela crise da covid-19, esta aceleração da transformação pode ser vista como uma consequência positiva apesar dos pesares que vivemos neste período.

Nós atuamos com uma máxima central: o resultado é necessário, mas ele é uma consequência. Há anos que entendemos que o lucro é a nossa saúde, que o resultado é necessário para nossa sobrevivência, mas que ele é uma consequência das ações que fazemos no dia a dia. Nosso propósito é claro e bem definido, assim como nosso papel na sociedade de levar alegria para a vida das pessoas.

Nossa equipe trabalha com flexibilidade, mas não é apenas sobre trabalho híbrido. É uma flexibilidade em três níveis: como, quando e onde. Trabalhe como quiser, quando quiser e onde quiser. Somos adeptos do novo normal e acreditamos no futuro melhor que virá com a participação de cada vez mais empresas e pessoas neste novo movimento. Afinal, o resultado não é só uma questão de lucro da companhia, mas é o resultado positivo para a equipe envolvida, para os parceiros, para os clientes, para a sociedade e para o mundo. Quando esse nível é alcançado, tudo se encaixa. O trabalho passa a ser prazeroso ou, como gostamos de dizer, passa a ser sobre ser feliz no trabalho e não trabalhar para ser feliz.

Guilherme Feldman é diretor executivo de empresa de venda de ingressos on-line

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