Goiás deveria ter mais ações internacionais, diz Tibúrcio

Postado em: 10-09-2021 às 10h10
Por: Marcelo Mariano
Advogado goiano e amigo pessoal de Juan Guaidó também comentou sobre a situação na Venezuela e a política externa brasileira | Foto: Reprodução

O advogado goiano Fernando Tibúrcio, especialista em relações internacionais com foco na América Latina, disse, em entrevista ao jornal O Hoje, que gostaria de ver mais ações do governo estadual na área internacional.

Tibúrcio argumenta que o atual governo pegou a “cama feita” devido aos investimentos realizados desde o final dos anos 1990. Segundo ele, “falta a visão” de encarar especialmente o comércio exterior como um eixo de desenvolvimento.

Para o advogado, que já foi secretário da Casa Civil e teve o então Gabinete de Assuntos Internacionais vinculado à sua pasta, Goiás poderia pensar em propostas “mais inovadoras”.

Ele cita o exemplo de São Paulo, que abriu escritórios de representação em Xangai, na China, Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e Munique, na Alemanha. Em breve, o governo paulista deve abrir outro em Nova York, nos Estados Unidos.

Em alguns casos, como no da China, não há custos, que são bancados pelos próprios chineses. Na avaliação de Tibúrcio, esse tipo de iniciativa seria uma via de mão dupla, já que proporcionaria mais investimento estrangeiro em Goiás e, ao mesmo tempo, abriria as portas para produtos goianos no exterior.

Aliás, estados ou províncias de outros países também têm representações no Brasil, como Québec, do Canadá, com escritório em São Paulo, e Baden-Württemberg, da Alemanha, com escritório em Curitiba.

Venezuela

Tibúrcio é conhecido por sua atuação junto a líderes opositores na América Latina. Quando o ex-senador boliviano Roger Molina fugiu para o Brasil em 2013, ficou hospedado na casa do advogado goiano em Brasília.

Além disso, Tibúrcio é amigo pessoal de Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana, para quem advogou pro bono e mantém conversas frequentes.

A Venezuela, a propósito, terá eleições regionais em novembro. A oposição abriu mão de um boicote e anunciou sua participação na disputa, após negociações com o governo venezuelano realizadas no México e mediadas pela Noruega.

Contudo, Tibúrcio é pouco otimista. “Houve avanço nas reuniões no México, como formas para combater a pandemia de Covid-19”, disse o advogado goiano. “Mas sou um pouco cético. Maduro já se sentou à mesa para negociar em 2017 e não houve mudança.”

Ele afirma que a Venezuela, sem acesso a recursos e impossibilitada de comercializar seus produtos, “está isolada no plano internacional”. Porém, admite que Maduro, hoje, tem mais força do que na época dos grandes protestos de 2017.

Sobre as eleições, Tibúrcio ressalta que a principal preocupação da oposição, segundo Guaidó informou a ele em mensagem poucos dias atrás, é em relação a fraudes.

Política externa

Em Brasília, Tibúrcio é próximo de embaixadores não só de países latinos, mas também de outras regiões. “Os embaixadores com quem converso estão um pouco mais otimistas com a política externa porque o que aconteceu no período do ex-chanceler Ernesto Araújo foi uma quebra da tradição diplomática do Itamaraty.”

Desde que o goiano Carlos França assumiu o comando do Ministério das Relações Exteriores no início de abril de 2021, destaca Tibúrcio, ele “recolocou a política externa brasileira nos trilhos e tem influenciado positivamente o presidente Jair Bolsonaro”, como ficou claro na recente reunião dos Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Esquerda

Costuma-se dizer que a América Latina vive de ciclos políticos. Ora de direita, ora de esquerda, que, recentemente, ganhou força em vários países da região, como Argentina, Bolívia, Chile, Peru e México, enquanto Nicolás Maduro segue de pé na Venezuela.

Tibúrcio avalia que a esquerda pode, de fato, voltar ao poder no Brasil em 2022, mas não por causa do suposto ciclo político latino-americano. “Vejo o Brasil grande demais para ser influenciado pelos movimentos que acontecem nos países vizinhos.”

A razão, explica ele, seria devido a “questões internas, como o colapso das políticas sociais e econômicas do governo Bolsonaro”. Nesse sentido, é possível traçar um paralelo com a Argentina, onde as “falhas” do ex-presidente argentino Mauricio Macri “levaram à insatisfação e vontade de mudança”. (Especial para O Hoje)

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