Com aval de secretário, fantasmas recebem até R$ 5 mil na Câmara de Goiânia

Servidores deveriam cumprir carga horária na Câmara, mas dão expediente em farmácia, mercado e em passeios

Postado em: 21-09-2021 às 08h12
Por: Redação
Servidores deveriam cumprir carga horária na Câmara, mas dão expediente em farmácia, mercado e em passeios | Foto: Reprodução

Por Yago Sales

Com o uniforme vermelho da Drogaria da qual é sócia-proprietária no Balneário Meia Ponte, em Goiânia, a farmacêutica Priscila Antonia de Souza atende em qualquer horário do dia. Orienta sobre bulas e recebe, em dinheiro ou cartão, no caixa do estabelecimento. Nada ali envolve a atividade de assessoria parlamentar, como deveria exercer desde quando foi nomeada, em janeiro, no gabinete 18 do vereador Célio Silva (PTC).

Priscilla, conforme a Folha de Pagamento da Câmara Municipal de Goiânia, recebe o valor bruto de R $4.219 mensais. A farmacêutica foi nomeada pelo atual secretário de Desenvolvimento e Economia Criativa (Sedec), Paulo Henrique da Farmácia (PTC), que deixou a vereança para atender ao convite do prefeito Rogério Cruz (Republicanos) para assumir a pasta, em abril. Priscilla é sócia do marido, Leonardo Vicente da Silva, na drogaria. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o casal doou R$5.600 à campanha de Paulo Henrique da Farmácia. Dos sete servidores flagrados em atividades particulares em horário de expediente, cinco doaram quantias para o atual titular da Sedec.
A reportagem encontrou a farmacêutica na Drogaria por telefone em dias intercalados e fez uma visita, onde comprou máscaras ao custo de R$1,50 cada. Procurada no final da manhã de 8 de setembro, o jornal repetiu três vezes as informações sobre a nomeação e o salário. “Não estou entendendo”, repetiu ela, por telefone, enquanto atendia uma cliente. Quando entendeu o teor da ligação e foi perguntada sobre a nomeação e o valor que recebia na Câmara, ela desligou.

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Ronei Carlos Barbosa cedeu sua casa para a gravação de vídeos e doou R$2.900 à campanha eleitoral de Paulo Henrique da Farmácia. Embora não esteja no quadro societário de um conhecido empório em uma das avenidas principais do Balneário Meia Ponte, Ronei é apontado por funcionários e moradores da região como dono do negócio. De qualquer forma, pode ser encontrado diariamente entre 9h e 18h no estabelecimento. Ali, “seu Ronei”, acompanha a chegada de mercadorias, inspeciona a qualidade da carne e monitora o trabalho dos funcionários.

Desde a nomeação em janeiro, Ronei recebe o salário bruto de R$5.625,65. A reportagem ligou para o telefone do empório para falar com ele. Uma secretária atendeu e encaminhou a ligação. Ronei confirmou a nomeação, mas disse que presta serviços no período da tarde. Perguntado sobre a rotina na Câmara, Ronei informou que leva ao gabinete demandas da população. Como exemplo, ele afirmou que uma faixa pintada nas proximidades do empório onde ele é visto todo dia. Ali, ninguém sabe que o comerciante é comissionado no gabinete. Mas todos sabem da amizade longeva com Paulo Henrique. Confrontado sobre detalhes da rotina no Empório, inclusive que foi flagrado diversas vezes no período vespertino, Ronei disse que iria à Câmara “resolver a situação”.

Assessor de um deputado na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), Matheus Felipe da Rocha Gonçalves foi um dos principais doadores da campanha de Paulo Henrique da Farmácia, conforme declaração no TSE: R$8 mil. Desde março, a mulher dele, a professora Tatiely de Sousa, passou a ocupar uma vaga de assessora parlamentar, ganhando R $2.953,46 para cumprir 40 horas semanais, de segunda a sexta. Além de não ter sido encontrada em visitas feitas no gabinete, a reportagem ouviu dela, em ligação gravada que, durante a semana, trabalha em uma das unidades escolares da Sagrada Família, onde o ensino é privado. Procurada para responder sobre a nomeação em diversas ligações, a professora não atendeu.

Primo de Paulo Henrique orça móveis planejados ao invés de assessorar

Na rotina de Murillo Chagas Rodrigues, a trena é a ferramenta de medição para móveis planejados. Ele foi flagrado pela reportagem e disse estar à disposição em qualquer horário para fazer orçamento, seja ele de um armário de cozinha ou um guarda-roupa. Na Folha de pagamento da Câmara, Murillo aparece com salário bruto de R$4.219. Já ciente da investigação do jornal, que correu por grupos do gabinete, Murillo desligou a ligação duas vezes na cara do repórter. Depois atendeu: “Estou ocupado, trabalhando”. Ele não disse, no entanto, se estava em algum orçamento ou no gabinete da Câmara.

Ao invés de prestar serviço na Câmara, Jessyca Danielly da Silva Franca, esposa de outro assessor do gabinete, Gabriel Costa Lago, pode ser encontrada em casa ou em passeios com as duas filhas. Em um dos flagrantes, Jessyca estava, em horário de expediente, passeando com o cachorro pelo Parque Balneário Meia Ponte, a poucos metros de sua casa. Depois, foi a um mercado, onde comprou, entre outras coisas, alface. Jessyca foi nomeada em janeiro para receber R$4.219. Sem qualquer explicação, foi exonerada três meses depois, em abril. Dois meses após deixar a Folha de Pagamento, Jéssyca voltou, em junho, com o salário menor: R$2.953,46. Jéssyca não foi encontrada para comentar o flagrante.

Talvez para Jéssica não seja tão complicado provar que presta serviços ao gabinete 18. É o marido dela, Gabriel Costa, que, antes do fechamento da Folha, percorre os endereços dos nomeados para pegar a assinatura. Gabriel é um típico faz-tudo do gabinete. O homem confiável.
Advogada de um luxuoso escritório de advocacia no Jardim Goiás, Fernanda Gonçalves Coelho é nomeada no gabinete desde janeiro. Ela recebe R$5.625,64, mas, como os comissionados citados acima, não é vista na Câmara Municipal. Por outro lado, de segunda a sexta recebe clientes no escritório. Por telefone, uma assessora do gabinete 18 disse que “não tem ninguém com este nome entre os servidores”. Procurada, também não foi encontrada para comentar o caso.

Outro caso minimamente estranho é a nomeação da advogada Lidyane Santos Batista. Namorada de Paulo Henrique da Farmácia, não é vista no gabinete segundo fontes que afirmam que ela nem sequer participa de grupos de WhatsApp. Alguns souberam com surpresa da nomeação. Lidyane foi nomeada em janeiro, ao mesmo tempo em que Paulo Henrique assumia o primeiro mandato de vereador, quando passou a receber salário bruto de R$4.219. Grávida, ela foi exonerada em agosto. Lidyane é filha do advogado Dalmir Batista, ex-procurador da Prefeitura de Goiânia, investigado em 2020 pelo Ministério Público por improbidade administrativa e peculato. A reportagem não conseguiu encontrá-la para comentar o caso.

Quem é que manda?

O chefe de gabinete 18, Paulo Victor Gomes Coelho, afirmou, sentado na mesa destinada ao vereador Célio Silva, que todos os servidores prestam serviços. Indagado sobre a atividade de qualquer um, Paulo Victor afirmou que eles repassam demandas dos bairros do gabinete. Ele, no entanto, não quis comentar as rotinas alheias às atividades parlamentares apontadas pela reportagem. “Todo dia eles batem ponto aqui”, afirmou, sem permitir acesso à Folha. Sobre o trabalho de cada um dos citados, não soube especificar qual a função. Ainda segundo ele, o secretário Paulo Henrique da Farmácia não exerce nenhuma influência no gabinete. A versão dele, no entanto, foi desmentida pelo próprio titular da Sedec.

No dia 8, a reportagem conversou, por telefone, com o vereador licenciado e secretário Paulo Henrique da Farmácia. “Todo mundo está lá e trabalha pra mim”, disse. A reportagem quis saber se os nomeados citados no texto trabalham para o secretário ou para o gabinete, atualmente do vereador Célio Silva, e ele respondeu: “é a mesma coisa. Trabalha pro gabinete, o gabinete 18”. A respeito dos doadores de campanha, ele retrucou: “Cabe provar. Eles trabalham lá, fazem um período, não tem nenhum motivo de funcionário fantasma. Cabe a quem está denunciando provar”. Sobre a namorada Lidyane Santos Batista, Paulo Henrique ironizou: “Você vai ficar arrumando namorada para mim?” Sem responder a outras dúvidas do jornal, o secretário disse, antes de desligar a ligação: “Arruma mais coisas aí. Quem tem que provar tudo o que está falando é você. Eu não tenho nada para falar”. A reportagem não conseguiu falar com o vereador Célio Silva. A Mesa Diretora da Câmara Municipal de Goiânia não quis se pronunciar, mas deve analisar o conteúdo do jornal.

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