Trinta anos após fim da União Soviética, esquerda tem que ser mais verde e menos vermelha

Postado em: 25-12-2021 às 09h15
Por: Marcelo Mariano
Há setores da direita que também estão presos na mentalidade da Guerra Fria. | Foto: Reprodução/Internet

Em 26 de dezembro de 1991, chegava ao fim, oficialmente, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), fundada em 1922 depois da vitória dos bolcheviques na guerra civil russa, que teve início a partir da Revolução de 1917.

A polarização entre Estados Unidos e União Soviética, as duas maiores potências do pós-Segunda Guerra Mundial, definiu boa parte do século 20. Praticamente todo o mundo se dividiu em dois lados, com exceção de algumas dezenas de países não alinhados.

Imediatamente após o colapso da URSS e o fim da Guerra Fria, o mundo passou de uma dinâmica bipolar para unipolar, com hegemonia dos EUA. Agora, trinta anos depois, o contexto internacional é cada vez mais multipolar.

No entanto, ainda há inúmeros setores da esquerda e da direita que insistem em ficar presos ao passado, como se o muro de Berlim, que caiu dois anos antes da URSS, ainda estivesse de pé.

Por exemplo, não é difícil encontrar publicações, embora sejam minoritárias, de quem queira acabar com o capitalismo para implementar o socialismo e, então, chegar ao comunismo.

O capitalismo, de fato, tem seus defeitos. A desigualdade em excesso gera miséria, o que exclui milhões de pessoas da sociedade e do mercado consumidor. E há, sem dúvidas, casos de exploração, com condições de trabalho análogas à escravidão.

A indignação com essas questões, que devem ser enfrentadas, é legítima. Contudo, não faz sentido querer substituir o sistema capitalista por um outro que, sim, já foi testado, fracassou e passa longe da democracia.

O foco tem que estar no futuro e não no passado. A esquerda, em resumo, precisa ser menos vermelha e mais verde, pois, sem a preservação do meio ambiente, fica difícil vislumbrar o mundo daqui para frente.

E é desanimador ver que, nos discursos dos principais líderes brasileiros considerados progressistas, o assunto não é muito frequente, enquanto eleger políticos com pautas ambientais já é realidade em outros países.

No campo da direita, por sua vez, muita gente, com mentalidade dos tempos de Guerra Fria, vive rodeada pelo fantasma do comunismo, como se essa ideologia estivesse próxima da dominação global.

Tido como um dos mais relevantes teóricos soviéticos, Leon Trótski, que era menchevique e só virou bolchevique em 1917, talvez seja o nome que mais tenha pensado o comunismo com um viés internacional e não só local.

Às vésperas de 2022, porém, não existe um movimento sequer parecido. Partidos de orientação comunista estão no poder em países com pouca ou nenhuma relevância a ponto de influenciar a política internacional, como Cuba, Coreia do Norte e Laos.

A única exceção é a China, que, na prática, não tem nada de comunista em seu modelo econômico. Com quatro milênios de história, a civilização chinesa, mais ligada ao confucionismo, convive com o comunismo, criado no Ocidente, há menos de cem anos.

Pragmáticos e pacientes, os chineses não colocam o comunismo em sua lista de exportações. Definitivamente, esse não é o negócio da China, que era a maior potência econômica do mundo, posto que agora quer recuperar, até as guerras do ópio, em meados do século 19, ou seja, antes da dominação ocidental.

Com a atual polarização política, vale lembrar que, na Segunda Guerra Mundial, quando a ideologia ainda não era a prioridade, Estados Unidos e União Soviética adotaram o pragmatismo e se aliaram contra a Alemanha nazista de Adolf Hitler.

Em outras palavras, é possível haver diálogo entre aqueles que pensam diferente, nem que para isso seja necessária uma situação extrema, como a guerra contra o nazismo. No século 21, das temperaturas extremas, o combate às mudanças climáticas, na verdade, não pode ser algo exclusivo da esquerda, mas também da direita e de toda a humanidade. (Especial para O Hoje)

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