Brasil perde o grande fotógrafo Dida Sampaio

Dida Sampaio, aos 53 anos, deixou o fotojornalismo mais pobre sem seu olhar atento para os poderes

Postado em: 26-02-2022 às 11h15
Por: Yago Sales
Dida Sampaio, aos 53 anos, deixou o fotojornalismo mais pobre sem seu olhar atento para os poderes | Foto: Reprodução

Era sexta-feira, dia 20 de outubro de 2017. Corria pelo mundo a notícia dos tiros que um aluno, de 14 anos, havia disparado em uma sala de aula no Colégio Goyazes, em Goiânia. “Corre lá”, deve ter ouvido Dida Sampaio. Ou ele deve ter sugerido. De qualquer forma, horas depois da tragédia, o grande fotógrafo do Estadão chegaria com sua instrumentália, pronto para registrar a dor inconsolável de alunos, professores e da família dos meninos mortos. Dida Sampaio morreu na sexta-feira (25), aos 53 anos, depois de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Quando olhei para Dida naquela sexta-feira ensolarada, quente, em frente àquela escola devastada pela violência, eu o reconheci imediatamente. Eu era uma foca na profissão – jornalista recém-formado – e fiquei à espreita, como se aprendesse com cada vez que ele mirava para o cenário de dor e registrava, para sempre, a história diante dos olhos dele.

Anos antes e anos depois, continuaria acompanhando o trabalho do grande repórter fotográfico. Admirava quando abria o Estadão e via as fotos dele porque sabia que ali estava o registro, além de profissional, do homem que acompanhava, desde 1980, a política com os olhos de quem escapa do comum.

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Traduzia com a luz o cotidiano da Praça dos Três Poderes como quem desenha e/ou escreve a história de um Brasil a poucos passos do colapso. Fora de Brasília, ao lado do repórter Leonencio Nossa, ajudou a contar a história de gente brasileira pouco ou nunca ouvida – e registrada.Denunciava, por meio da câmera, as mazelas, violências e silenciamentos. 

Com a câmera pendurada de lado, aprendeu a utilizar drones. Produziu vídeos e documentários atrelados com a missão que o levou ao fotojornalismo ainda muito jovem: registar, mesmo sob risco, tudo o que visse. Era o comprometimento aguerrido de um repórter atrás não pelo cumprimento de pautas, mas do dever fundamental: informar.

Com seu olhar e dedicação para a reportagem, conquistou prêmios. Não quais prêmios. Além do Esso – tipo um Oscar do jornalismo -, Vladimir Herzog Direitos Humanos de Jornalismo e SIP, entregue pela Sociedad Interamericana de Prensa. Era um craque. O maior fotojornalista de uma geração acostumada aos prints. sem dúvidas, Dida vai deixar um vácuo na cobertura do Planalto Central. Da cobertura de um Brasil vasto, agora, sem o seu grande fotógrafo.

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