Bolsonaro diz não saber se filho alvo do MPF por tráfico de influência e lavagem de dinheiro está certo ou errado

Postado em: 13-04-2022 às 22h14
Por: Augusto Diniz
Presidente da República afirma que não tem contato com Jair Renan (direita) e que há muito tempo está longe dele | Foto: Reprodução/Twitter

“O moleque tem 24 anos agora, acho que ninguém [aqui] conhece ele. Vive com a mãe. Há muito tempo está longe de mim, mas recebo ele de vez em quando aqui. Tem a vida dele. Não sei se está certo ou se está errado, mas peço a Deus que o proteja.” Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro (PL) tratou nesta quarta-feira (13/4) o filho 04, Jair Renan, que é investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) por tráfico de influência e lavagem de dinheiro. O MPF apura a suspeita de que Jair Renan tenha usado o Palácio do Planalto para beneficiar empresas de amigos em contratos com a gestão do pai.

Filho do segundo casamento de Bolsonaro, Jair Renan é investigado desde março. O filho mais novo entre os homens na família do presidente da República foi ouvido pela Polícia Federal na semana passada. A declaração de Jair Bolsonaro sobre o 04 foi dada durante café da manhã no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência em Brasília, com pastores da Assembleia de Deus.

Bolsonaro reclamava aos líderes religiosos sobre a perseguição que sua família supostamente tem sofrido, no entendimento do presidente, e citou a avó da primeira-dama Michelle Bolsonaro, que foi presa por tráfico de drogas. O chefe do Executivo nacional disse que só soube da detenção pela imprensa.

Aliados da família relatam que a relação entre Jair Bolsonaro e Jair Renan seria marcada por complicações. Mesmo ao se defender quando afirmou que não seria próximo do filho, o presidente tentou diminuir a importância da investigação do MPF. Para Bolsonaro, o problema seria menor porque o pedido de apuração do caso teria partido de denúncia de deputados federais de oposição ao seu governo.

Desabafo

Durante o café da manhã, Bolsonaro chegou a desabafar: “A gente apanha o tempo todo”. Segundo o presidente, pegaram “uma ida dele [Jair Renan] ao ministério” para criar caro. “Daí tinha um grupo lá de pessoas tentando vender – vender é o jeito de falar – projeto de novos tipos de carros populares. E daí foi suficiente para falar em tráfico de influência”, reclamou Bolsonaro.

No mesmo dia, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, negou acesso a dados de entrada e saída dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura no Palácio do Planalto. O jornal O Globo, que solicitou as informações por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), recebeu a resposta do governo Bolsonaro de que as informações são sigilosas. Os dois líderes religiosos são investigados por suposta cobrança de propina no Ministério da Educação (MEC) para liberação de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) a prefeitos com o aval de Bolsonaro.

A doação de um carro elétrico a um projeto da Bolsonaro Jr. Eventos e Mídia, negócio de Jair Renan, por empresas do Espírito Santo motivou o início da investigação da Polícia Federal. O veículo está avaliado em R$ 90 mil.

Camarote 311

Em parceria com a MOB, projeto que está no nome do ex-personal trainer de Jair Renan, Allan Lucena, a Bolsonaro Jr. Eventos e Mídia inaugurou um empreendimento chamado Camarote 311 no Estádio Mané Garrincha, na capital federal. O carro é uma doação dos grupos WK, que pertencem a Wellington Leite, Gramazini Granitos e Mármores Thomazini. As logomarcas de todas as empresas apareceram estampadas na decoração de entrada do escritório de Jair Renan, além de outras firmas que apoiaram o negócio.

Representantes da Gramazini Granitos conseguiram ser recebidos em 13 de novembro de 2020 pelo então ministro do Desenvolvimento Regional (MDR), Rogério Marinho. A reunião foi agendada por Joel Fonseca, assessor especial da Presidência da República. Na oportunidade, a empresa apresentou um projeto de construção de casas populares em parceria com os grupos WK. Jair Renan estava presente na audiência.

Cobertura de contratada da União

A cobertura fotográfica e de vídeos da inauguração do projeto da Bolsonaro Jr. foi feita de forma gratuita por uma produtora de conteúdo digital e comunicação corporativa, a Astronautas Filmes, que é contratada para prestar serviços ao governo Bolsonaro. O contrato com a União em 2020 era de R$ 1,4 milhão.

Além das informações reveladas pela Folha de S.Paulo, a revista Veja foi quem noticiou a abertura da empresa de Jair Renan, que teria solicitado ao gabinete da Presidência da República audiência para discutir interesses comerciais de um dos patrocinadores do Espírito Santo. Antes de prestar depoimento por cinco horas à Polícia Federal, o filho 04 de Bolsonaro deu entrevista ao canal de TV SBT, onde negou as acusações e disse ter ficado revoltado.

“Revoltado”

​”Eu me sinto revoltado com tudo isso que tá acontecendo. Nunca recebi nenhum cargo, nenhum dinheiro, nunca fiz lavagem de dinheiro, e estão tentando me incriminar numa coisa que não fiz”, declarou Jair Renan na entrevista. Sobre supostamente ter levado empresários a MDR, o advogado Frederick Wassef afirmou que o cliente, que não teria ligação com a reunião, “entrou mudo e saiu calado”. “Se eventuais pessoas desejaram ou quiseram usar o seu nome e falam coisas que não existem, não cabe a nós fazer nada”, disse.

Michelle e Damares

A primeira-dama Michelle Bolsonaro e a ex-ministra Damares Alves estavam presentes no café da manhã com pastores da Assembleia de Deus, evento que ocorreu sem registro na agenda oficial de compromissos do presidente.

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