Brasil registra mais de 200 casos de violência política em 2022

Cientista político, Guilherme Carvalho aponta que é necessário haver uma união de poderes para mitigar esses atos de violência

Postado em: 12-07-2022 às 08h17
Por: Thauany Melo
Tesoureiro do Partido dos Trabalhadores e guarda municipal, Marcelo Aloizio Arruda | Ilustração: Cristiano Siqueira

O tesoureiro do Partido dos Trabalhadores e guarda municipal, Marcelo Aloizio Arruda, comemorava seu aniversário em Foz do Iguaçu, no Paraná, quando, sob os gritos “Aqui é Bolsonaro”, foi morto a tiros por Jorge José da Rocha Guaranho, policial penal que se apresenta nas redes sociais como conservador, cristão, contrário ao aborto e favorável ao uso de armas como método de defesa. 

Anteriormente, em 2018, a vereadora Marielle Franco (Psol) e seu motorista Anderson Gomes foram mortos a tiros. Após o crime, o procurador-geral do Rio de Janeiro, Eduardo Gussem, afirmou à imprensa que “sem dúvida alguma, foi um crime político para calar uma das maiores, se não a maior, representante de direitos humanos do nosso país”.

Sem estar eximido da onda de ódio que se instalou no país nos últimos anos, Goiás apresentou casos emblemáticos de violência política. No Mapa da Violência Política Eleitoral consta a agressão ao prefeito João do Léo, na época filiado ao antigo DEM. O ataque ocorreu quando acontecia o encerramento das Cavalhadas de Pirenópolis. O agressor foi um cidadão “mascarado” montado em um cavalo, que acabou, também, atropelando e também ferindo pessoas que estavam no local.

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Em 2020, o então candidato a vereador por Goiânia, Fabrício Rosa (PSOL) denunciou que foi atacado pela equipe do candidato Edson Automóveis (PR). Conforme o relato, ao ver que o carro de som fazia propaganda irregular, o candidato decidiu filmar. Quando o motorista do carro percebeu a gravação, jogou o veículo sobre o carro de Fabrício Rosa e, em seguida, iniciou uma perseguição. Conforme Fabrício, um integrante da equipe dele, que estava no carro, ficou ferido. Além disso, ele disse ter recebido ameaças por parte do motorista e tido o carro amassado na porta do passageiro e na frente.

No primeiro semestre de 2022, o Brasil registrou 214 casos de violência contra lideranças políticas, conforme dados do Observatório da Violência Política e Eleitoral da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). As informações foram divulgadas na segunda-feira (11).

Entre janeiro e março, o principal tipo de violência registrado foi a ameaça, com 52 casos (46% dos registros). Os homicídios aparecem em sequência, com 21 casos (18,6%). Foram registrados ainda 18 atentados (15,9%), 15 agressões (13,3%), seis homicídios de familiares (5,3%) e um atentado contra familiar de liderança política (0,9%).

Já entre abril e junho, o tipo de violência mais frequente também foi ameaça, com 37 casos (36,6%), seguida de agressão, com 27 casos (26,7%), e homicídios, com 19 casos (18,8%). Houve ainda nove atentados (8,9% do total de ocorrências), cinco homicídios de familiares (5%), dois sequestros (2%) e dois sequestros de familiares (2%).

Especialista em Políticas Públicas e Mestre em Ciência Política, Guilherme Carvalho aponta que é necessaŕio ter uma união de poderes para mitigar esses atos de violência, que podem se intensificar à medida que as eleições se aproximam. “Tudo vai depender de como as instituições do Estado vão se comportar. Se não houver uma campanha em união entre as instituições do Estado, como Ministério Público, Justiça Federal, justiças estaduais, a Justiça eleitoral, partidos políticos, formadores de opinião e a imprensa, na defesa da prática da política como solução das controvérsias, da alternância de poder e da aceitação da vitória do seu adversário e da sua própria derrota, penso que daqui até as eleições podemos continuar assistindo esse tipo de ato, que já está se tornando rotineiro”, apontou.

Carvalho aponta os comportamentos que surgiram após a facada desferida contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2018. “Essa violência advém de alguns buracos negros que existem na esfera pública. Na facada que o Bolsonaro sofreu, a imprensa recebeu poucas informações da Justiça  a respeito de quem esfaqueou ele. Isso criou uma zona cinzenta fértil para surgir teorias da conspiração. Pessoas com tendências violentas tendem a se aproveitar disso para dizer ‘o nosso lado foi agredido’ e então justificam uma ação violenta contrária. Como o caso não ficou claro para todos, deu-se tempo para surgir essas teorias da conspiração. Então esse grupo de pessoas que habitam nessa zona escura se adaptaram muito bem a desenvolver discursos de ódio, porque são pessoas violentas e não sabem dialogar em outros termos”, destacou.

Preso por esfaquear o presidente Jair Bolsonaro em 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG), Adélio Bispo de Oliveira foi diagnosticado com  surto psicótico ou psicomotor. Não foi apontado discurso ou motivação política para tal ato.

O cientista político  Lehninger Mota ressalta que os ânimos vêm se agravando na política do Brasil desde 2014, quando se teve um cenário de polarização. Segundo o especialista, a política excedeu os campos das ideias e projetos. “Os ânimos vêm se acirrando na política desde quando Dilma e Aécio Neves disputaram uma eleição bastante parelha, mas nada comparado com o atual momento em que estamos vivendo”, ponderou. “Temos pela primeira vez na história eleitoral brasileira um candidato que já foi presidente disputando com o atual mandatário, mas não é só por esse motivo que a disputa eleitoral está transbordando para o campo da violência”, completou.

Para Mota, os espectros ideológicos partiram para a desumanização. “Há um claro objetivo de desumanizar a escolha dos indivíduos que pensam diferente. Precisamos de uma ação definitiva de todos os candidatos a presidente para que a disputa eleitoral volte para o campo das ideias e dos projetos, não podemos deixar nossa democracia morrer”, afirmou.

“Adversário não é inimigo”

A jornalista Laurenice Noleto, conhecida como Nonô Noleto, vivenciou de perto a truculência instituída durante o regime militar instaurado em 1964 e encerrado em 1985. “Fui casada com Vilmar Antonio Alves, jornalista, que foi preso pela ditadura militar e torturado. Ele tinha apenas 21 anos. Um dos seus companheiros que foi preso pela ditadura no quartel do exército de Goiânia foi morto sob tortura. Goiás não passou imune”, contou. Para ela, a crescente da violência no âmbito político remete à memória desse período político no Brasil. “Há muitas semelhanças hoje com a época da ditadura porque vivemos um grande retrocesso político, um grande retrocesso na democracia. As ameaças que fazem hoje e que já começaram a executar matando nossas lideranças, tanto nas cidades quanto nos sindicatos, nas aldeias indígenas, no campo, também ocorreram na época da ditadura”, relembrou. “Quando se prega pegar em armas, quando se prega o ódio, já estamos vivendo um retrocesso e preparando um golpe”, afirmou.

Filiada ao Partido dos Trabalhadores, do qual o tesoureiro morto fazia parte, Nonô Noleto pontua que o sentimento instalado não é de medo, mas de indignação. “Eu não tive medo e não tenho medo hoje. Eu tenho horror, asco a esse tipo de política. Isso não é política, isso é um retrocesso tão grande que é inominável. Não conseguimos sequer colocar nome em um tipo de movimento que faz política pelo ódio e pela morte, que mata seu adversário como se fosse seu inimigo. Adversário não é inimigo, tem que ser respeitado. Os adversários se respeitam. Inimigos estão em guerra. E não vamos deixar levarem o Brasil para uma guerra civil”, defendeu.

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