“Bandido não vai dominar área em Goiás como no Rio”

Dono de um currículo respeitável na cena política de Goiás, Irapuan Costa Júnior deixou a comodidade da aposentadoria para, aos 80 anos, comandar uma das secretariais do estado

Postado em: 25-04-2018 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Dono de um currículo respeitável na cena política de Goiás, Irapuan Costa Júnior deixou a comodidade da aposentadoria para, aos 80 anos, comandar uma das secretariais do estado

Em relação ao Mais Segurança, efetivamente o que está mudando no sistema de Segurança Pública aqui em Goiás?

Estão sendo atacados pelo governo de José Eliton os pontos mais sensíveis das várias áreas e na segurança não é diferente. Se você consultar a sua memória, os órgãos de imprensa, você vai ver que nos terminais havia uma insegurança muito grande, havia gangue de jovens assaltando, muitos à mão armada. Vários crimes violentos foram cometidos; muitas senhoras eram molestadas; ninguém podia andar com o celular, porque o aparelho era roubado e furtado. Havia um clamor muito grande, eu sentia isso quando fui convidado para a Segurança Pública. Então esse foi um dos pontos que foi primeiramente atacado e está dando resultado, que foi o de criar um batalhão do terminal, da Polícia Militar, que está 24 horas por dia ali.

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O que não é nem responsabilidade da SSP, nem do governo do estado, de organizar filas.

Mas a Polícia Militar treinou os funcionários das empresas para que pudessem fazer isso ordenadamente. Então esse ponto já foi atacado. Ainda essa semana nós vamos vir com outra medida também interessante, embora menos impactante, mas não menos importante, que é o fornecimento online de documentos, como carteira de identidade e certidão de antecedentes. 

Como fazer essa gestão de servidores sabendo que os focos são, principalmente, as grandes cidades, destacadamente a região metropolitana de Goiânia e agora a região metropolitana do Distrito Federal. Como gerir os servidores também nas cidades pequenas do interior, os moradores também estão amedrontados?

A gente tem que utilizar os recursos onde eles são mais efetivos, onde eles têm melhor resultado. E hoje em Goiás, se você pegar 10% dos municípios, eles têm 90% [dos problemas]. Então a gente ataca justamente essas áreas que você mencionou, que são Goiânia, Aparecida de Goiânia, Anápolis, Senador Canedo; a região metropolitana do Distrito Federal e mais algumas regiões. Mas isso não significa que a gente vai deixar o restante desassistido. Por exemplo, o governador vai anunciar um programa chamado Pró-Rural, que é baseado no Pró-Carga que já existe, que é um programa integrado do roubo de cargas, que nós integramos as Polícias Civil, Militar, a Rodoviária Federal e a Polícia Federal. Esse programa, que já está em funcionamento há um ano, fez cair o roubo de cargas em Goiás pela metade. O Pró-Rural vai ter essa filosofia, de atacar o roubo de gado, roubo de fertilizantes, roubo de máquinas agrícolas.

Com presença física, com investigação, como que funcionará?

Com investigação, com inteligência nas fronteiras. Nas fronteiras nós já temos um batalhão que atua muito bem. Hoje, por exemplo, aquele novo cangaço que nos assolou aqui dependia muito do pessoal de fronteiras, porque esses ladrões atravessavam uma fronteira, pegavam um município fronteiriço, explodiam os caixas eletrônicos e voltavam para o estado. Então, como se combate isso? Com a polícia de fronteira e com inteligência integrada.   

Qual pode ser o impacto na eleição desse programa Mais Segurança? A gente está em ano eleitoral e alguns eleitores observam que só em ano eleitoral que as soluções aparecem.

Ele é um programa que veio para ficar. Um programa como esse, que eu mencionei, o Pró-Rural, ele é tão permanente como o Pró-Carga já é um programa permanente, um programa do Marconi, de quando o José Eliton estava na Secretaria de Segurança Pública. 

Qual é a situação hoje para quem entra na Polícia Militar? Muito se falou que o salário é baixo e o trabalho é precário?

Antes de responder especificamente a sua pergunta, eu diria que o nível salarial da Polícia Militar hoje é um dos bons níveis salariais em todo o Brasil. Houve um contingente novo que entrou agora, principalmente na Polícia Civil, foi alvo de crítica porque recebia R$ 1,5 mil por mês, um salário bastante baixo. Isso está muito claro no edital e está combinado com o sindicato, mas o cidadão se entusiasmava, mas quando começava a trabalhar, sentia essa dificuldade. O governo foi muito permeável a isso e deu imediatamente mais um auxílio, de R$ 500,00, que passou para R$ 2 mil.

Quando foi decretada a Intervenção Federal no Rio de Janeiro na Área de Segurança Pública, os estados vizinhos ficaram em alerta. A gente percebe que a incidência da criminalidade do Rio de Janeiro continua. Como o senhor entende a necessidade dessa Intervenção?

Eu diria que foi mais ou menos inócuo, porque se chamou o Exército e foi lhe dado a missão, mas não os meios. O Exército chegou ali pronto para fazer uma ação de muito impacto e não teve apoio. Não teve apoio da Polícia Militar, do Judiciário, do Ministério Público e não teve apoio do governo estadual. Acho que se lançou o Exército em uma situação difícil, acho que nossas Forças Armadas, respeitadíssimas, não merecem uma coisa dessas. Ou se dá a missão e se dá os meios, ou não se dá a missão.

Qual seria a saída para a questão do Rio de Janeiro?

Morei no Rio de Janeiro e hoje nem faço questão de ir para lá, porque a política carioca e a política nacional deterioraram o Rio de todas as maneiras possíveis. O Rio de Janeiro só vai se consertar daqui a 20 anos, se houver assim atenção muito grande do governo federal e dos governos estaduais. As favelas, quando eu morava no Rio eram sete, e hoje são 700 favelas. 

Há que se considerar que as facções criminosas potencializam a violência no Rio.

Teria que ser feito algo muito planejado. Nós precisamos e não vemos chefe de Executivo, do Judiciário, do Legislativo moverem uma palha.  A gente precisaria de uma modificação completa do Código Penal, que todo o sistema penitenciário fosse revisto e, antes de mais nada, de um planejamento como se fazia, por exemplo, com energia elétrica. Fazia-se um planejamento de cinco anos, outro de dez e outro de vinte, e todas as verbas eram alocadas à medida que a demanda fosse aumentando também. Nós teríamos que fazer isso hoje com o sistema penal, sistema policial e com urbanismo.

Em Goiás, o que pode ser feito?

Em Goiás, o que a gente pode fazer é não deixar que a cidade se ‘favelize’. Há um planejamento, hoje, e um programa muito bem feito pela Segov (Secretaria de Governo), que foi entregue para o prefeito. Se seguir aquilo, nos nunca teremos a favelização de Goiânia. Acho que o trabalho policial deve ter continuidade. Em Goiás, primeiro que praticamente não temos morte de policiais. A polícia aqui está bem amparada e entra em qualquer lugar. Ai do bandido que disser que domina a área tal e que a polícia não entra. Faço questão de levar imediatamente a polícia militar lá e mostrar que aquilo não é uma favela. Então se nós continuarmos a utilizar os métodos modernos de investigação, continuarmos a prestigiar a Polícia Militar e aumentar o seu efetivo, nós aqui não vamos ter os problemas do Rio.

Como está em Goiás a gestão dos presos? Os conflitos como aconteceram nos presídios no início deste ano estão mais amenizados?

O ex-governador Marconi e o governador José Eliton foram muitos felizes, porque eles criaram uma agência prisional, uma diretoria, e colocaram um militar competente experiente e competente à frente, além de construir presídios. Imediatamente, aquela situação que ocorreu, hoje não existe. Isso porque os prisioneiros de facção foram separados e estão em vigilância nos presídios que foram construídos, e estão sob vigilância da Segurança Pública. A gente está monitorando tudo isso aí para que não haja os problemas que estão persistindo em outros estados.

As viaturas da polícia estavam sem combustível nessa semana? A Secretaria está com dificuldades para pagar essas despesas de custeio?

Não houve. O problema foi uma cobrança, de que estava atrasando e imediatamente a empresa recebeu. Não houve falta de viatura nenhuma, todas elas continuaram rodando e funcionando. Não houve isso. Eu digo sempre que o problema de administração pública no Brasil é duplo, que é correr atrás do dinheiro e de enfrentar a burocracia. Mas o governador José Eliton está com muita atenção para a Segurança. Não digo que tem dinheiro sobrando, porque isso não tem nem na nossa casa, mas o dinheiro está sendo bem administrado. 

“Eliton é um político sério e precisamos de pessoas assim” 

Ao avaliar o cenário pré-eleitoral em Goiás, o secretário de Segurança Pública de Goiás, Irapuan Costa Júnior, destaca qualidades nos três nomes mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto, mas diz não ver ninguém melhor do que o governador José Eliton para dar continuidade a isso que está acontecendo hoje no Estado. Como ex-governador na década de 1970, o secretário sustenta que não há espaço para a instalação de novo regime militar no Brasil, mas, mantendo suas convicções, afirma que não classifica de ditatura militar o regime que vigou de 1964 a 1985. Por fim, Irapuan salienta que a sua melhor contribuição na campanha eleitoral é se dedicar integralmente ao trabalho na segurança pública do Estado. 

O senhor tem um currículo notável. Passou pela presidência da Celg, ex-prefeito de Anápolis, ex-governador, ex-deputado federal, ex-senador e conselheiro aposentado do Tribunal de Contas. Por que aceitou comandar a pasta da Segurança Pública de Goiás?

Eu diria que o currículo é aquele velho ditado, que a gente deve temer o diabo, não porque ele é diabo, mas porque é velho, não é? Eu tenho uma experiência grande, mas é porque tenho 80 anos e passei por muitos cargos. Recebi essa convocação do ex-governador Marconi e do governador José Eliton e tenho um apreço muito grande pelos dois. Eu vejo que Marconi modernizou o estado de Goiás e a polícia – que é onde estou. Vejo que é o melhor exemplo. Vejo que o governador José Eliton é um político sério e estamos precisando de políticos sérios no comando administrativo do país, nos estados e no governo federal. Quando eles fizeram essa conclamação, eu estava até de viagem marcada para Portugal, tinha combinado com a minha mulher para a gente passar uma temporada todo ano naquele país, já que nós temos uma filha no Canadá e outra nos Estados Unidos. Quando eu estava pronto para desfrutar de tudo isso, recebi esse convite. Mas senti no meu íntimo que não podia recusar. Acho que todos nós temos uma responsabilidade e como sempre me voltei para a Segurança Pública, pensei que se não desse uma contribuiçãozinha, amanhã ou depois eu iria ficar com a consciência pesada.

É uma área muito espinhosa, a sensação de enxugar gelo.

Muito. Mas alguém tem que encarar.

Em Goiás, como o senhor avalia os nomes colocados na disputa até agora, que são os de Ronaldo Caiado (DEM), Daniel Vilela (MDB) e o próprio governador José Eliton (PSDB)?

Eu acho que são três candidatos bons, sem dúvida nenhuma. O Ronaldo é uma oposição mais combativa e tem grandes qualidades, não resta dúvida nenhuma. Ninguém diz nada da sua honestidade e tem coragem em tudo. O Daniel Vilela é algo novo, está vindo aí e todos nós estamos clamando por renovação. Mas eu vejo no José Eliton a qualidade plena, porque ele viveu o momento de Goiás se reformar, e o Marconi é um reformador. Depois que o conheci, eu fique até admirado de como ele conhece a máquina pública e é um homem que também não se pode dizer nada da sua correção, da sua honestidade e está disposto a dar o seu trabalho. Ele vem de uma família humilde, mas uma família de gente trabalhadora e honesta. Eu conheço o pai dele há muitos e muitos anos, e sei que é um homem corretíssimo, trabalhador. José Eliton reúne hoje, eu diria, todas as qualidades, e ninguém melhor do que ele para dar continuidade a isso que está acontecendo.

Nessa campanha, caso confirme a candidatura da reeleição de José Eliton, o senhor participaria da campanha dele fora do horário do expediente?

A melhor forma de eu participar é me dedicar integralmente à Segurança, e é o que estou fazendo, e é o que vou fazer. Ele passou pela Secretaria de Segurança, ele gestou esse plano que foi anunciado, e o sucesso desse plano é o sucesso do José Eliton.

A consolidação dele na base e junto ao eleitorado depende dele ou do governo, já que ele está atrás nas pesquisas?

Pesquisas nesse momento é especulação. A boa pesquisa é aquela feita quinze dias antes da eleição, lá para agosto ou setembro. Ou a urna, que essa é excelente.

Com os nomes colocados na disputa à Presidência, é possível se ter esperança hoje para o Brasil?

Eu acho que sem uma grande reforma partidária e uma reforma do próprio Congresso, seria muito difícil para qualquer presidente – a não ser que tivesse características de liderança extraordinária -, como teve Juscelino Kubitschek. Eu acho que seria muito difícil. Nós temos candidatos com muita experiência, como Geraldo Alckmin,  que governou São Paulo duas vezes, que é como governar meio Brasil. Nós temos Henrique Meirelles que tem experiência muito grande, e acho que o que precisaria era de respaldo com um Congresso alinhado para o país sair da crise.

Como o senhor vê as manifestações Brasil afora pedindo o retorno do regime militar?

Eu acho que hoje não seria possível a instalação do regime militar. O que aqui nós tivemos eu nunca chamo de ditadura, porque eu vivi no meio dele e nós tínhamos aqui oposição que funcionava, tínhamos imprensa que não era jornal único como é em Cuba. Não era partido único. Havia vários partidos. Mas era uma época da Guerra Fria. O regime aqui era o reflexo de uma luta da democracia de um lado, chefiada pelos Estados Unidos e Inglaterra, e do outro lado a União Soviética. Então, foi nesse embate que surgiu o regime militar aqui. Desapareceu essa polarização do mundo, desapareceu o regime militar aqui também. Hoje eu acho que seria muito difícil (o retorno de um regime militar). Eu acho que nós precisamos é um reordenamento de todo o ambiente político brasileiro. Talvez nós estejamos necessitando de um regime parlamentar, para que nós tenhamos um Congresso mais ordenado, precisamos das reformas mais profundas, por exemplo, a reforma previdenciária, a reforma fiscal que a economia brasileira está pedindo. Então eu acho que isso que é necessário para que possamos avançar.

Hoje, a presença de militares na política seria negativa?

Acho que a presença de militares é necessária como é nos Estados Unidos, porque os militares estudam demais. A formação do militar hoje é uma formação de doutorado na Marinha, no Exército e Aeronáutica. O militar que passa para a reserva, ainda jovem, ele precisava estar no governo. Hoje o ministro da Defesa, eu defenderia até que fosse um militar da reserva. Nós temos aqui, por exemplo, o ex-ministro da Marinha, o Almirante Flores [Mário César Flores], ele é um profundo estudioso de defesa, tem obras publicadas até no exterior, no entanto está lá, vestido de pijama em casa.

 

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