Das universidades para a política

Mais que a defesa das questões dos estudantes, entidades são muitas vezes o primeiro passa na formação de quem pretende seguir carreira política

Postado em: 12-05-2018 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Mais que a defesa das questões dos estudantes, entidades são muitas vezes o primeiro passa na formação de quem pretende seguir carreira política

Lucas de Godoi*

O movimento estudantil nas universidades, que sempre esteve intrinsecamente ligado com o processo político do país, respira novos ares. A oxigenação foi proporcionada, em parte, pelas manifestações de junho de 2013 e, mais recentemente, pelo processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para líderes de organizações estudantis, movimento segue fortalecido e em crescimento. 

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Para a diretora estadual da União Nacional dos Estudantes (UNE), Thais Falone, a participação dos jovens tem aumentado nas universidades. Ela considera que este é o ambiente mais propício para essa população protagonizar discussões políticas e ideológicas. “Não existe espaço mais adequado para o debate político-ideológica que a universidade, tendo em vista que essas discussões ideológicas são um princípio fundamental da democracia em que vivemos. É na academia que podemos discutir e apontar os melhores caminhos para construirmos uma sociedade mais justa”, afirma.

Nessa mesma perspectiva, o professor e cientista político Wilson Cunha compreende que os estudantes estão assumindo suas posições políticas e, mais do que isso, interessados em estudar e aprender sobre o tema. “Você vê jovens não encontrando um inimigo único, mas querendo aprender mais sobre a sociedade moderna, a sociedade capitalista”, explica. Para o professor, apesar de o grupo ser pequeno, “cerca de 3% de uma sala tem a curiosidade de estudar e entender a história do país”, a iniciativa é primordial para tomar o seu lugar no debate político nacional, sobretudo em períodos eleitorais. 

Atuando como uma espécie de aliada dos militantes, as entidades estudantis servem para engajar e incentivar a participação dos jovens. “As entidades representativas dos estudantes têm feito um trabalho de mobilização e conscientização dos jovens da faixa etária de 16 aos 18 anos, como por exemplo, a criação da campanha “Se Liga 16”, da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, que tem como objetivo inteirar os jovens da importância do voto”, esclarece Thais Falone. 

O debate e as discussões ideológicas nos ambientes acadêmicos servem ao propósito de criar organismos capazes de reivindicar melhorias para a coletividade, observa Wilson Cunha. Segundo ele, “a política não passa a ser vontade das pessoas, mas sim uma organização para desenvolver e melhorar a sociedade”.

Coordenadora geral do Diretório Central de Estudantes (DCE) da PUC Goiás, Ana Paula Fagundes concorda com a alegação do professor. “Hoje a principal função da instituição universitária baseia-se na construção de um saber independente e um contexto que impulsione o desenvolvimento da sociedade de forma geral. Tendo isto, não há que se falar de faculdade sem falar de política, a política em si é o canal ideal de organização humana”, acredita. 

Ana Paula ainda ressalta contribuições do movimento estudantil, que se assume como mecanismo de defesa dos interesses dos estudantes, além de pensar políticas que vão beneficiar a sociedade como um todo. “O fator motivador traz à tona um senso de dever e ética com as causas sociais, o que nos leva aos movimentos sociais e neste caso o movimento estudantil”, enfatiza a coordenadora.  

Partidos ficam de olho nos líderes estudantis 

Atentos às lideranças nas universidades, os partidos políticos têm se aproximado dos movimentos estudantis. Tal atitude, além de garantir proximidade com o movimento organizado, também serve para encontrar lideranças políticas que mais tarde irão ocupar os espaços nas organizações partidárias. Além disso, outras vezes são os próprios acadêmicos que buscam dialogar com as siglas partidárias. 

“Existem duas maneiras da inserção partidária no movimento estudantil atualmente”, diz a coordenadora do DCE da PUC Goiás, Ana Paula Fagundes. Segundo ela, os estudantes que possuem ligação com outros movimentos têm mais facilidade para “militar nos movimentos estudantis, devido à bagagem e formação que possuem”. Outra justificativa é de que a participação estudantil torna os acadêmicos “preparados e capacitados intelectualmente e socialmente” para “ocupar postos em partidos e sindicatos”. 

Nesse mesmo sentido, o coordenador geral do centro acadêmico do curso de direito da PUC Goiás, Carlos Eduardo Costa Barros, esclarece que o simples desejo de se envolver no movimento estudantil já demonstra uma pré-disposição em atuar nos espaços políticos tradicionais. Ele aponta que muitas vezes os líderes desses coletivos buscam se aproximar dos partidos políticos. “Quando a pessoa se torna parte do Centro Acadêmico, ela acaba criando um gosto político, facilidade e dinamismo de se posicionar. Então muitos que não eram politizados entram no movimento com o objetivo de sair daqui e ir para algum partido político, conhecer e saber como funciona, saber qual partido político dá mais oportunidade para a juventude, qual partido político dá uma certa voz”, explica. 

Outro fator ponderado pelo professor Wilson Cunha é em relação às necessidades de mudança que esses jovens percebem quando estão inseridos em um processo de luta organizado, que são os movimentos estudantis. “Os jovens estão começando a se interessar pelo [processo político tradicional] porque o Brasil está dando uma lição para o mundo de como não administrar o país”, avalia. Para ele, essa insatisfação torna-se combustível para que os acadêmicos ocupem os espaços de debate.  

Vida pública começa na militância 

Diversos políticos em atividade começaram sua militância ainda na universidade. Em Goiás, o prefeito Iris Rezende, que celebra 60 anos de vida política neste ano, se interessou pela carreira ainda na faculdade de direito, na década de 1950. Outro nome é de Denise Carvalho, que passou pelos movimentos sociais antes de chegar ao Legislativo. Primeiro ela foi vereadora, eleita em 1988, aprovou mais de 200 emendas à Lei Orgânica municipal. Dois anos depois, venceu as eleições para deputada estadual, onde se manteve por três legislaturas. Nas três disputas, foi a mais votada da capital entre todos os partidos políticos.

Mais recente, nas eleições de 2014, o deputado goiano Lucas Calil foi eleito pelo PSL com 18.128 votos e reconhece a importância dos movimentos estudantis. “Com certeza foi fundamental para mim e para os colegas da época. Alguns optaram pela candidatura, outros têm trabalhado nos bastidores, mas de qualquer forma foi a época em que nos moldamos como cidadãos e passamos a entender como funciona um sistema bilateral como o nosso e ainda tivemos a noção de democracia, onde o debate era a nossa única e poderosíssima arma”, observa o deputado. 

Eleito em 2016, o atual vereador de Goiânia Lucas Kitão (PSL) também descobriu na universidade sua vocação. “É lá que a gente aprende a fazer política, que é quando a gente começa a se organizar, articular, fazer chapas para concorrer, conversar com grupos e coletivos”, pontua explicando que as “pessoas que se destacam no coletivo, costumam seguir carreiras políticas fora da universidade”, que é vista como “um laboratório de grandes líderes”, analisa. 

Coordenador-geral do Centro Acadêmico de direito da PUC Goiás, Carlos Eduardo acredita que o ambiente universitário é, muitas vezes, o primeiro palco para expor e defender pontos de vista. “Querendo ou não, é uma forma de aprendizado para a vida política lá fora. O Centro Acadêmico de Direito da PUC Goiás foi palco para muitos formadores de opinião, como também político, chefes de estado e parlamentares que começaram dentro do Centro Acadêmico”, conta. 

Para Kitão, ver o ambiente acadêmico se tornar um espaço melhor mostra “onde seria bom caminhar e quais as atitudes que seriam certas por parte dos governantes”. Ele lembra que lutar “pela melhora da biblioteca, asfalto do estacionamento e gratuidade em eventos” o inspirou para a vida pública. “Eu acho que é desse jeito que vamos conseguir resolver os problemas da nossa cidade, do nosso bairro, do nosso estado”, conclui entusiasmado. 

Calil também enxerga como positiva a participação estudantil no campo acadêmico. Ele entende “que o movimento estudantil deve ser algo fomentado pelas faculdades, para que alunos desenvolvam pretensões que muito contribuem para a sociedade como um todo”.

Movimentos são decisivos para garantir direitos 

As discussões nas universidades estão a todo vapor, conta a diretora da UNE em Goiás Thais Falone. “Os vários comitês que foram e são criados nas mais diversas universidades brasileiras para debater os mais variados temas, como a defesa das universidades públicas, o debate das reformas previdenciária e trabalhista e mais recentemente os comitês em defesa da democracia no país” são algumas das pautas debatidas e defendidas pelos movimentos estudantis, exemplifica Thais. 

Coordenadora geral do DCE da PUC Goiás, Ana Paula Fagundes também acredita que a organização política nas universidades contribui e influencia decisões de políticas públicas. Ana Paula cita conquistas. “Na discussão referente às melhorias na educação do país, este DCE esteve presente na luta em busca do passe livre estudantil, e hoje carrega a bandeira de uma educação não mercantilizada, que viabiliza ações do estado para viabilizar o direito real à educação a todos os cidadãos”, fundamenta. 

“A UNE sempre teve participação fundamental nos momentos de aflição que o Brasil viveu e é com o mesmo pioneirismo que a UNE ajudou a reinstalar a democracia no Brasil que ela se propõe nesse momento a mobilizar o maior número de jovens possíveis para garantir os avanços sociais que o país viveu nos últimos anos, especialmente ao que se refere à educação pública”, conclui Thais Falone sobre a missão e visão política da entidade. 

*Especial para O Hoje.

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