Sem o MDB, Rogério Cruz será presa fácil para o impeachment

Postado em: 27-03-2021 às 08h48
Por: Raphael Bezerra
Prefeito assume o risco de perder sua base política e virar alvo das manbras do presidente da Câmara e ‘vice’ legal, Romário Policarpo | Foto: Reprodução

José Luiz Bittencourt

Ao surpreender o MDB com um movimento de ampliação do espaço
da tríade Republicanos-igreja Universal-Rede Record na prefeitura de Goiânia às
custas dos cargos até então ocupados por emedebistas, o prefeito Rogério Cruz
assume um risco que pode até custar o seu mandato, através de um impeachment.

Os três pilares da formação pessoal e política de Cruz
(Republicanos-igreja Universal Rede Record) constituem no Brasil um notório
projeto de poder. Apesar das declarações do prefeito da capital assegurando que
nem a igreja nem a Record interferem na sua gestão, mas apenas o partido, no
uso da sua credencial de agente do processo político, a verdade é outra. Esses
três braços pertencem a um só organismo, são uma coisa única.

É como um manto dobrado uma vez, depois outra e em seguida
uma terceira vez. O manto é somente um, mas as três dobras estão lá. E é nesse
manto que Rogério Cruz está se embrulhando, depois de ganhar o prêmio de
loteria que a morte de Maguito Vilela pela imprudência e negligência face ao
coronavírus deixou para ele.

Essa trindade rara (Republicanos-igreja Universal-Rede
Record) saiu desmoralizada da experiência administrativa que teve em uma das
capitais mais importantes do país, o Rio de Janeiro. lá, o bispo e prefeito
Marcelo Crivella terminou preso por corrupção. Ainda assim, conseguiu disputar
a eleição, porém foi massacrado pelo seu adversário Eduardo Paes, do DEM.

A aventura carioca foi um desastre, portanto. O projeto teve
que ser transferido para as três grandes cidades onde o Republicanos elegeu
prefeitos (Vitória, Campinas e Sorocaba) e para a capital onde foi beneficiário
das tramas do destino, Goiânia. isso tanto é verdade que o partido criou uma
coordenação política, ligada à sua cúpula, para vigiar de perto e orientar
esses quatro prefeitos, dentro da sua visão de crescimento para um dia chegar à
conquista de projeção em Estados e mesmo em termos federais

Se é que teve algum dia a intenção real de ser fiel ao
legado do cabeça da chapa que o elegeu, Maguito Vilela, e ao partido que chefiou
a coligação e a campanha em Goiânia, Rogério Cruz sucumbiu ao peso da rígida
hierarquia do Republicanos e dos seus irmãos siameses, a igreja e a Record. É
público que, em uma estratégia heterodoxa, a direção nacional do partido
designou um “interventor” para a prefeitura de Goiânia, mandando um
experimentado operador do Rio de Janeiro, tão experimentado que já foi colhido
pela Operação lava Jato e condenado a 21 anos de prisão, onde não está
provavelmente devido à indecência da fartura de recursos que existe na
legislação penal brasileira.

Pelo sim, pelo não, Cruz começou um expurgo no Paço
Municipal. Por ora, afastou nomes de segunda grandeza do MDB, mas colocou uma
espada sobre as cabeças estreladas do emedebismo que ocupam cargos no seu
secretariado. O partido estremeceu, já que se considerava o verdadeiro vencedor
da eleição do ano passado em Goiânia e não o apagado e desconhecido vice que
deu a impressão inicial de ser um fantoche facilmente manipulável até que
resolveu colocar as garras de fora.

Como nada é tão simples na política, Rogério Cruz, ao pisar
no pescoço de Daniel Vilela, também fica com as costas descobertas. O MDB e seu
presidente têm estrutura e não se pode dizer que lhes falta coragem. Daniel
Vilela é impulsivo, daqueles que não hesita na hora de chutar o pau da barraca.
Depois da sua candidatura suicida a governador, em 2018, simplesmente expulsou
da legenda as suas duas maiores expressões nos municípios, Adib Elias, em
Catalão, e Paulo do Vale, em Rio Verde. Às vésperas da eleição de 2020, foi
implacável com Renato de Castro, em Goianésia, que teve sua reeleição
inviabilizada por uma “cassação” da sua candidatura através da intervenção no
diretório municipal que jogou o partido em outras mãos. tudo isso porque
cometeram o “crime” de apoiar a candidatura de Ronaldo Caiado, alegando, como
disse com todas as letras Adib Elias, cansaço com 20 anos de derrotas
consecutivas.

Quem semeia ventos, colhe tempestades. O vice legal de
Rogério Cruz é o presidente da Câmara Romário Policarpo, que não esconde a
ansiedade diante da possibilidade não tão distante assim de se tornar prefeito
de Goiânia e faz jogo duplo com o Paço Municipal, ora afagando, ora batendo. É
jovem, mas tanto é determinado como matreiro. Uma junção da sua ambição com a insatisfação
do MDB com a traição e a recarga do ressentimento de Daniel Vilela, encurta o
mandato do pastor licenciado e ex-executivo da Record, com o apoio entusiástico
da maioria da Câmara de Vereadores, senão a sua unanimidade. É esse o
verdadeiro jogo que está na mesa. Rogério Cruz está brincando com fogo. (Especial
para O Hoje)

Compartilhe: