Pandemia expõe queda no número de mamografias e atrasa diagnóstico precoce do câncer de mama

Especialistas destacam importância da realização do exame para que, por meio de um diagnóstico precoce, as chances de cura aumentem

Postado em: 19-02-2022 às 08h33
Por: Maiara Dal Bosco
Especialistas destacam importância da realização do exame para que, por meio de um diagnóstico precoce, as chances de cura aumentem | Foto: reprodução

A mamografia é o principal meio de detecção, em fase inicial, do câncer de mama, segundo tipo de câncer mais comum na população feminina brasileira. Porém, desde o início da pandemia, a procura pelo exame diminuiu drasticamente. Dados mais recentes do Ministério da Saúde (MS) apontam queda de 84% no número de exames realizados, em 2020, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em Goiás, essa diminuição chegou a quase 50%.

Sobre a diminuição na procura pelo exame, a Rosângela Bueno, médica radiologista do Cebrom Oncoclínicas, aponta que, com medo do contágio pelo coronavírus, muitas mulheres não fizeram a rotina anual de prevenção de muitas doenças, e que não foi diferente com o câncer de mama. “Grande parte dos casos suspeitos deixaram de ser diagnosticados. Isso faz com que o prognóstico piore bastante e a efetividade do tratamento diminua consideravelmente. Claro, tudo isso impacta fortemente na qualidade de vida da pessoa”, afirma Bueno.

A médica ressalta que o rastreamento mamográfico deve ser feito a partir dos 40 anos para assintomáticas e sem histórico familiar. “As principais entidades médicas recomendam a realização até os 74 anos. Após essa idade, as mulheres com expectativa de vida superior a 7 anos devem continuar fazendo o exame”, explica a médica radiologista.

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Envelhecimento

Já Rubens Pereira, médico mastologista do Cebrom Oncoclínicas, explica que o câncer é uma doença do envelhecimento, isto é, o organismo vai perdendo a capacidade de corrigir erros. O câncer de mama, por sua vez, é uma doença multifatorial, e um dos principais fatores de risco é a idade.

O médico enfatiza que é utilidade pública divulgar à população, principalmente às mulheres, sobre a importância da realização da mamografia. Segundo ele, diagnosticar precocemente ou não a doença é que determinará se as chances de cura serão grandes ou pequenas, se haverá a necessidade de retirar a mama ou só um nódulo, bem como se o tratamento será realizado ou não com quimioterapia. “A mamografia proporciona um aumento significativo da chance de cura e diminuição das mutilações”, pontua.

O médico destaca que, para fazer prevenção, o ideal seria uma cobertura após os 40 anos de idade em torno de 70% das mulheres. Entretanto, no Brasil o índice é de apenas 20%. “Na pandemia, em torno de 800 mil mulheres deixaram de fazer a mamografia no Brasil em 2021. Com isso, a quantidade de diagnósticos diminuiu e pode ser que mais de 4 mil mulheres tenham ficado sem o diagnóstico para a doença, o que significa que esses casos vão imergir lá na frente, em uma situação mais avançada, o que dificultará o tratamento e a cura”, afirma Pereira.

De acordo com o especialista, o exame de mamografia consegue reduzir a taxa de óbito pela doença em torno de 30%. “Dados apontam que mais de 66 mil novos casos vão surgir no Brasil a cada ano e, destes, mais de 18 mil são óbitos. Com isso, o Brasil se coloca na situação de um país em desenvolvimento, já que, na maioria dos casos o câncer é diagnosticado na fase avançada a chance de cura é maior se o diagnóstico é feito precocemente”, destaca.

Além disso, o especialista expõe um problema que contribui para a diminuição dos diagnósticos da doença: apesar de o Brasil ser suprido de aparelhos para a realização de mamografias, com cerca de 4 mil equipamentos, quando 1,5 mil seriam suficientes, a maioria está concentrada nos grandes centros urbanos. “Em Goiás, 115 aparelhos estão localizados na Grande Goiânia, então as pacientes que residem no interior acabam precisando, além de orientação, de transporte. A burocracia também é extensa, é preciso agendar o exame, por meio do SUS, fazer o exame, posteriormente a biópsia e exames complementares”, pontua.

Superação

Joana de Souza e Silva, 73, conta que descobriu a doença no final de 2010, após um familiar recomendar que ela fizesse um check-up para verificar como estava a saúde. E assim foi feito. Durante os exames de rotina ginecológicos, Joana conta que a médica alertou-a sobre a suspeita de um câncer de mama. “Com a realização da biópsia e a confirmação do diagnóstico, e com a doença já avançada, foi preciso retirar a mama”, destaca.

Ela conta, ainda, que o processo de retirada da mama ocorreu de forma tranquila, e que optou por não colocar prótese de silicone no lugar da mama que foi retirada – a esquerda. “Quem disse que eu quero colocar a prótese?”, indagou à época. “Eu coloco somente [enchimento] no sutiã, fiquei preocupada em fazer outra cirurgia e ocorrer rejeição. Hoje levo uma vida normal, e em momento algum me sinto triste ou revoltada. Estou com saúde”, afirma Silva.

Mãe de oito filhos, ela revela ainda que antes de descobrir a doença, não se preocupava com a possibilidade. “Sempre fui muito sadia, tive meus filhos de parto normal, trabalhava muito na roça. É o que eu sempre falo, é importante ter fé e acreditar, porque aquilo que vem só para moldar é só para moldar, uma provação mesmo”, destaca.

Mudança

Já Reijane Pinheiro, professora de ensino superior, tinha 46 anos quando descobriu o câncer de mama, em 2017. Ela conta que o único ano que passou sem realizar a mamografia foi 2016, e que foi neste ano que a doença surgiu. “Em 2015 eu havia feito o exame, que não constou nenhum problema”, afirma.

Após se deparar com laudos incompatíveis e ter realizado a revisão dos exames, ela realizou a cirurgia para a retirada da mama direita, que estava comprometida. “Até então eu estava em dúvida se fazia quimioterapia ou não, por conta de alguns erros do laboratório. Fiz a revisão de todo o material, e descobri que tinha metástase na axila. Um comprometimento assim muda a perspectiva do tratamento”, relata.

Ela destaca que, quando teve confirmado o diagnóstico do câncer de mama, o maior impacto foi conseguir olhar a vida sob outra perspectiva, que não da forma automática. “A sua própria existência é colocada como questão naquele momento. Vejo como um momento muito positivo, sobre como eu tenho que viver a minha vida, e enxergar as questões que são mais importantes, aproveitar um dia de cada vez. Essa foi a grande lição”, ressalta Pinheiro.

A professora relata ainda que a doença a confrontou com o jeito dela de viver. “Não estava legal. Passei a repensar sobre as cobranças em ter que fazer coisas o tempo todo, ser perfeita no trabalho, ou enquanto mãe. Passei a repensar toda essa relação, subjetiva, de quem sou eu, e o que realmente vale a pena. O câncer me ensinou e tem me ensinado muito”, frisa Pinheiro, que recentemente passou por sua segunda cirurgia de reconstrução mamária. (Especial para O Hoje)

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