Perda gestacional: influencer conta história de seu aborto espontâneo

Cerca de 23 milhões de gestações em todo o mundo terminam em aborto espontâneo em cada ano – o que configura 15% do total ou 44 a cada minuto, de acordo com novas estimativas publicadas na revista médica The Lancet, em 2021.

Postado em: 01-07-2022 às 19h00
Por: Ana Bárbara Quêtto
Apesar Lia não ter um desfecho certo para o seu caso, a mulher se mantém otimista. | Foto: Reprodução/Amanda Vargas

Cerca de 23 milhões de gestações em todo o mundo terminam em aborto espontâneo em cada ano – o que configura 15% do total ou 44 abortos a cada minuto, de acordo com novas estimativas publicadas na revista médica The Lancet, em 2021.

A influencer Lia Camargo, de 38 anos, contou para o UOL como passou pelo sofrimento de ter um aborto espontâneo em dezembro do ano passado. “Fui ajudar meu filho Fernando, de 5 anos, no banheiro e quando me agachei, senti muita água saindo”, relata.

Lia estava na 21ª semana de uma gestação. A mãe de segunda viagem estava com todo o pré-natal dentro da normalidade. Todos os exames demonstravam que a bebê, de nome Marina, estava bem. Mas quando a bolsa se rompeu causou um prolapso do cordão umbilical.

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“Isso significa que o cordão umbilical saiu de dentro da cavidade uterina e entrou pelo colo do útero, chegando à vagina”, explica o médico Ricardo Barini, professor aposentado do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que investiga o caso da influenciadora.

“Nesses casos, é inviável segurar a gravidez, pelos riscos de infecção e pelo óbito inevitável do bebê, porque ao se iniciarem as contrações ocorre uma compressão do cordão que interrompe a oxigenação para o feto”, descreve ao UOL.

Uma grávida que chegou, a pelo menos, a 28 semanas em uma gravidez viável, é possível fazer uma cesariana de emergência. Mas Lia entrou naturalmente em trabalho de parto. Após uma semana de internação, o cordão terminou de sair e houve a constatação de que a bebê estava sem vida.

A influenciadora de moda teve um parto ativo, sem dor por causa da anestesia, e, assim, conseguiu segurar a filha. Momento importante para a saúde mental de Lia. “As maternidades no Brasil são organizadas para receber bebês vivos, então esses ambientes acabam por favorecer o trauma da perda”, argumenta psicóloga Heloisa Salgado, doutora em saúde materno-infantil pela USP (Universidade de São Paulo).

Depois de vivenciar o luto por meses, a influencer, que ouviu do médico que sua perda havia sido um “acaso”, resolveu buscar por outra opinião médica, uma que fizesse mais sentido. “Ele ainda fez a seguinte associação: mesmo que você seja uma pessoa cuidadosa e atravesse na faixa de pedestre, ainda assim você pode ser atropelada. Como pode ser normal perder o bebê no meio da gestação, né?”, disse indignada.

Dessa forma, Lia passou por quatro médicos diferentes porque não sentia empenho dos profissionais por um diagnóstico. Em uma consulta, Camargo foi aconselhada a tomar injeções de heparina, um medicamento indicado para gestantes com histórico de trombofilia – formação de coágulos que atrapalham a irrigação de sangue na placenta.

“Em um dos exames apareceu uma pequena alteração, o que, segundo outros médicos que consultei depois, não caracteriza a trombofilia, porque eu tinha acabado de passar por uma gestação. Ele seguiu uma receita de bolo”, contesta.

Indiganada, Lia buscou a internet como seu último recurso. A mãe procurava por casos semelhantes ao dela e encontrou um vídeo em que Barini explicava sobre incompetência istmo-cervical – condição que faz o útero perde a capacidade de manter a gravidez porque o colo vai abrindo de dentro para fora, sem haver contrações – uma causa comum de partos prematuros e abortos.

“O que ele dizia bateu muito com uma queixa que eu tinha, que era um peso na pélvis, algo muito diferente do que senti na gestação anterior”, afirma a influencer.

Causas da perda gestacional

O aborto espontâneo é frequentemente mal interpretado por mulheres, homens e, inclusive, profissionais de saúde, como no caso de Lia. Apesar de a medicina fetal ter avançado nos últimos 30 anos, cerca de 30% dos casos investigados ainda ficam sem identificação.

As causas da perda gestacional são diversas e, muitas vezes, não perceptíveis. Os abortos podem ocorrer por anomalias no feto, mas, eventualmente  um aborto espontâneo também pode ser causado por uma condição médica na pessoa grávida.

Como por exemplo, por questões hormonais como a síndrome do ovário policístico (SOP), caracterizado pela presença de cistos, um distúrbio da tireoide ou um problema físico no útero, como por exemplo, condições como endometriose (presença do tecido endometrial fora da cavidade uterina) ou miomas uterinos (tumor benigno do útero).

Apesar Lia não ter um desfecho certo para o seu caso, a mulher se mantém otimista: “É uma prova de resistência, mas eu não quero tentar de novo [uma gestação] a qualquer custo. Acho muito caro o preço que se paga”.

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