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TRINDADE: Tradição leva fiéis a Matriz

Postado em: 05-07-2019 às 06h00
Mesmo com a construção de templos suntuosos, católicos mantém a tradição de celebração das missas na antiga igreja de Trindade durante a Romaria do Divino Pai Eterno

Igor Caldas

Especial para O Hoje 

Tradição é a maior marca da Festa de Trindade e mesmo com a construção de templos modernos e suntuosos, como o Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, os praticantes católicos não abandonam a antiga igreja matriz no centro da cidade. O apego ao costume faz com que os bancos de madeira da Paróquia Matriz não bastem a todos os religiosos que celebram a missa em devoção. Estima-se que mais 1 milhão de pessoas já foram até a cidade para celebrar a maior festa religiosa do Centro-Oeste. A opinião é unânime: A cada ano que passa, cresce o número de fiéis.

Há mais de 50 anos, José Luiz da Silva Neto vai até a cidade santa em agradecimento. Natural de Morrinhos e morador de Goiânia, ele lembra quando seu pai, devoto do Divino Pai Eterno, fazia a romaria até Trindade levado por um carro de boi. “Na época a gente era muito pequeno e não acompanhava a viagem, mas me lembro que ele deixava nossa casa e ficávamos esperando seu regresso”, recorda José. Ele ainda afirma que durante a celebração da festa, prefere frequentar as missas da antiga igreja no centro da cidade, espaço que promove memória afetiva.

“Eu também vou na Basílica. já fui às missas que são celebradas lá, mas na Festa do Divino, eu venho sempre nessa aqui. Porque ela é mais tradicional, é a primeira que a gente conheceu. Ela me faz lembrar muito quando vinha aqui com o meu pai”, afirma José. No interior da Igreja Matriz, os fiéis se acomodam como podem. Com todos os espaços dos bancos ocupados, a reportagem presenciou alguns se sentavam no chão ou se escoravam de pé nas paredes centenárias da Paróquia Matriz de Trindade.

A construção da Igreja Matriz de Trindade começou no mês de agosto de 1911, quando foi demolida a capela construída em 1878, mais de 70 anos depois que o casal Constantino Maria Xavier e Ana Rosa de Oliveira encontraram o medalhão de barro onde estava representada a Santíssima Trindade coroando a Virgem Maria, reproduzida na estátua da entrada da cidade. É lá que muitos fiéis ajoelham em agradecimento depois de enfrentar a pé o caminho da rodovia dos romeiros.

Caminhada

O romeiro Valtuir Pereira da Silva caminhou cerca de trinta quilômetros que separam Goiânia da cidade santa para em agradecimento e devoção ao Divino Pai Eterno. A primeira coisa que fez ao chegar ao portal da cidade foi ajoelhar em frente a estátua da Santíssima Trindade. Segundo Valtuir, ele demorou três horas para concluir o caminho e realiza a romaria há vinte anos para agradecer as bênçãos e não para pedir.

O cristão fala sobre a origem de sua devoção e acredita que a fé só fez aumentar o número de pessoas que vão a Trindade todos os anos. Na sua opinião, só a fé em Deus pode resolver o estado calamitoso que o país se encontra atualmente. “Minha devoção ao Divino Pai Eterno veio como herança dos meus pais que eram mineiros. Todo mineiro é devoto dele. A cada ano que passa, mais pessoas vêm a cidade santa em devoção ao Divino Pai Eterno. A fé do brasileiro precisa aumentar, principalmente na situação que a gente está. Só a fé no divino pode resolver isso”.

Nem todos chegam intactos depois de andar tanto para chegar à Trindade. Segundo a Coordenadora de Atenção Básica do Município, Michelly Andrade, são os mais velhos que mais sofrem com a caminhada. “O principal atendimento médico que fizemos esse ano aos romeiros foi o pico de pressão arterial em idosos. Muitos deles esquecem de tomar a medicação e sofrem muito depois de enfrentar um longo caminho até aqui”, ela ainda afirma que a emoção da manifestação religiosa e as horas passadas em pé na missa podem causar o pico.

De acordo com Michelly, até as 7 h da manhã desta quinta-feira (04) foram feitos 4.980 atendimentos, envolvendo o trabalho dos seis pontos de atendimento espalhados pela cidade, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e da Vigilância Sanitária que dá orientações sobre as condições de barracas de lanches e fiscaliza o comércio de alimentos. Ainda segundo a coordenadora, o maior número de atendimentos a maus de saúde aconteceu nos pontos montados na Basílica do Divino Pai Eterno e na Igreja Matriz, no centro da cidade.

Michelly trabalha há cinco anos na Romaria de Trindade e concorda que o público de fiéis só aumentou nos últimos anos. Ela também garante que o número de atendimentos da Atenção Básica durante a festa religiosa foi maior do que o ano passado. “Em 2018 fizemos cerca de 10 mil atendimentos. Os números desse ano com certeza devem aumentar porque já ultrapassaram os do ano passado no mesmo período”.


 Romaria de Carros de Boi mantém tradição 

Mais de 360 carros de bois de vários municípios de Goiás e de outros estados estiveram presentes na tradicional desfile da Romaria de Carros de Bois que aconteceu na manhã desta quinta-feira (04) no carreiródromo municipal Ada Cyra. A carreata saiu do Santuário Matriz do Divino Pai Eterno, conhecido como Santuário Velho onde os participantes receberam a benção.

A Romaria de Carros de Bois é tombada desde 2016, como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Presente no desfile, o Prefeito Jânio Darrot destacou a importância da romaria para Goiás e para o Brasil. “Mantemos vivas as tradições culturais e valorizamos nossas raízes”, disse. O evento remonta as origens da devoção ao Divino Pai Eterno, em 1840. “É a imensa fé que resiste ao tempo”, afirma.

O prefeito ressaltou os esforços realizados para concretizar esse evento de grande dimensão. Ele deu agradecimentos aos colaboradores municipais que trabalharam na organização e exaltou os parceiros do Governo do Estado de Goiás e da Caixa Econômica Federal. A romaria dos cavaleiros e muladeiros de Trindade 2019 está programada para hoje a partir das 9h. O trajeto vai começar na rua 16 de julho e passa pela Igreja Matriz, com apresentação no carreiródromo municipal Ada Cyra.

O governador Ronaldo Caiado lembrou que a tradição dos carreiros, além de uma demonstração de fé, é parte da construção da identidade do povo goiano. “Indiscutivelmente, o que estamos assistindo aqui não existe em nenhum outro País. Essa tradição mostra como os antigos chegavam às suas propriedades rurais, às suas romarias, utilizando carros de boi, trazendo familiares, alimentos. Nós preservamos essa tradição. São carreiros que viajaram mais de 100, 200 quilômetros para chegar a Trindade. Realmente é algo emocionante”, reiterou.

  

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