quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Delação

Delação de Delcídio ‘anestesia’ governo

O senador petista, que liderava a bancada governista antes de ser preso, relacionou Lula e a presidente Dilma Rousseff ao escândalo do Petrolão

Sheyla Sousapor em
Delação de Delcídio ‘anestesia’ governo
O senador petista

Delação de Delcídio ‘anestesia’ governo

A delação premiada do senador Delcídio Amaral (PT-MS) caiu como uma bomba no Palácio do Planalto nesta quinta-feira. Desde cedo, a presidente Dilma Rousseff convocou os ministros e assessores mais próximos para avaliar a extensão dos danos.

Mais do que a habitual indignação que demonstra quando se sente atingida de forma que considera “injusta”, Dilma e os auxiliares mais próximos se mostravam “anestesiados”, nas palavras de um participante da reunião.

Esta é considerada pelo governo a primeira bala que afeta diretamente Dilma, atirada por um aliado de primeira hora e que tinha trânsito livre no Planalto e no Palácio do Alvorada, residência oficial.

– Mesmo que tudo isso seja calúnia, o volume é tanto que não dá tempo de fazer defesa, de contestar as informações, de se opor a tudo isso. É um sentimento de atordoamento que todos estão sentindo – afirmou.

Este auxiliar considerou de “danosa” a delação, porque será mais um elemento a impedir que o governo reaja política e economicamente, já que será improvável o avanço de propostas neste sentido na Congresso.

A delação de Delcídio, para o Planalto, coloca mais combustível no pedido de impeachment, que parecia adormecido e até mesmo contornado.

O ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, disse nesta quinta-feira que a presidente Dilma Rousseff está preocupada e indignada com a revelação de detalhes da delação do ex-líder do governo. Em rápida entrevista, Wagner chamou de “crime gravíssimo” o vazamento da delação, e disse que as acusações contra Dilma, no caso de Pasadena são requentadas. Ele afirmou ainda se tratar de “execração” e comparou o caso de delação ao da Escola de Base, quando falsas acusações de abuso destruíram a reputação da instituição.

– (A presidente) está com a mesma indignação que eu, talvez até mais que eu, porque envolve diretamente o nome dela. Quem fez o vazamento? Alguém vai apurar? Ou fica pelas calendas isso? Isso é um crime gravíssimo, porque está sob sigilo de Justiça e deveria ir para as mãos do ministro Teori Zavaski, que preside esse feito – reclamou Wagner.

Para o ministro, que participou de reunião com Dilma pouco após a publicação da reportagem da revista “IstoÉ” com detalhes da delação, a revelação demonstra que há um ambiente de “tudo ou nada, para o vale tudo, onde qualquer um faz o que quer para atingir o seu objetivo” e manifestou preocupação com as instituições.

Após ser empossado na manhã desta quinta-feira na Advocacia-Geral da União (AGU), José Eduardo Cardozo afirmou que o senador Delcídio Amaral (PT-MS) “não tem credibilidade” e “não tem primado por dizer a verdade”. Segundo Cardozo, a delação do ex-líder do governo no Senado seria uma retaliação.

– Vou ler primeiro, mas vamos ser francos. Primeiro, não sei se há uma delação premiada. Se houver, o senador Delcídio, com quem sempre tive excelentes relações, não tem primado por dizer a verdade. Ele não disse a verdade naquela fita, que todos conheceram – disse Cardozo, que acrescentou: – Eu não sei dizer se há delação premiada, mas se efetivamente houve, há forte possibilidade de ser retaliação, até porque isso foi anunciado previamente. Se o governo não fizesse nada, ele retaliaria. (AG) 

Em nota, Dilma critica “vazamentos apócrifos” 

A presidenta Dilma Rousseff disse ontem em comunicado, repudiar o vazamento de uma suposta delação premiada do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), divulgada ontem pela revista IstoÉ. Por meio de uma nota à imprensa, assinada pessoalmente pela presidenta, Dilma Rousseff considerou ser “justo” que o teor seja de conhecimento da sociedade se a delação existir e tiver autorização da Justiça.

“Os vazamentos apócrifos, seletivos e ilegais devem ser repudiados e ter sua origem rigorosamente apurada, já que ferem a lei, a justiça e a verdade”, escreveu a presidenta.

Segundo a revista IstoÉ, o senador fez acordo de delação premiada com a Operação Lava Jato, que inevstiga esquema de corrupção na Petrobras. Nos depoimentos, Delcídio teria dito que a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinham conhecimento do esquema de corrupção na Petrobras.

Dilma inicia o comunicado dizendo que todas as ações de seu governo têm se pautado pelo respeito aos “direitos individuais”, o “combate à corrupção” e compromisso com “o fortalecimento das instituições de Estado”. Segundo ela, o governo federal cumpre “rigorosamente” o que estipula a Constituição Federal.

“Se há delação premiada homologada e devidamente autorizada, é justo e legítimo que seu teor seja do conhecimento da sociedade. No entanto, repito, é necessária a autorização do Poder Judiciário. Repudiamos, em nome do Estado Democrático de Direito, o uso abusivo de vazamentos como arma política. Esses expedientes não contribuem para a estabilidade do País”, defendeu. (ABr) 

Oposição vai reforçar pedido de impeachment 

Os partidos de oposição decidiram apresentar, na segunda-feira, um aditamento ao pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que já está em andamento na Câmara dos Deputados. O aditamento será para acrescentar ao pedido as informações publicadas pela revista IstoÉ. De acordo com reportagem da revista, o  senador Delcídio do Amaral (PT-MS) firmou um acordo de delação premiada.

A reportagem da revista diz que o senador acusou a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula de terem conhecimento do esquema de corrupção na Petrobras. “Se confirmadas todas essas denúncias que a revista IstoÉ traz hoje, nós estamos vivendo o momento mais grave de toda essa crise moral por que passa o país”, disse o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves. 

Segundo Aécio, o aditamento será feito com a assinatura dos juristas Miguel Reale, Hélio Bicudo e Janaína Paschoal, autores do pedido original de impeachment que foi acatado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. “Em especial o capítulo que fala da possível interferência da presidente da República no processo de investigação da Lava Jato, com a nomeação direcionada de ministros do STJ [Superior Tribunal de Justiça]”, disse o senador. A nomeação direcionada a qual se refere Aécio  seria a de Marcelo Navarro, de acordo com a IstoÉ. Segundo o texto, na delação, Delcídio teria contado que a presidenta nomeou Navarro com a condição de ele votar pela soltura dos presidentes da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, e da Andrade Gutierrez, Otávio Marques. (ABr) 

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