sábado, 31 de outubro de 2026
Política

Candidatos ”outsiders” não convencem nessas eleições

Pré-candidatos como Pablo Marçal, delegado Eduardo Rodovalho e major Vitor Hugo apostam no discurso antipolítico

Thauany Melopor em

“O povo está cansado de politiqueiro”, afirmou o pré-candidato à presidência Pablo Marçal (Pros) ao se colocar como alguém fora da política durante coletiva de imprensa em Goiânia na terça-feira (5). Ao seu lado, o pré-candidato ao Senado delegado Eduardo Rodovalho, também do Pros, reiterou o discurso antipolítico e reafirmou que ambos vêm de fora do sistema. Igualmente crítico aos “políticos profissionais”, o deputado major Vitor Hugo (PL) tenta desvencilhar a sua imagem das personalidades que alçam carreira na área: “Somos improváveis”, escreveu nas redes sociais no dia 11 de maio de 2022.

Os posicionamentos mostram como, em 2022, alguns pré-candidatos repetem a construção de outsiders que culminou na maior renovação da Câmara dos Deputados pós-redemocratização em 2018. 

A cientista política Marcela Machado afirmou que a estratégia pode ser ineficiente no cenário atual, caso sejam ignoradas as outras prioridades dos brasileiros.  Além disso, ela ponderou que candidatos que se colocaram como outsiders em 2018 e foram eleitos, já tiveram tempo para mostrar o trabalho dentro da política.

“Essa receita vendeu tão bem que nós tivemos, em 2018, a maior renovação da Câmara dos Deputados pós-redemocratização, quase 48% de parlamentares novos. Devemos lembrar que os outrora outsiders já tiveram a chance de mostrar seu portfólio no mandato, bem como suas capacidades. Acredito que, agora, o apelo eleitoral seja outro. Existem muitas novas pautas de cunho social sendo debatidas. Usar a persona de outsider para se vender eleitoralmente eu não acredito que ainda seja uma boa estratégia. Tem que estar atrelada a outras pautas”, explicou a especialista.

Machado afirmou que a aceitação dos outsiders foi promissora devido ao movimento de indignação com a “velha política” na época. “A estratégia do outsider vendeu bem naquele momento. Havia um descontentamento com a classe política, chamada de velha política, e, com isso, acreditava-se que os outsiders, pessoas com um bom background e que não estavam “contaminadas” com a política, poderiam ser boas alternativas”, declarou.

O cientista político Guilherme Carvalho reiterou que as prioridades do Brasil são diferentes em 2022 e ressaltou que os eleitores brasileiros mudaram de opinião após a pandemia. “O discurso colava muito em 2018, mas, com a pandemia, a falta de experiência política mostrou, em termos de logística e de operacionalização de muitas pautas, que política é um negócio para político. Não é fácil, não é para amadores”, afirmou.

O especialista explicou que os outsiders aproveitaram o espírito anticorrupção para alçar voos. “Os outsiders entraram para a elite política de forma eficiente em 2018. Essa pauta se alimentou muito do sentimento anticorrupção, mas nas pesquisas a corrupção aparece apenas como a sexta preocupação do eleitor para 2022. A maior preocupação é a economia, a segunda maior é a saúde, que são pautas que você necessita ter conhecimento sobre gestão”, destacou. “Ou seja, pessoas que já fizeram parte da estrutura como políticos mandatários conhecem bem esse terreno e tendem a lidar muito melhor e de forma mais eficiente”, completou. De acordo com Carvalho, a maior tendência é que os antigos outsiders se aliem aos velhos políticos, que devem voltar para a cena. “Algumas pessoas que perderam mandato na última eleição por fazerem parte da velha política tendem a reaparecer como políticos promissores para essa eleição, enquanto aqueles que subiram enquanto outsiders tendem a adaptarem o discurso e se colar a essas figuras para manterem seus mandatos. Não acho que o discurso outsider seja relevante nesse momento”, declarou.

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