sábado, 7 de novembro de 2026
Crise

1,5 milhão de dívidas registradas no Serasa são de energia, água e gás

Um dos motivos é a inflação ter chegado a quase 12% no período de 12 meses

Sabrina Vilelapor em

 Informações levantadas pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) apontam que quatro a cada dez brasileiros estão com contas atrasadas. As pesquisas são em comparação com o mês de junho de 2021 e o mesmo período de 2022. O aumento registrado foi de 6,54% com valor médio das dívidas de R$ 3.583,21.

Só no último mês a inadimplência atingiu 62,73 milhões de pessoas no Brasil. Ou seja, 38,87% das pessoas com idade acima de 18 anos ficaram negativadas em junho. Já a variação anual chamou a atenção, por ficar acima da registrada no mês anterior com aumento de 0,64%.

A pesquisa leva em consideração devedores de 91 dias a 1 ano da falta de pagamento, que representa 40,05% do valor total. O motivo apontado por especialistas é o aumento de itens básicos para a sobrevivência e isso acaba fazendo com que o devedor priorize mais algumas contas do que outras.

A faixa etária com mais devedores é de 30 a 39 anos, que equivale a 15,58 milhões de pessoas com registro no cadastro de devedores.  As dívidas que mais tiveram aumento foram em bancos (24,31%), água e luz (4,49%). Contudo, as dívidas nos segmentos de comunicação e comércio apresentaram queda de 10,81% e 4,06%.

Os bancos aparecem em primeiro lugar com maior concentração no número de dívidas, sendo 59,22%, seguido do comércio no geral com 13,48%, água e luz com 10,95%.

Justificativa

Os dados da Serasa destacam que 22,7% pessoas estavam inadimplentes no mês de maio, ou seja, cerca de 1,5 milhão de dívidas em atraso. Esse índice foi o maior registrado no mês de maio desde o ano de 2018. O valor só não é superior às dívidas de cartão de crédito, com 29,7% do total.

Economista, Everaldo Leite acredita que nos últimos anos vem caindo a renda média dos trabalhadores. Enquanto que os preços dos bens e serviços básicos vêm crescendo de forma significativa. A circunstância da pandemia aprofundou o problema em escala internacional, interrompendo ou desorganizando cadeias produtivas e reforçando a elevação de preços de insumos importados.

Leite salienta ainda que a desvalorização do Real também contribuiu com a diminuição do poder de compra da classe trabalhadora e a aumentar as dificuldades financeiras – dívidas no cartão de crédito, por exemplo. Outro fator, segundo ele, é o alto nível de desemprego que impactou severamente nos orçamentos familiares, “espremendo” a capacidade de pagamento das contas pessoais.

“A energia, a água e o gás, em vários municípios, são serviços públicos essenciais que não podem ser descontinuados automaticamente por falta de pagamento. Por isso acabaram assumindo essa fatia da inadimplência nacional”, destaca.

Para o especialista, a inflação não seria um problema se a renda acompanhasse o aumento de preços. E qualquer elevação no valor de bens e serviços essenciais acaba impactando severamente na capacidade de honrar o pagamento dessas contas.

Famílias mais pobres são mais afetadas

Famílias de baixa renda ou que vivem com um ou dois salários mínimos não estão conseguindo se organizar financeiramente para equilibrar o orçamento familiar. Elas possuem dívidas que abrangem parcelas enormes da renda e sentem que o custo de vida em seus municípios exige cada vez mais desembolsos. “É uma situação que, em última instância, exigirá cada vez mais compromissos de políticas públicas para restaurar a saúde financeira das famílias”.

Conforme frisa Everaldo, elas não conseguirão convergir suas finanças pessoais e familiares para um equilíbrio orçamentário enquanto a inflação e o desemprego estiverem elevados. Também, outra razão apontada por ele seria se o crescimento do país continuar “tão insignificante”. Mudanças de emprego, outras ocupações e melhoria salarial são fatores que poderiam ajudar para que a população conseguisse sair das dívidas, principalmente com relação a coisas mais essenciais.

Crescem negociações para contas de água e luz

A média de negociações para contas de luz teve aumento de 51% em 2022. Dados da Enel Brasil apontam que o parcelamento das dívidas tem sido procurado como alternativa por muitos brasileiros. Entre os meses de janeiro a maio, os pedidos para parcelamentos passaram de 128 mil em 2021, para 193 mil este ano.

Os estados que tiveram mais pedidos foram Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Ceará. Nesses locais o aumento é considerável desde a pandemia. A Enel Brasil recebeu ao longo desses dois anos cerca de 4,2 milhões de pedidos de negociação.

Nos serviços básicos de água e luz houve recorde de inadimplência no mês de março com 23,2% de aumento. Esse índice foi o maior em quatro anos.

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