quarta-feira, 4 de novembro de 2026
No STF

Ex-chefe da FAB confirma que general alertou Bolsonaro sobre prisão

Carlos de Almeida Baptista Júnior prestou depoimento no Supremo Tribunal Federal na última quarta-feira

Felipe Cardosopor em
STF Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
STF Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) Carlos de Almeida Baptista Júnior confirmou na última quarta-feira (21) que o ex-comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, informou ao ex-presidente Jair Bolsonaro que poderia prendê-lo caso levasse adiante planos para se manter no poder após derrota na eleição de 2022.

Baptista Júnior presta depoimento como testemunha na ação penal sobre o golpe de Estado fracassado que teria sido tentado durante o governo Bolsonaro, conforme denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Questionado pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, o ex-chefe da Aeronáutica disse saber da repercussão do depoimento do próprio Freire Gomes, que negou ter dado voz de prisão a Bolsonaro. Baptista Júnior, ainda assim, disse 

confirmar o alerta feito pelo colega, conforme já havia sido relatado à Polícia Federal (PF). 

“Confirmo, sim senhor. Acompanhei anteontem a repercussão [do depoimento de Freire Gomes]. Estava chegando de viagem. Freire Gomes é uma pessoa polida, educada, não falou com agressividade, ele não faria isso. Mas é isso que ele falou. Com muita tranquilidade, calma, mas colocou exatamente isso. ‘Se fizer isso, vou ter que te prender’”, afirmou Baptista Júnior. 

Em seu depoimento, na segunda (19), o ex-comandante do Exército disse que não teria mencionado a palavra prisão, mas somente alertado que o então presidente poderia ser “enquadrado juridicamente” caso levasse adiante alguma medida ilegal.

Baptista Júnior acrescentou não ver contradição entre o seu relato e o de Freire Gomes, alegando que ambos confirmam o alerta feito a Bolsonaro, ainda que não tenha havido uma “voz de prisão” propriamente dita.

Conforme mostrado pela reportagem da Agência Brasil, ao ser indagado novamente sobre o ponto, pelo advogado Demóstenes Torres, defensor do ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, Baptista Júnior afirmou mais uma vez que mantém o que disse no depoimento à PF. “Ele [Freire Gomes], com toda educação, disse ao presidente [Bolsonaro] que poderia ser preso sim, mantenho isso”, reforçou. 

Leia mais: PL demite ex-ministro de Bolsonaro após vazamento de críticas a Michelle

A fala de Freire Gomes teria se dado em uma reunião realizada em novembro, após o segundo turno da eleição de 2022, no Palácio da Alvorada, quando os comandantes das Forças Armadas e o então presidente discutiam “análise de conjuntura” sobre o país. 

Minuta golpista e prisão de Moraes 

O ex-chefe da FAB também confirmou em seu depoimento reunião com o então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, no ministério, em 14 de novembro de 2022, em que lhe foi apresentada uma minuta de ato presidencial com a previsão de que o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, não tomasse posse em 1º de janeiro de 2023. 

Assim como em seu depoimento à PF, Baptista Júnior relatou ter chegado por último ao encontro, quando Garnier e Freire Gomes já estavam na sala de Paulo Sérgio e havia um documento dentro um plástico sobre a mesa. 

Baptista Júnior contou ter questionado o ministro se aquele texto previa que o presidente eleito, Lula, não tomasse posse, e que diante do silêncio de Paulo Sérgio entendeu que sim. “Falei ‘não admito sequer receber este documento nem ficarei aqui'”, disse. 

Segundo relatou, ao ser questionado pela defesa do almirante Garnier, ele teria ficado apenas um breve momento na sala, durante o qual o ex-chefe da Marinha não falou nada. O general Freire Gomes também condenou a minuta, acrescentou o antigo comandante da FAB. 

Em outro momento, contudo, Baptista Júnior confirmou o que disse à PF, que Garnier, em dado momento, teria colocado as tropas da Marinha “à disposição” de Bolsonaro. Questionado pelo ministro Luiz Fux por que, em sua visão, o plano golpista não teve sucesso, o ex-comandante da Aeronáutica afirmou que foi “a não participação unânime das Forças Armadas”.

Outro ponto confirmado por Baptista Júnior foi que em tais reuniões ele presenciou a discussão sobre a prisão de autoridades. “Foi sim senhor”, afirmou, em resposta a uma pergunta de Gonet. “Isso era um brainstorm das reuniões, isso aconteceu”, assegurou. Indagado, disse se lembrar com mais convicção do nome do ministro Alexandre de Moraes, visto como um dos principais alvos dos planos golpistas.

Anderson Torres

A reportagem mostrou ainda que o ex-comandante da Aeronáutica pediu para modificar somente um ponto em relação ao que havia dito anteriormente à PF, na fase de inquérito sobre o caso. Ele disse não ter mais a convicção de que o ex-ministro da Justiça Anderson Torres participou de alguma das reuniões em que esteve com Bolsonaro. “Gostaria de fazer essa retificação, acho que em tempo. Eu falei de boa-fé, mas não tenho a certeza da participação de Anderson Torres em alguma reunião”, disser Baptista Júnior. 

Entenda 

Baptista Júnior foi arrolado como testemunha de acusação e por algumas das defesas na Ação Penal 2.668, aberta depois que a Primeira Turma do Supremo aceitou a parte da denúncia da PGR relativa ao chamado núcleo “crucial” do golpe, composto pelas lideranças do complô. 

Entre os réus dessa ação penal está o ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado pela PGR como líder e principal beneficiário da trama golpista, e outros sete ex-ministros de seu governo e assessores próximos. 

As 82 testemunhas do caso começaram a ser ouvidas na segunda (19), por meio de videoconferência. Apenas o brigadeiro Baptista Júnior foi ouvido nesta quarta. As oitavas devem ser retomadas na sexta (23), com os relatos do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice de Bolsonaro, e do atual comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen.

Relator do caso, Morares proibiu qualquer tipo de gravação das audiências. Jornalistas foram autorizados a acompanhar as falas da sala da Primeira Turma, no Supremo. (Com informações da Agência Brasil)

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Bolsonaro Brasília FAB Jair Bolsonaro Prisão réu STF Supremo Trama

Veja também

Senado Federal

Após impasses

Redução da maioridade penal será discutida separadamente da PEC da Segurança

Proposta recebeu 75 votos favoráveis no segundo turno e segue para promulgação; emendas sobre mai...
Presidente do PT sinaliza apoio a Alcolumbre após partido fechar com Motta

Disputa no Congresso

Presidente do PT sinaliza apoio a Alcolumbre após partido fechar com Motta

Eleição das presidências do Senado e da Câmara dos Deputados acontecerá em fevereiro de 2027
keké

Entorno do DF

Em entrevista ao O HOJE, Keké diz que pretende liderar força política independente em Águas Lindas de Goiás

Deputado estadual eleito diz que não pretende se subordinar a grupos políticos e apresenta propost...
Governo tenta barrar redução da maioridade penal na PEC da Segurança Pública

Congresso

Governo tenta barrar redução da maioridade penal na PEC da Segurança Pública

Planalto quer aprovar texto sem alterações no Senado para evitar retorno da proposta à Câmara e ...
Rogério Marinho

Disputa no Senado

Rogério Marinho busca votos de sete partidos para disputar presidência do Senado

Aliados do senador do PL calculam que dissidências em outras bancadas podem garantir os 41 votos ne...
goiás

posse do presidente Lula

Deputado pede investigação sobre diárias de hotéis até 23 vezes mais caras na posse de Lula

Fábio Felix acionou MPDFT e Procon-DF após identificar valores elevados para hospedagens entre 4 e...
Fux defende que bets “devem ser banidas” e rebate críticas sobre convocados para audiência pública

Apostas online

Fux defende que bets “devem ser banidas” e rebate críticas sobre convocados para audiência pública

Ministro do Supremo foi criticado nas redes sociais por audiência sobre proibição das apostas onl...
Após eleições, CLDF se prepara para nova legislatura; veja os próximos passos

POLÍTICA

Após eleições, CLDF se prepara para nova legislatura; veja os próximos passos

Diplomação dos 24 deputados distritais eleitos está prevista até 18 de dezembro; posse e eleiç�...