domingo, 18 de outubro de 2026
Saúde

A febre dos remédios fáceis

O uso descontrolado de medicamentos sem prescrição se tornou rotina entre brasileiros e já provoca mortes, intoxicações e resistência a antibióticos

Luana Avelarpor em
A febre dos remédios fáceis

Tomar um comprimido por conta própria para dor de cabeça, febre ou ansiedade virou prática corriqueira no Brasil. A automedicação está tão normalizada que já não causa espanto: cerca de 90% da população recorre a medicamentos sem prescrição, segundo levantamento do Conselho Federal de Farmácia. Mais da metade o faz com regularidade. A frequência preocupa especialistas porque não se trata apenas de um desvio pontual, mas de um hábito consolidado e socialmente aceito.

Entre os efeitos mais visíveis estão as intoxicações. Dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas mostram que os medicamentos lideram os registros de internações por intoxicação no país. São mais de 30 mil casos por ano. Outro levantamento, da Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas, estima que cerca de 20 mil brasileiros morrem anualmente em decorrência da automedicação. Trata-se de uma epidemia, difícil de rastrear, mas presente em farmácias, supermercados e nas gavetas de casa.

A facilidade de acesso aos remédios, a autoconfiança do paciente e a lentidão do sistema de saúde compõem o cenário. Quando o atendimento médico exige espera, o balcão da farmácia se apresenta como alternativa. Entre os idosos, a prática é ainda mais arriscada: o uso combinado de medicamentos para hipertensão, diabetes e dores crônicas favorece interações perigosas e efeitos colaterais graves.

O problema se agravou durante a pandemia. A disseminação de medicamentos sem comprovação científica, no rastro do chamado kit covid, reforçou a percepção de que o remédio é uma saída legítima mesmo sem prescrição. Pior: consolidou o uso político da automedicação, transformando decisões técnicas em apostas ideológicas. O resultado foi o aumento da resistência a antibióticos, o comprometimento de órgãos vitais e o atraso no diagnóstico de doenças mais complexas.

A maioria dos brasileiros busca orientação na internet antes de ingerir qualquer medicamento. Sem filtro ou checagem de fontes, as pessoas se expõem a orientações equivocadas. A crença no saber do vizinho, no conselho da avó ou na recomendação de um influenciador digital ganhou mais força que a opinião médica. A banalização do consumo de substâncias químicas criou um ambiente onde a saúde é tratada por tentativa e erro.

É preciso reconstruir uma cultura do cuidado, em que o corpo não seja apenas silenciado por fármacos, mas ouvido com atenção. O remédio, afinal, não é um fim em si mesmo. Ele deveria ser uma ponte entre o sintoma e a cura, não um atalho que termina em sobrecarga hospitalar.

Enquanto o Brasil seguir automedicando sua dor, o sistema continuará tratando as consequências e ignorando as causas. E, como mostram os números, há um preço alto sendo pago por esse alívio imediato.

 

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Checar a porta várias vezes pode ser sinal de TOC? Entenda

SAÚDE

Checar a porta várias vezes pode ser sinal de TOC? Entenda

Verificar se a porta está trancada pode ser uma reação comum à distração. O sinal de alerta su...
Eudóxia de Barros

Cultura

Goiânia recebe recital gratuito de Eudóxia de Barros neste sábado

Pianista interpreta obras de Beethoven, Schumann e compositores brasileiros neste sábado (17), no C...
Festival de Comida Afetiva reúne receitas de família, empreendedorismo feminino e música em Porangatu

neste sábado

Festival de Comida Afetiva reúne receitas de família, empreendedorismo feminino e música em Porangatu

Evento gratuito no Centro Cultural da cidade espera 3 mil visitantes e inclui competição entre mai...
coluna

SAÚDE E BEM-ESTAR

Cinco dicas para cuidar da coluna em sua rotina; ortopedista explica o que realmente funciona

Ortopedista alerta que ficar imóvel é tão prejudicial quanto sentar errado e explica como adaptar...
TDAH e autismo em adultos: neurologista explica por que sucesso profissional não descarta diagnóstico

saúde

TDAH e autismo em adultos: neurologista explica por que sucesso profissional não descarta diagnóstico

Especialista alerta que alta performance pode esconder custo emocional elevado e que neurodivergênc...
Cuidados paliativos começam no diagnóstico e caminham junto com o tratamento, explica geriatra

saúde

Cuidados paliativos começam no diagnóstico e caminham junto com o tratamento, explica geriatra

Abordagem não se restringe ao fim da vida e busca controlar sintomas, reduzir sofrimento e preserva...
Horóscopo

ASTROS

Horóscopo do dia (17/10): veja as previsões para o seu signo

Leitura astrológica destaca diálogo nos relacionamentos, cooperação no trabalho e organização ...
Edson & Hudson e Gian & Giovani se apresentam em Goiânia

Clássicos do Sertanejo

Edson & Hudson e Gian & Giovani se apresentam em Goiânia

Clássicos do Sertanejo reúne as duas duplas no dia 31 de outubro, na Arena Multiplace, com sucesso...